Bolsonaro mantém influência e orienta palanques estaduais a partir da prisão
Mesmo detido na Papuda, o ex-presidente recebe aliados, avalia cenários regionais e segue participando das decisões estratégicas da oposição
Mesmo longe dos palanques e dos holofotes oficiais, Jair Bolsonaro segue no centro das decisões da direita brasileira. Preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília, o ex-presidente passou a comandar, de dentro da cela, parte significativa das articulações que miram as eleições de 2026. O local, nos bastidores, já é tratado por aliados como o principal ponto de definição das estratégias da oposição. A movimentação é intensa. Parlamentares de diferentes estados disputam espaço na agenda de visitas, que precisa ser autorizada pelo Supremo Tribunal Federal
Continuidade do Bolsonarismo
Nos próximos dias, Bolsonaro deve receber deputados do Rio de Janeiro e da Paraíba, além de um senador por Goiás. Outros congressistas, de estados como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, também solicitaram permissão para encontros, ampliando a fila de aliados em busca de orientação política. As decisões mais relevantes começaram ainda antes da transferência definitiva para a Papuda. Foi quando Bolsonaro confirmou que seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), será o nome da família na corrida presidencial de 2026. A escolha vem sendo apresentada como um gesto de continuidade do bolsonarismo, mesmo diante das restrições judiciais impostas ao ex-presidente. Na quinta-feira, o tema voltou à mesa durante conversa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo relatos, Tarcísio reafirmou que disputará a reeleição no estado e declarou apoio ao projeto nacional liderado por Flávio Bolsonaro, afastando especulações sobre uma candidatura própria ao Planalto.
Flávio Bolsonaro discursando (Foto: reprodução/Pablo Porciuncula/Getty Images Embed)
Barreiras impostas pelo Judiciário
Apesar da intensa articulação, há barreiras claras impostas pelo Judiciário. Um pedido de encontro entre Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, foi negado pelo ministro Alexandre de Moraes. O argumento foi a impossibilidade de comunicação direta entre réus que respondem ao mesmo processo, no caso, a investigação sobre tentativa de golpe de Estado. O cenário não é inédito na política brasileira. Em 2018, o então ex-presidente Lula também coordenou, da prisão, os rumos de seu partido. Foi da cela, em Curitiba, que Lula conduziu a escolha de Fernando Haddad como candidato do PT à Presidência, após uma série de conversas com dirigentes e aliados.
Agora, em um contexto distinto, Bolsonaro repete a estratégia: sem mandato, sem liberdade, mas ainda exercendo forte influência sobre o campo político que lidera. A cela, mais uma vez, vira gabinete — e a eleição começa a ser desenhada longe das urnas, mas perto do poder simbólico que o ex-presidente ainda carrega.
