Governo aposta em novo ministro para destravar PEC da Segurança

Nomeação de novo ministro da Justiça pode ser fundamental para destravar votação PEC da Segurança, que depende de acordo com relator para avançar na Câmara

19 jan, 2026
Presidente Lula e novo ministro da Justiça Wellington Lima e Silva | Reprodução/ Instagram/@lulaoficial
Presidente Lula e novo ministro da Justiça Wellington Lima e Silva | Reprodução/ Instagram/@lulaoficial

O Palácio do Planalto aposta na troca de comando no Ministério da Justiça como peça-chave para destravar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, parada na Câmara dos Deputados. A avaliação de líderes governistas é que o histórico técnico do novo ministro, Wellington César Lima e Silva, pode reduzir resistências políticas e acelerar o diálogo com o relator da matéria.

Ex-procurador de Justiça da Bahia, com atuação direta no enfrentamento ao crime organizado, Wellington César assume a pasta em um momento sensível: a proposta aguarda votação em comissão especial da Câmara e, se aprovada, ainda precisará passar pelo Senado. Para o governo, não há margem para recuo no núcleo do texto.

“O ministro pode ajudar bastante por ter sido procurador de Justiça”, afirmou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Segundo ele, a PEC segue entre as prioridades do Executivo em 2025, mas só avançará se mantiver o que chama de “espinha dorsal” da proposta.

Conteúdo no centro da disputa

Guimarães deixou claro que o governo não aceita uma versão esvaziada do texto. Entre os pontos considerados inegociáveis estão o planejamento nacional integrado das ações de segurança, maior autonomia da Polícia Federal no combate às facções criminosas nos estados e a constitucionalização do Fundo Nacional de Segurança Pública.

“O que está em jogo é o conteúdo da PEC. Não podemos votar qualquer PEC”, disse o deputado, em recado direto aos setores do Congresso que defendem mudanças estruturais na proposta. Do outro lado da mesa, o relator da PEC, deputado Mendonça Filho (União-BA), sinalizou disposição para negociar. Ele afirmou que a chegada do novo ministro pode contribuir para qualificar o debate, mas indicou que ajustes no texto não estão descartados.


Saiba quem é Wellington Lima e Silva, novo Ministro da Justiça (Vídeo: reprodução/YouTube/@uol)


“Estou à disposição para discutir avanços na proposta. Ele [o ministro] vai ter que apresentar suas ideias”, afirmou. Mendonça destacou que manteve diálogo constante com o ex-ministro Ricardo Lewandowski e espera repetir a dinâmica com o novo titular da pasta.

Ano eleitoral no radar

Nos bastidores, parte dos parlamentares avalia que o calendário eleitoral pode contaminar o debate e atrasar a tramitação da PEC. Segurança pública é tema sensível, de alto apelo popular e frequentemente explorado em campanhas.

Mendonça Filho, porém, aposta no efeito contrário. Para ele, a escalada da violência e a expansão do crime organizado devem pressionar o Congresso a agir. O relator projeta entre 360 e 380 votos favoráveis no plenário da Câmara e trabalha com a expectativa de votação até abril. “Você vai ignorar a maior demanda da sociedade em meio a esse clima de violência? Com o crime organizado dominando 26% do território brasileiro?”, questionou.

Proposta da PEC da Segurança

Enviada ao Congresso em abril do ano passado pelo governo Lula, a PEC enfrentou resistência de governadores e da oposição por ampliar o papel da União na definição de políticas de segurança pública, hoje, majoritariamente sob responsabilidade dos estados. A proposta já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas teve sua análise na comissão especial adiada diversas vezes no fim de 2024, empurrando a decisão para este ano.

No relatório em discussão, a União ganha prerrogativas ampliadas para coordenar ações de segurança, com maior integração entre governos federal, estaduais e municipais, a partir de diretrizes nacionais. O texto também prevê medidas constitucionais específicas contra facções, milícias e organizações criminosas de alta periculosidade, incluindo restrições à progressão de pena e a benefícios que reduzem o tempo de prisão.

Outro ponto relevante é a ampliação das competências da Polícia Rodoviária Federal, que passaria a atuar também em ferrovias e hidrovias, reforçando o combate ao tráfico e ao crime interestadual. No pano de fundo, o governo tenta equilibrar técnica e política. A aposta é que o currículo do novo ministro funcione como antídoto contra a paralisia legislativa. Resta saber se, em um Congresso pressionado por eleições e interesses regionais, a experiência jurídica será suficiente para romper o bloqueio político.

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