IBGE aponta que pessoas com deficiência recebem salários quase 30% menores e enfrentam maiores barreiras profissionais

Levantamento divulgado nesta sexta mostra que apenas 29% das PCDs estão empregadas, 60,9% de crianças com deficiência vivem em pobreza e analfabetismo é 12 vezes maior

18 set, 2026
Homem PCD | Reprodução/Freepik
Homem PCD | Reprodução/Freepik

Pessoas com deficiência no Brasil recebem rendimento médio de R$ 2.053 por mês, quase 30% menos que pessoas sem deficiência (R$ 2.890), segundo dados do IBGE divulgados nesta sexta-feira (18) e publicados pelo g1. O levantamento mostra que apenas 29% das PCDs estão ocupadas, contra 55,8% das pessoas sem deficiência, uma diferença de 26,8 pontos percentuais.

O Brasil contava em 2022 com 14,4 milhões de pessoas com deficiência, equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais. Esse contingente enfrenta obstáculos múltiplos no mercado de trabalho e nas oportunidades de renda, segundo o instituto.

Desigualdade de renda

A desigualdade de rendimento aparece em todos os setores econômicos analisados. Na indústria, a diferença chega a 29,3%. Nos setores de informação, atividades financeiras e profissionais, ela atinge 31,3%. Na manufatura especificamente, pessoas com deficiência recebem R$ 1.859 mensais, enquanto pessoas sem deficiência ganham R$ 2.630 no mesmo setor.

O nível de ocupação é o fator que mais explica a lacuna de renda. Apenas 3 em cada 10 pessoas com deficiência em idade de trabalhar têm ocupação, ante 55,8% entre aqueles sem deficiência. Luanda Chaves Botelho, responsável pela Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, aponta as barreiras enfrentadas por esse grupo: “Temos uma sequência de obstáculos que vão se colocando [para as pessoas com deficiência]. Além da barreira de conseguirem uma ocupação, essas ocupações são piores, com menor contribuição à Previdência e menos direitos de proteção social”, contou em entrevista ao g1.


 

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Estudo do IBGE (Foto: reprodução/Instagram/@portalg1)


Pessoas com deficiência concentram-se proporcionalmente mais em atividades com rendimentos médios mais baixos: serviços domésticos, agropecuária, alojamento e alimentação. Essa concentração restringe o potencial de ganho, independentemente de outras variáveis.

A composição da renda familiar revela outra disparidade. Em lares com pessoas com deficiência, o trabalho representa 55,7% do rendimento total, enquanto outras fontes (aposentadorias, pensões, benefícios) respondem por 44,3%. Em famílias sem pessoas com deficiência, o trabalho alcança 78,4% e outras fontes, 21,6%.

André Simões, também do IBGE, explica que esse padrão reflete a composição etária da população com deficiência.”Outro fator que contribui para esse resultado é que a população com deficiência tem um perfil mais envelhecido e, portanto, uma participação maior de aposentadorias, pensões e outros benefícios”, relatou ao g1.

Com maior idade, cresce a dependência de benefícios sociais. Pessoas com 60 anos ou mais apresentam menor incidência de pobreza em ambos os grupos.”Pessoas com 60 anos ou mais também apresentam menor incidência de pobreza, tanto entre aquelas com deficiência quanto entre as sem deficiência, porque recebem mais benefícios, aposentadorias e pensões, contou ao g1″

Entre crianças, o quadro é mais grave. 60,9% das crianças com deficiência de 2 a 14 anos vivem abaixo da linha da pobreza, que o IBGE define como rendimento domiciliar per capita inferior a R$ 770 por mês. A desigualdade se mantém em todos os grupos etários.

Dessas crianças em situação de pobreza, 53,5% moram com ambos os pais (mãe/madrasta e pai/padrasto), enquanto 35,1% vivem apenas com a mãe ou madrasta. A estrutura familiar monoparental concentra ainda mais o risco.

O analfabetismo entre jovens com deficiência é alarmante. A taxa atinge 12,2% entre pessoas de 15 a 29 anos com deficiência, ante 1% entre aquelas sem deficiência, uma proporção 12 vezes maior. A defasagem educacional começa mais cedo.

Em crianças de 6 a 14 anos, a frequência escolar é de 98,4% entre aquelas sem deficiência e 92,6% entre as com deficiência. Nos adolescentes de 15 a 17 anos, cai para 85,4% e 79,5%, respectivamente. Um terço dos jovens com deficiência nessa faixa etária está fora da escola.

78,5% das escolas de educação básica contavam com pelo menos um recurso de acessibilidade em 2022. Os mais comuns foram:

  • Banheiros acessíveis (57% das escolas)
  • Salas de recursos multifuncionais (30%)
  • Profissionais de apoio (26,2%)

Apesar dos avanços em recursos, Luanda Botelho nota que nem todas as escolas contam com medidas de acessibilidade. O desafio persiste para garantir presença na rede completa.

No deslocamento entre casa e trabalho ou escola, a maioria das pessoas com deficiência estuda ou trabalha no mesmo município onde mora. Entre os meios de transporte, ônibus e BRT representam 24,7% dos deslocamentos, caminhar a pé corresponde a 23,7%, e automóveis, táxis ou similares, 22,8%.

O tempo gasto no trajeto também revela disparidade. Pessoas com deficiência gastam em média 37 minutos no deslocamento entre casa e trabalho, enquanto pessoas sem deficiência utilizam 33 minutos, uma diferença de 4 minutos.

“Pessoas com deficiência podem levar mais tempo para chegar ao transporte e embarcar. Por isso, a diferença no tempo total de deslocamento pode ser ainda maior do que a captada pelo levantamento”

Os dados refletem as múltiplas camadas de desvantagem que marcam a trajetória econômica de pessoas com deficiência no Brasil, desde a dificuldade de acesso ao trabalho até a menor remuneração em ocupações equivalentes.

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