Sérgio Gargantini: “É melhor falhar tentando do que viver imaginando”
Sérgio Gargantini revela como sua trajetória, do trabalho nos trens de São Paulo ao mercado financeiro, deu origem a uma tecnologia inovadora.
Sérgio Gargantini revela como sua trajetória, do trabalho nos trens de São Paulo ao mercado financeiro, deu origem a uma tecnologia inovadora.
Antes do empresário e desenvolvedor da ASG, quem é o Sérgio Gargantini? Quais experiências pessoais e profissionais que mais contribuíram para formar a sua visão de negócios?
“Antes de qualquer empresa ou tecnologia, eu sou resultado de uma trajetória de muita observação, inconformismo e tentativa e erro. Cresci na Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, em uma realidade bastante distante do mercado financeiro e do ambiente empresarial em que estou inserido hoje. Ainda criança, tive minhas primeiras experiências tentando ganhar meu próprio dinheiro e, aos 13 anos, cheguei a vender calendários nos trens de São Paulo.” “Aqueles trens foram uma grande escola para mim. Eu passava horas observando as pessoas e comecei muito cedo a questionar qual caminho queria construir para a minha vida. Depois veio a música. Fui guitarrista profissional e a busca pela excelência técnica me ensinou algo que carreguei para todas as outras áreas: a capacidade de estudar obsessivamente um problema até compreendê-lo em profundidade. Mais tarde, empreendi, acertei, errei e também tomei decisões financeiras muito ruins. Cheguei a perder praticamente tudo e acumular dívidas. Isso foi fundamental para amadurecer minha visão sobre dinheiro, risco e tomada de decisão.” “Quando olho para a minha trajetória, percebo que minha visão de negócios não nasceu em uma faculdade ou em um único empreendimento. Ela foi construída pela combinação entre escassez, curiosidade, disciplina, erros e uma necessidade quase permanente de entender como as coisas funcionam.”
Em que momento da sua trajetória você percebeu que era preciso criar uma solução própria para ajudar as empresas a se organizarem melhor? Como surgiu a ideia da ASG?
“A ASG nasceu primeiro de uma necessidade minha como trader. Quando entrei no mercado financeiro, fiz o caminho que praticamente todo trader faz: estudei estratégias, indicadores, análise técnica, comportamento de preço e passei incontáveis horas diante dos gráficos tentando compreender os movimentos do mercado. Com o tempo, comecei a perceber um problema. Existia muito conhecimento sendo transmitido com base em percepção e experiência, mas pouca capacidade de responder objetivamente a uma pergunta que, para mim, era fundamental: isso realmente funciona ou apenas parece funcionar?”
“O ser humano é muito suscetível a vieses. Nós lembramos dos acertos, racionalizamos os erros e muitas vezes enxergamos padrões onde talvez eles nem existam. No mercado financeiro, isso pode custar muito dinheiro. Foi aí que comecei a migrar de uma visão mais discricionária para uma abordagem cada vez mais quantitativa. Eu queria transformar ideias em números. Queria pegar aquilo que um trader enxergava no gráfico e descobrir o que aconteceria se pudéssemos testar aquela mesma lógica milhares de vezes, em diferentes períodos e condições de mercado.”
“Só que surgiu outro problema: fazer isso manualmente era extremamente trabalhoso e limitado. Então comecei a desenvolver minhas próprias ferramentas. No início, eu não estava pensando em criar uma empresa ou um produto. Eu estava tentando resolver o meu próprio problema. Cada nova dificuldade que encontrava como trader gerava uma nova funcionalidade, um novo teste, um novo algoritmo. Até que aquilo começou a se tornar algo muito maior.”
“Percebi que o problema que eu estava tentando resolver não era exclusivamente meu. Milhares de traders tinham boas ideias, estudavam muito e passavam horas diante dos gráficos, mas não possuíam ferramentas capazes de transformar esse conhecimento em sistemas estruturados, testáveis e mensuráveis.” “Foi dessa necessidade que nasceu a ASG — Algorithmic System Generation.
A ideia central passou a ser dar ao trader capacidade computacional para fazer algo que seria humanamente muito difícil: explorar possibilidades, testar hipóteses em grande escala e utilizar dados para descobrir se existe realmente uma vantagem estatística por trás de uma estratégia. No fundo, a ASG nasceu da minha própria obsessão por uma pergunta muito simples: “Antes de colocar meu dinheiro em risco, como eu posso saber se aquilo em que acredito possui evidências de que realmente funciona”?.” “Foi tentando responder essa pergunta para mim mesmo que comecei a construir uma tecnologia que, mais tarde, poderia responder essa mesma pergunta para milhares de outros traders.”
Desenvolver um software como a ASG certamente exigiu mais do que conhecimento técnico. Quais foram os maiores desafios que você enfrentou até transformar uma ideia em uma tecnologia aplicada às empresas?
