Entenda se o recente veto da União Europeia pode deixar a carne mais barata para o consumidor brasileiro
Suspensão atinge 3,7% das exportações, mas tendência é de alta de preços impulsionada por maior demanda da China e menor oferta de bois
A União Europeia suspende importações de carne bovina, suína, frango e outros produtos de origem animal do Brasil a partir de 3 de setembro. O veto UE carne Brasil foi motivado pela avaliação de que o controle brasileiro sobre uso de antimicrobianos na pecuária é insuficiente, não por irregularidades encontradas. Segundo o analista Fernando Enrique Iglesias, do Safras & Mercado, em entrevista ao g1, isso não vai resultar em preços menores para o consumidor brasileiro.
“É pouquíssimo provável que isso aconteça”, disse Fernando Enrique Iglesias, analista do Safras & Mercado, sobre a possibilidade de queda de preços da carne no Brasil.
A medida atinge carne bovina, suína, frango, mel, pescados e ovos para os 27 países do bloco europeu. A União Europeia proíbe o uso de antimicrobianos para estimular o crescimento dos animais e também veta medicamentos reservados ao tratamento humano na pecuária. O governo brasileiro já havia se posicionado sobre essas restrições antes do anúncio do veto.
Em 2025, a UE respondeu por apenas 3,7% do volume exportado e 5,8% do valor das vendas de carne bovina brasileira, segundo o Ministério da Agricultura. Apesar da proporção reduzida, o mercado europeu é estratégico porque compra cortes de alto valor agregado, como filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, retirados do traseiro do boi, além do filé de costela, do dianteiro.
Por que os preços não caem
Na prévia da inflação de agosto, os preços das carnes acumulam alta de 8,53% em 12 meses, de acordo com o IBGE. Os cortes mais afetados registraram aumentos ainda maiores: filé mignon em 15,2%, contrafilé em 11,5%, alcatra em 9,31% e coxão mole em 10%. Essas são justamente as peças que saíam para a Europa.
Gado (Foto: reprodução/Nurphoto/Getty Images Embed)
Mesmo assim, Fernando Enrique Iglesias afirma que nem mesmo esses cortes nobres devem ficar mais baratos. A tendência até o fim do ano é de alta de preços, impulsionada pelo aumento das exportações para a China e pela menor oferta de bois disponíveis para abate. O Brasil atravessa a baixa do ciclo pecuário, período em que há menos bovinos prontos para o processamento.
O analista explica o ciclo das exportações para o mercado chinês: “Houve uma redução significativa dos embarques nos meses de julho e agosto e agora em setembro, mas, a partir de outubro, a indústria frigorífica brasileira vai começar a processar a carne bovina para o mercado chinês”. A China estabeleceu cota de 1,1 milhão de toneladas para importações de carne bovina do Brasil em 2026, com tarifa de 12% até o limite e 55% acima.
O tempo de transporte agrega outro fator: a carne leva de 45 a 60 dias para chegar à China. Produto saindo entre novembro e dezembro só desembarcará nos portos chineses em 2027, o que garante boa exportação ainda neste ano e pressiona os preços para cima no Brasil.
Negociações e perspectivas
A decisão pode ser revertida, a depender das negociações entre a UE e o governo brasileiro. A União Europeia realiza auditoria nas cadeias de produção de frango e mel no Brasil, a ser concluída até sexta-feira, 4 de setembro. O resultado será analisado em processo que deve levar cerca de dois meses. O SCoPAFF, comitê permanente da UE sobre plantas, animais, alimentos e rações, tem reunião marcada apenas para novembro para analisar o resultado da inspeção.
Em abril, o Ministério da Agricultura publicou portaria proibindo o uso de antimicrobianos como avoparcina, virginiamicina e bacitracina. Em junho, o governo anunciou novo protocolo de controle sobre uso de antimicrobianos com rastreamento do animal desde nascimento até abate. Segundo a Abiec (associação da indústria de carne bovina), 100% das empresas associadas e habilitadas para exportar para a UE já aderiram ao novo protocolo.
Mesmo que a UE voltasse atrás agora, o Brasil levaria pelo menos dois anos para retomar exportações de carne bovina. Um animal leva de 24 a 36 meses para estar pronto para o abate dentro das novas regras, segundo análise do G1. Para frango, o ciclo é mais curto: cerca de 45 dias entre nascimento e abate.
Ricardo Santin, presidente da ABPA (associação de produtores de frango), afirma que o setor sempre manteve separada a produção destinada à UE. “Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, não usamos promotores de crescimento para a União Europeia nem antibióticos de uso humano”, disse. A principal mudança será o aumento das fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos.
Santin espera que exportações de frango para a UE sejam retomadas ainda neste ano, dependendo da conclusão da auditoria. Caso o bloqueio não seja revertido ou se prolongue, o setor pode redirecionar a produção de frango destinada à Europa para o mercado interno e para cerca de 150 países que já compram o produto brasileiro.
A Abiec vê o novo cenário com preocupação, pois a UE é mercado estratégico para os cortes nobres de alto valor agregado. “A carne bovina brasileira seguirá sendo comercializada nos mercados para os quais estiver habilitada, mas não há substituição automática do mercado europeu”, afirmou a entidade. Diferentes destinos demandam produtos e cortes distintos. A associação trabalha em conjunto com o governo para tentar reverter a medida no menor prazo possível.
Representantes do agro brasileiro viram na medida um ato protecionista, anunciada dias após entrada em vigor do acordo de livre comércio entre UE e Mercosul. Agricultores europeus temem a concorrência de produtos sul-americanos mais baratos, sobretudo do Brasil. Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar para os europeus, o que reforça a percepção de seletividade na aplicação da regra.
