Governo brasileiro intensifica negociações para tentar evitar tarifaço dos EUA
Governo aguarda nova rodada de diálogo com Washington antes da decisão sobre tarifas e mantém estratégia de negociação sem ampliar concessões
O governo brasileiro entrou na reta final das negociações com os Estados Unidos na tentativa de impedir a aplicação de novas tarifas sobre produtos nacionais. A expectativa do Palácio do Planalto é realizar mais uma reunião com representantes do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) antes do prazo previsto para a conclusão da investigação comercial conduzida com base na chamada Seção 301 da legislação norte-americana.
A decisão dos Estados Unidos deve ser anunciada até 15 de julho e poderá resultar na imposição de uma tarifa de até 25% sobre produtos brasileiros. Nos bastidores, integrantes do governo admitem que o cenário continua desafiador, embora as conversas diplomáticas permaneçam abertas em busca de uma solução negociada.
Governo aposta em última rodada de diálogo
A estratégia brasileira concentra esforços na realização de um novo encontro do grupo de trabalho bilateral criado para discutir questões comerciais entre os dois países. Caso a reunião seja confirmada, ela será a quinta conversa oficial entre representantes do governo brasileiro e o chefe do USTR, Jamieson Greer.
A expectativa do governo é que esse encontro funcione como uma etapa decisiva das negociações. Fontes envolvidas nas tratativas avaliam que o lado americano poderá sinalizar qual será o desfecho da investigação antes mesmo do anúncio oficial.
Na última sexta-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ministros responsáveis pela condução das negociações para avaliar os cenários possíveis. Participaram do encontro integrantes dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que lideram as tratativas técnicas com Washington.
Lula se reuniu com equipe na última sexta (10) para decidir estratégia às vésperas de novo tarifaço (Vídeo:reprodução/YouTube/@cnnbrasil)
Segundo interlocutores do Planalto, o diagnóstico apresentado durante a reunião foi de que a possibilidade de aplicação das tarifas continua sendo considerada a hipótese mais provável. A avaliação leva em conta o andamento das negociações, o histórico recente da política comercial adotada pela administração de Donald Trump e declarações públicas de autoridades americanas.
Em entrevista concedida na última semana, Jamieson Greer afirmou que ainda existe uma distância significativa entre as posições dos dois governos e indicou que a decisão será conhecida dentro do prazo previsto pela legislação americana.
Brasil mantém posição em temas considerados estratégicos
Apesar da pressão exercida pelos Estados Unidos, o governo brasileiro decidiu preservar sua estratégia de negociação, evitando concessões em temas considerados sensíveis para a política econômica nacional.
Entre os principais pontos que permanecem fora da mesa de negociação está o sistema de pagamentos instantâneos Pix, tratado pelo governo como um instrumento estratégico para o sistema financeiro brasileiro. A ferramenta foi excluída das propostas apresentadas aos norte-americanos.
Outro tema que permanece sem previsão de flexibilização envolve as tarifas aplicadas ao etanol. O entendimento do Planalto é que mudanças nessa área não encontram justificativa técnica suficiente e poderiam gerar impactos para o mercado interno.
Ao longo dos últimos meses, o Brasil apresentou ao governo americano um conjunto de medidas destinadas a responder às preocupações levantadas na investigação da Seção 301. O documento aborda diferentes áreas questionadas pelos Estados Unidos, incluindo políticas relacionadas ao combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, meio ambiente e comércio internacional.
Parte das iniciativas já está em tramitação no Congresso Nacional, enquanto outras dependem apenas de regulamentações infralegais elaboradas pelo Poder Executivo.
Redução tarifária segue como alternativa nas negociações
Além das medidas institucionais, o Brasil apresentou uma proposta para reduzir tarifas de aproximadamente 300 linhas tarifárias, buscando ampliar a competitividade de produtos americanos no mercado brasileiro.
A iniciativa, entretanto, respeita as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), que impedem a concessão de benefícios exclusivos para apenas um parceiro comercial. Dessa forma, qualquer eventual redução seria estendida a outros países, preservando o princípio da não discriminação previsto nas normas do comércio internacional.
Governo brasileiro espera ter uma última reunião com representantes do governo dos EUA antes do tarifaço (Vídeo/reprodução/YouTube/@cnnbrasil)
Segundo integrantes das negociações, a seleção desses produtos levou em consideração setores nos quais os Estados Unidos possuem maior competitividade, sem provocar impactos relevantes para a indústria brasileira.
Cenários seguem indefinidos
Embora o governo brasileiro trabalhe para evitar a adoção das novas tarifas, fontes do Planalto reconhecem que a possibilidade de taxação permanece elevada.
Existe, ainda, uma hipótese considerada menos provável de que Washington opte por adiar a decisão, ampliando o prazo para continuidade das negociações. Nos bastidores, essa possibilidade é vista como politicamente remota, mas continua sendo monitorada pelas equipes diplomáticas.
Enquanto aguarda a definição americana, o governo mantém a estratégia de privilegiar o diálogo técnico e diplomático, evitando medidas de retaliação neste momento. A avaliação é de que preservar o canal de negociação continua sendo a alternativa mais adequada diante da relevância dos Estados Unidos como um dos principais parceiros comerciais do Brasil e da importância das relações econômicas entre os dois países.
