EUA confirmam novas taxas comerciais e pressionam governo brasileiro
Medida enviada a Donald Trump encerra rodada de negociações bilaterais, mas governo brasileiro ainda tenta reverter impacto ampliando isenções aduaneiras
Representantes da Casa Branca confirmaram ao Palácio do Planalto, nesta terça-feira (14) por meio de uma videoconferência, o envio da recomendação final de novas taxas contra produtos brasileiros ao presidente Donald Trump, dando os debates bilaterais por encerrados sob a justificativa de que falta empenho técnico e comercial por parte de Brasília.
Negociações encontram barreira
O chefe do USTR, Jamieson Greer, conduziu a reunião virtual e comunicou de forma incisiva que a fase de tratativas bilaterais chegou ao fim. O tom do encontro foi considerado duro e surpreendeu a comitiva de Brasília, com críticas diretas do representante norte-americano sobre o que Washington considerou uma postura inerte do lado brasileiro nas últimas semanas. O representante da Casa Branca sinalizou que o tempo de diplomacia prévia se esgotou e que a decisão agora repousa sobre a mesa do Executivo americano.
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O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) confirmou a recomendação de um novo tarifaço contra o Brasil (Vídeo: reprodução/Instagram/@redetvt)
No entanto, as autoridades diplomáticas e comerciais brasileiras reagiram imediatamente para conter o desgaste político e econômico do anúncio. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, acompanhado de perto pelos diplomatas Mauricio Lyrio e Audo Faleiro, contestou os argumentos levantados por Greer. A delegação de Brasília apontou que as premissas americanas de investigação não faziam sentido e careciam de qualquer amparo factual.
As autoridades do Brasil destacaram ainda que os argumentos norte-americanos para embasar as retaliações com base na chamada Seção 301 são inconsistentes. Um dos pontos de maior atrito foi a acusação de Washington relacionada ao aumento do desmatamento na Amazônia, argumento prontamente rebatido com indicadores oficiais que apontam para a redução consistente da devastação florestal. O Itamaraty classificou a justificativa como um pretexto de caráter estritamente protecionista, desprovido de fundamentação científica.
Além das questões de preservação ambiental, a comitiva de Brasília relembrou que chegou a sugerir a redução das tarifas brasileiras sobre a importação de etanol em troca de um acesso ampliado do açúcar nacional ao mercado consumidor norte-americano. O governo de Washington, porém, descartou de imediato qualquer avanço nessa proposta de reciprocidade aduaneira, o que engessou o andamento das conversas de teor tarifário.
Busca por isenções aduaneiras
Apesar do encerramento das conversas bilaterais, a diplomacia do Brasil corre contra o tempo para mitigar um impacto que pode atingir até 21% do valor total das exportações destinadas ao mercado norte-americano. O principal canal de negociação agora se concentra na ampliação da lista prévia de isenções tarifárias. O governo brasileiro insiste que taxar insumos industriais produzidos no Brasil trará prejuízos imediatos para as próprias indústrias americanas instaladas em solo nacional.
Greer pontuou que os Estados Unidos não vão adotar um modelo de lista dinâmica para as exceções aduaneiras, o que significa que novos produtos não serão incluídos de forma gradual após a publicação do decreto presidencial. Por esse motivo, o Palácio do Planalto e o Ministério do Desenvolvimento correm para estruturar argumentos técnicos contundentes para que o setor manufatureiro e as autopeças brasileiras entrem na lista de isenção já no anúncio inicial da Casa Branca.
A estratégia nacional foca em demonstrar que as filiais de corporações norte-americanas localizadas no Brasil enviam peças intermediárias indispensáveis para o funcionamento de suas matrizes nos Estados Unidos. A interrupção ou o encarecimento desse fluxo comercial geraria desemprego e inflação para os próprios norte-americanos. Embora o diálogo oficial tenha sido concluído com descontentamento mútuo, o canal técnico segue em aberto sob a promessa de que Washington “tomará nota” do apelo privado brasileiro.
Governo federal já trabalha com o cenário da confirmação de uma nova tarifa dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. (Vídeo: reprodução/YouTube/ @CNNbrasil /@cnnbrmoney)
No fechamento do encontro virtual, os representantes brasileiros reforçaram que o país segue de portas abertas para construir saídas negociadas que evitem uma escalada protecionista prejudicial a ambos os lados. Em paralelo à atuação do Itamaraty, confederações industriais e empresas do setor privado nacional já organizam uma ofensiva de bastidores para sensibilizar congressistas e associações comerciais nos Estados Unidos antes da assinatura final do decreto.
