Orelhões começam a desaparecer das ruas do Brasil
Com o fim das obrigações das operadoras e mudanças regulatórias, aparelhos clássicos da comunicação urbana estão sendo removidos após mais de 50 anos em uso
Os conhecidos orelhões — telefones públicos que por décadas foram presença constante nas ruas brasileiras — estão sendo retirados gradualmente em diversas cidades a partir de janeiro de 2026, em uma operação autorizada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A expectativa do setor é que a maior parte das estruturas seja desativada ao longo dos próximos anos, marcando o fim de um símbolo da comunicação urbana no país.
Fim de uma era na telefonia pública
Os orelhões, oficialmente conhecidos como Terminais de Uso Público (TUPs), começaram a perder espaço no Brasil com a popularização dos celulares e com mudanças nos contratos de telefonia fixa. A partir de 2026, com o término das principais concessões do serviço de telefonia fixa, as operadoras deixaram de ser obrigadas a manter os aparelhos espalhados pelas ruas.
Orelhão da empresa ”Oi”, em 2015 (Foto: reprodução/Corbis News/Frédéric Soltan/Getty Images Embed)
Dados mais recentes da Anatel mostram que, ao final de 2025, havia cerca de 38 mil orelhões restantes no país — muito abaixo dos mais de 200 mil registrados no início da década de 2020. Com a nova autorização, as empresas iniciaram a retirada desses equipamentos das vias públicas.
Cronograma de remoção e cenários futuros
As operações de remoção começaram em grandes centros ainda em janeiro de 2026 e devem se intensificar ao longo do ano. A Anatel prevê que os aparelhos sejam eliminados progressivamente, com a possibilidade de alguns permanecerem em locais onde o serviço móvel não atinge adequadamente a população, como áreas rurais ou comunidades mais isoladas.
Relatórios indicam que aproximadamente 30 mil orelhões serão desinstalados ao longo de 2026, com a meta de encerramento definitivo da presença desses telefones até o fim de 2028.
Um ícone do design urbano
O orelhão entrou em cena no início da década de 1970 como solução de telefonia pública em ruas e praças quando a maioria das residências ainda não tinha telefone fixo. Sua criação foi assinada pela arquiteta Chu Ming Silveira, que projetou essas cabines buscando funcionalidade, durabilidade e isolamento acústico, características que marcaram sua presença por décadas nas cidades brasileiras.
O formato, apelidado de “orelhão” devido ao seu protetor curvo, tornou-se símbolo da comunicação pública e um elemento reconhecível da paisagem urbana, lembrado por muitas gerações que dependiam do aparelho para fazer ligações de emergência, trabalho ou contato com familiares.
Transformação tecnológica e mudanças de hábito
Especialistas em telecomunicações apontam que a diminuição e retirada dos orelhões refletem a evolução das formas de comunicação. Com a popularização dos telefones celulares e a expansão das redes móveis, o uso desses terminais públicos caiu drasticamente nas últimas décadas.
Além disso, a transição dos antigos contratos de concessão para um regime de autorização, prevista na Lei Geral de Telecomunicações, desobrigou as operadoras de manter o serviço tradicional de telefonia pública, acelerando a desinstalação dos aparelhos.
Memória afetiva e impacto cultural
Para muitos brasileiros, o orelhão carrega reminiscências de momentos sociais e culturais específicos. Desde ligações durante viagens até a famosa expressão popular “cair a ficha”, que fazia referência literal às fichas usadas nos aparelhos, esses telefones fizeram parte do cotidiano por décadas.
A retirada dos orelhões simboliza não apenas uma mudança tecnológica, mas também o término de um capítulo da comunicação pública urbana, que acompanhou transformações sociais e o avanço das telecomunicações no Brasil.