“O maior desafio não foi escrever código. Código, você estuda, pesquisa, testa e aprende. O problema realmente difícil é saber o que precisa ser construído.”
“Para desenvolver a ASG, eu precisei conectar conhecimentos de mercado financeiro, estatística, lógica, programação, gestão de risco e comportamento humano. E existe outro componente importante: persistência. Durante muito tempo, você se dedica a algo que não tem nenhuma certeza se aquilo vai funcionar comercialmente. São milhares de horas estudando, programando, testando hipóteses, encontrando erros, descartando caminhos e começando novamente.”
“Minha experiência anterior como músico acabou sendo muito importante nesse processo. Quando adolescente, eu conseguia passar seis, oito, dez horas repetindo o mesmo movimento na guitarra até atingir o nível técnico que buscava. Anos depois, percebi que estava fazendo exatamente a mesma coisa diante de um computador. Mudou o instrumento, mas não mudou o comportamento.”
“Talvez o maior desafio tenha sido justamente suportar o período em que eu conseguia enxergar algo que ainda não estava pronto o suficiente para ser enxergado pelos outros. É preciso continuar construindo mesmo antes do reconhecimento.”
O que a sua própria trajetória como empresário ensinou sobre gestão, organização e tomada de decisões? E como esses aprendizados foram incorporados ao desenvolvimento da ASG?
“Eu aprendi, principalmente através dos meus próprios erros, que uma boa decisão não pode ser avaliada apenas pelo resultado imediato. Quando era muito jovem, comecei a empreender e tive algum sucesso financeiro rapidamente. Isso me fez acreditar que aquela trajetória seria sempre crescente.”
“Passei a gastar mais, assumi compromissos incompatíveis com meu patrimônio e tomei decisões baseadas muito mais em confiança e emoção do que em gestão de risco. O resultado foi muito ruim. Perdi o que havia construído e levei anos para reorganizar completamente minha vida financeira. Mais tarde, quando entrei no mercado financeiro, percebi que o mesmo comportamento se repetia todos os dias entre investidores: decisões emocionais sendo justificadas posteriormente como decisões racionais. Isso influenciou profundamente a filosofia por trás da ASG.”
“Eu passei a acreditar cada vez menos em convicção sem evidência. No mercado, não basta alguém dizer “eu acho que funciona”. Quero saber quantas vezes aconteceu, em quais condições, qual foi o risco, qual a distribuição dos resultados, em quais cenários falhou e se existe evidência estatística suficiente para sustentar aquela hipótese.” “De certa forma, a ASG representa uma evolução da minha própria forma de tomar decisões: menos impulso, mais evidência; menos opinião, mais dados; menos certeza absoluta, mais gestão de probabilidades.”
Hoje, quais são os seus principais clientes?
“Hoje a ASG está direcionada principalmente para participantes do mercado financeiro que buscam uma abordagem mais quantitativa e profissional para o desenvolvimento e análise de estratégias. Isso inclui traders, investidores, gestores e profissionais que precisam transformar uma hipótese de mercado em algo que possa ser efetivamente testado e mensurado.”
“Mais do que definir nosso público apenas pelo tamanho do cliente, eu gosto de defini-lo pela necessidade: atendemos pessoas e operações que entenderam que, no mercado financeiro, uma boa narrativa não substitui evidência. À medida que a tecnologia evolui, também estamos ampliando sua capacidade de atender estruturas cada vez mais profissionais e institucionais.”
Quais são os próximos passos ou planos inovadores que você imagina para expandir essa tecnologia?
“Eu acredito que estamos apenas no início. A evolução natural da ASG é aumentar cada vez mais a capacidade de transformar dados em inteligência e reduzir o tempo necessário entre uma hipótese e sua validação. O mercado financeiro produz uma quantidade gigantesca de informações, e nenhum ser humano consegue analisar manualmente todas as combinações possíveis. É justamente aí que tecnologia, automação e inteligência artificial passam a ter um papel muito relevante.”
“Minha visão para a ASG é avançar cada vez mais na capacidade de geração, teste e análise de sistemas, permitindo investigar um universo de possibilidades que seria impraticável através do trabalho humano convencional. Mas existe uma preocupação que considero fundamental: a tecnologia não pode produzir apenas respostas. Ela precisa produzir respostas que possam ser questionadas, testadas e validadas.
No mercado financeiro, uma resposta aparentemente inteligente pode custar muito dinheiro quando está errada. Por isso, quero que a ASG continue evoluindo sobre o mesmo princípio que originou todo o projeto: não acreditar simplesmente em uma ideia porque ela parece boa. Submetê-la aos dados.” “Minha ambição é que aquilo que começou como uma ferramenta criada para resolver um problema pessoal se transforme em uma infraestrutura cada vez mais relevante para quem deseja desenvolver e validar estratégias quantitativas no mercado financeiro.”
