Fiocruz inicia terapia inédita para Atrofia Muscular Espinhal e custo do tratamento pode reduzir no Brasil

Instituição faz primeiro estudo clínico em humanos com dose única e benefício pode ser vitalício para bebês que apresentam a forma mais grave da doença

26 fev, 2026
Castelo da Fiocruz | Reprodução/X/@jadsonfreitas99
Castelo da Fiocruz | Reprodução/X/@jadsonfreitas99

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizou primeiro estudo clínico em humanos de uma terapia gênica – técnica inovadora com tratamento focado nos genes – para combate a forma mais grave da Atrofia Muscular Espinhal (AME). A divulgação do atendimento aconteceu nesta quinta-feira (26), em Brasília, durante agenda do Ministério da Saúde sobre o Dia Mundial das Doenças Raras, celebrado em 28 de fevereiro. A Atrofia Muscular Espinhal é uma doença rara causada por alteração no gene SMN1 – que produz proteína vital para o comando dos movimentos. A doença se manifesta nos primeiros meses de vida, provocando perda progressiva de força muscular e comprometendo a vida de crianças ainda na primeira infância. 

Terapia de aplicação única pode servir por toda a vida 

O produto usado, nomeado GB221, é específico para a AME tipo 1 e, segundo a Fiocruz, pode reduzir expressivamente os custos de produção do tratamento no Brasil, se comparado aos Estados Unidos. O GB221 é um medicamento de terapia gênica avançada de aplicação única, que pode beneficiar o paciente durante toda a vida. Segundo a fundação, outro ponto positivo seria a curta durabilidade dos impactos do tratamento, fato que permite melhora na qualidade de vida em pouco tempo. O procedimento aconteceu em janeiro, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre – habilitado pelo Ministério da Saúde para terapia gênica –  e o primeiro paciente da inovação foi um bebê diagnosticado com AME tipo 1.

A dose foi aplicada via intracisterna magna (ICM), técnica que leva o remédio até o sistema nervoso central. De acordo com o professor do hospital, Jonas Saute, essa via faz com que o tratamento alcance mais regiões do cérebro e da medula espinhal e minimiza possíveis efeitos danosos a outros órgãos. Ainda segundo Saute, esta via permite administrar o medicamento inclusive em pacientes com anticorpos contra o vírus utilizado na terapia. O procedimento foi seguido por exames de ressonância magnética e tomografia. 

Na fase inicial, há avaliação da segurança e tolerância do produto. O protocolo prevê a inclusão gradual de pacientes para acompanhamento criterioso. “Devemos incluir nos próximos meses um segundo paciente. O estudo inovador reflete o papel estratégico de instituições públicas na ciência de vanguarda no Brasil”, defende Saute.


Fiocruz inicia estudos clínicos de tratamento para AME tipo 1 – considerado o nível mais grave da doença (Foto: reprodução/Instagram/@oficialfiocruz)


Custos devem reduzir no Brasil 

O estudo é parte da Estratégia Fiocruz para Terapias Avançadas, que tem como objetivo estruturar bases científicas, de produção e também de assistência para  disponibilizar produtos voltados ao tratamentos de doenças raras no Sistema Único de Saúde (SUS).  O projeto é uma parceria da Fiocruz com a empresa norte-americana Gemma Biotherapeutics, Inc. (GEMMABio), a Intrials Pesquisa Clínica Ltda, a Casa dos Raros, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas. Segundo a instituição, o contrato firmado entre a Fiocruz e a GEMMABio prevê redução expressiva no custeio da produção do tratamento no Brasil, em comparação ao que ocorre nos Estados Unidos.

O estudo clínico em andamento abre uma frente de ação que pode transformar a vida de famílias e crianças que lidam no dia a dia com a doença. O acordo também garante a abertura de caminhos para acesso a uma terapia gênica inovadora pela primeira vez no Sistema Único de Saúde”, explica o presidente da Fiocruz, Mario Moreira. 

Para a diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Rosane Cuber, a incorporação da tecnologia representa um “salto disruptivo para a ciência brasileira”.

Brasil e mundo têm como desafio mais de 5 mil doenças raras 

Estima-se que, ao todo, existam mais de cinco mil tipos de doenças raras. As causas podem variar entre fatores genéticos, ambientais, infecciosos ou imunológicos, entre outros. Entre outros exemplos, além da AME, estão: a Distrofia Muscular de Duchenne, a Fibrose Cística e a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). A falta de informação sobre tais enfermidades e a complexidade dos quadros clínicos pode levar a grande demora para se conseguir um diagnóstico definitivo. 

No Brasil, calcula-se que 13 milhões de pessoas convivam com algum tipo de doença rara. Para receber tal título, a proporção do alcance da patologia precisa ser de até 65 pessoas a cada 100 mil indivíduos.

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