PF expõe mensagens e encontros de Moraes com Vorcaro
A quebra de sigilo do celular do ex-banqueiro expõe contatos frequentes e contratos, porém a PF não imputa crimes ao ministro Alexandre de Moraes
Investigações da Polícia Federal revelaram, nesta terça-feira (1º), a existência de intensas trocas de mensagens e reuniões presenciais entre o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, e o empresário Daniel Vorcaro. Os dados foram obtidos durante a análise de celulares do ex-banqueiro, após o Supremo autorizar a retirada do sigilo do relatório policial para dar transparência à apuração de um esquema financeiro irregular ligado à emissão de títulos de crédito.
Mensagens entre Moraes e Vorcaro
A Polícia Federal realizou uma investigação minuciosa no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, após apreender seu aparelho durante apurações sobre fraudes bilionárias. O relatório, que estava sob sigilo, foi liberado pelo ministro André Mendonça, revelando à sociedade a rede de influência mantida pelo empresário com figuras de Brasília.
O cruzamento de dados expôs um grau de proximidade incomum entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, cujo contato era salvo de forma informal no telefone do executivo. As conversas revelam que o empresário acionava o magistrado a qualquer momento para tratar de diversos assuntos, demonstrando intimidade e liberdade para consultas rápidas.
Relatório da Polícia Federal aponta análise em celular de Vorcaro (Vídeo/Reprodução/YouTube/@recordnews)
Entre os trechos de maior repercussão, Vorcaro perguntou a Moraes se precisava deixar o país às vésperas de sua prisão preventiva em novembro, sendo detido dias depois ao tentar fugir. O relatório também destaca declarações de lealdade, como uma “dívida de vida” com o ministro, cuja aproximação contou por vezes com a intermediação do ex-ministro Fábio Faria.
Encontros e conteúdo do celular
Somado à vasta quantidade de mensagens de texto trocadas de modo digital, o relatório da PF destacou a concretização de inúmeras agendas presenciais entre o empresário e o magistrado. Segundo o mapeamento dos investigadores, ocorreram de seis a nove encontros físicos documentados entre março de 2024 e agosto de 2025. Esses momentos de interação aconteciam em diferentes ambientes, desde espaços reservados na capital até a própria residência luxuosa do banqueiro investigado. Para comprovar a frequência dessas reuniões, a polícia anexou conversas de motoristas, seguranças e funcionários da casa de Vorcaro, que avisavam de forma protocolar o instante exato da chegada do ministro às dependências privadas.
O material extraído da memória do aparelho foi além das agendas sociais e revelou a existência de vultosos compromissos financeiros envolvendo a família do ministro e as empresas geridas por Daniel Vorcaro. Os analistas encontraram registros de um contrato milionário no valor de 130 milhões de reais firmado entre as companhias do ex-banqueiro e o renomado escritório de advocacia administrado por Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado. Um segundo acordo de prestação de serviços, assinado com a Viking Participações, controladora que também pertence ao empresário, estipulava o repasse de mais 50 milhões de reais para a mesma banca jurídica em maio de 2025.
Polícia Federal expõe mensagens entre Vorcaro, Fábio Faria e ministro Alexandre de Moraes (Vídeo/Reprodução/YouTube/@opovo)
Nas comunicações interceptadas, Vorcaro tratava os pagamentos destinados à esposa de Moraes como o compromisso financeiro mais urgente de seu grupo corporativo, exigindo extrema prioridade na liquidação dessas faturas. Em um diálogo interceptado com um de seus sócios, ele reclamou abertamente sobre um atraso no depósito do valor combinado, alertando com tom de gravidade que teriam problemas sérios caso a pendência não fosse imediatamente resolvida. Esses achados documentais reforçaram, aos olhos da perícia, o forte vínculo patrimonial e institucional que sustentava a relação de proximidade encontrada no rastreamento telefônico.
As mensagens evidenciaram ainda que a influência do ministro se estendia para eventos corporativos e sociais financiados pelo Banco Master, inclusive na Europa. Durante a organização de um prestigiado seminário jurídico promovido pela instituição financeira em Londres, conversas demonstraram que Moraes detinha poder de decisão sobre a lista de convidados que participariam das palestras. Da mesma forma, no Brasil, o empresário planejou uma recepção privada superlativa, com direito a chef de cozinha exclusivo, cavalos de raça, banda de música e múltiplos seguranças, onde o convidado de honra foi tratado nas planilhas de organização sob o singelo apelido de “Alex”.
Polícia Federal não atribui crime a Moraes
Apesar da farta documentação reunida, das cifras contratuais milionárias e dos múltiplos encontros fora de ambientes institucionais, a Polícia Federal adotou cautela ao concluir a investigação. O relatório oficial não apontou a prática de crimes por parte do ministro Alexandre de Moraes, restringindo as acusações às condutas financeiras do ex-banqueiro, ao ressaltar que a proximidade interpessoal não configura, por si só, infração penal no exercício do cargo.
As menções aos contratos firmados com o escritório de advocacia da esposa do ministro foram anexadas ao inquérito com o propósito de detalhar a abrangente rede de contatos, o fluxo de caixa das empresas de Vorcaro e o destino final dos recursos movimentados de forma atípica. Para os delegados, a simples contratação de uma banca jurídica devidamente registrada e a prestação dos respectivos serviços legais não caracterizam corrupção passiva ou tráfico de influência sem que haja a materialidade de uma contrapartida ilícita comprovada. Dessa maneira, as autoridades mantiveram o foco da responsabilização criminal exclusivamente nas manobras contábeis e na falsificação de títulos que motivaram a prisão do fundador do Banco Master.
As revelações detalhadas sobre os contatos provocaram debates imediatos no meio jurídico e político a respeito da ética nas relações entre autoridades do judiciário, seus parentes e grandes empresários. Apesar da discussão sobre conflitos de interesse, a apuração da Polícia Federal não resultou em acusações criminais formais contra o ministro, que aparece no inquérito apenas como figura de contato em um esquema de influência empresarial. Assim, embora a quebra do sigilo tenha exposto os bastidores dessas relações, ela não se transformou em indiciamento legal.
