Relação entre Brasil e Estados Unidos vive nova incerteza comercial um ano após tarifaço

Um ano após o tarifaço, nova ameaça de taxas de 25% paira sobre o comércio Brasil-EUA. Governo e setor privado correm para evitar impacto.

09 jul, 2026
Tarifaço completa 1 ano (Reprodução: Instagram/@uff)
Tarifaço completa 1 ano (Reprodução: Instagram/@uff)

Um ano após o anúncio de um tarifaço de 50% sobre as importações brasileiras por parte do governo norte-americano, a relação comercial entre Brasília e Washington permanece em um cenário de indefinição. O ponto de inflexão ocorreu em 9 de julho de 2025, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou duras medidas tarifárias, justificando a decisão como uma necessidade de “retificar graves injustiças” e apontando supostas ordens de censura que teriam partido do Supremo Tribunal Federal (STF).

Desde então, o cenário oscilou entre a retórica beligerante, a tentativa de despolitização das negociações por parte do governo brasileiro e a crescente mobilização do setor privado. Com a ameaça de um novo tarifaço pairando sobre o horizonte, o Brasil trava agora uma corrida contra o tempo para evitar novos danos à sua economia.

O histórico de tensões e a politização do comércio

A imposição das tarifas em 2025 foi marcada por uma forte carga ideológica. Trump utilizou o decreto para atacar o STF e mencionar o ex-presidente Jair Bolsonaro, inserindo o tema em uma disputa interna de narrativas. Enquanto setores da oposição brasileira, liderados por figuras como Eduardo Bolsonaro, tentaram atribuir o isolamento comercial do Brasil a ações do ministro Alexandre de Moraes, o governo Lula adotou uma postura de defesa da soberania nacional.

Apesar da escalada verbal, a implementação prática das medidas mostrou-se mais pragmática. O tarifaço inicial, paradoxalmente, poupou quase 45% da pauta exportadora brasileira. Itens estratégicos e de difícil substituição para a indústria norte-americana, como petróleo, celulose, aviões e suco de laranja, receberam alíquotas reduzidas de 10%, evitando um impacto inflacionário ainda maior nos Estados Unidos.


Decisão final está prevista para 15 de julho. (Vídeo: Reprodução/X/@CNNBrasil


A virada na ONU e o breve alívio

Um momento decisivo ocorreu em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da ONU. Um encontro casual entre Lula e Trump, selado por um abraço, iniciou um canal de comunicação mais direto. Trump, à época, destacou uma “química excelente” com o mandatário brasileiro. Esse novo clima resultou, em novembro daquele ano, na suspensão da tarifa extra para mais de 200 produtos brasileiros, incluindo commodities agrícolas e recursos naturais.

O alívio definitivo do tarifaço de 2025 veio por vias judiciais: em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a medida, entendendo que o presidente havia violado a lei federal ao impor taxas unilaterais sem o devido respaldo legislativo.

O novo desafio: Investigação sob a Seção 301

A calmaria, porém, durou pouco. Em maio de 2026, embora tenha elogiado Lula como um “presidente dinâmico” durante um encontro em Washington, Trump mantém o Brasil sob constante pressão. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) iniciou, no início de junho, um processo sob a Seção 301 da Lei de Comércio, que permite retaliações baseadas em investigações de práticas comerciais consideradas injustas pelo governo norte-americano.

As queixas do USTR são amplas e abrangem desde comércio digital e propriedade intelectual até políticas de desmatamento e combate ao trabalho forçado. Para enfrentar essa nova ameaça, o governo brasileiro, articulado com o vice-presidente Geraldo Alckmin, intensificou o diálogo técnico. O objetivo é despolitizar a agenda e demonstrar a interdependência econômica entre as nações.

Setor privado na linha de frente

Diferente do ambiente político, onde as negociações enfrentam entraves pela falta de clareza nas demandas específicas de Washington, o setor privado tem buscado caminhos mais eficazes. Representantes do agronegócio e de entidades industriais, como a Abimci, participaram de audiências em Washington esta semana.

Relatos indicam que, desta vez, as discussões possuem um caráter mais técnico e colaborativo. A narrativa central dos exportadores brasileiros não é apenas de contestação, mas de ênfase na complementaridade dos mercados. A expectativa de empresários e diplomatas é que a pressão exercida pelo setor produtivo dos dois países possa resultar na ampliação da lista de itens isentos de futuras taxações.

A decisão final do USTR sobre a aplicação das novas tarifas de 25% está agendada para o próximo dia 15 de julho. Até lá, o Palácio do Planalto e as principais entidades do empresariado nacional mantêm uma estratégia de diálogo permanente para mitigar os impactos desta nova fase de incertezas que, mais uma vez, coloca à prova a resiliência da parceria comercial entre Brasil e Estados Unidos.

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