Estudos de vacina personalizada de mRNA contra melanoma avançam

Tecnologia é desenvolvida sob medida com base no sequenciamento genético do tumor de cada paciente e apresenta resultados promissores na Fase 3

20 ago, 2026
Vacina contra melanoma avança na fase de estudos | Reprodução/Unplash/Daiana Polekhina
Vacina contra melanoma avança na fase de estudos | Reprodução/Unplash/Daiana Polekhina

A vacina experimental contra o câncer, desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck, apresentou resultados promissores em um estudo clínico de fase 3, o que aumenta as expectativas quanto ao uso da tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) no tratamento de tumores. O imunizante, chamado intismeran autogene, é feito sob medida para combater o melanoma, tipo mais agressivo de câncer de pele, já existente, e apresentou redução no risco de recorrência da doença e de metástase.

Diferentemente das vacinas tradicionais, utilizadas principalmente para prevenir doenças infecciosas, a tecnologia em estudo tem finalidade terapêutica. Ela é produzida de forma personalizada com base nas características genéticas do tumor de cada paciente, sendo possível que duas pessoas com o mesmo tipo de câncer recebam vacinas diferentes.

Após a retirada cirúrgica ou por biópsia, os pesquisadores analisaram as mutações presentes nas células tumorais e utilizaram essas informações para desenvolver uma vacina capaz de orientar o sistema imunológico a considerar possíveis células cancerígenas remanescentes.

Estudos com as vacinas

O estudo de Fase 3 INTerpath – 0001 envolveu 1.137 pacientes considerados de alto risco, com melanoma nos estágios IIB a IV, que já haviam passado por cirurgia para retirada do tumor. Dois terços dos participantes receberam o imunizante personalizado em combinação com o Keytruda, medicamento de imunoterapia da Merck, enquanto um terço recebeu o tratamento convencional, por cerca de um ano. Os resultados preliminares indicaram que a combinação atingiu os dois objetivos principais avaliados pela pesquisa: reduzir o risco do câncer voltar e a possibilidade de metástase.

A personalização é um dos principais diferenciais do tratamento. Como os tumores apresentam mutações genéticas específicas em cada paciente, a estratégia é aumentar a precisão da resposta imunológica no combate às células cancerígenas. No caso do intimeran, cada fórmula pode conter informações sobre até 34 neoantígenos específicos do tumor de cada paciente, permitindo uma resposta imunológica personalizada.


Tratamento é desenvolvido com base no sequenciamento genético do tumor (Foto: reprodução/Unplash/National Cancer Institute)


Resultados de estudos da fase comunicada, divulgados em janeiro, já indicaram uma redução de 49% no risco de recorrência da doença ou de morte após cinco anos de acompanhamento. Também há estudos com essa mesma tecnologia para casos de câncer de pâncreas, de mama triplo-negativo, de pulmão, de rim e de bexiga.

No caso de câncer de pâncreas, um estudo de Fase 1 com 16 pacientes mostrou que oito deles tiveram uma resposta significativa das células T contra os alvos tumorais indicados pela vacina. Outro resultado obtido foi a permanência dessas células no organismo por anos, acompanhada de um período mais longo sem recorrência de câncer. No entanto, na Fase 2 do estudo, o objetivo de aumentar o tempo sem reincidência não foi alcançado quando foram considerados todos os pacientes avaliados.

Enquanto isso, no caso de câncer de mama, um estudo de Fase 1 com 14 pacientes mostrou que a maioria apresentou resposta imunológica às células tumorais, e 11 não tiveram recorrência da doença durante o período de acompanhamento. Apesar dos resultados promissores, o tamanho reduzido da amostra ainda não permite determinar com precisão a eficácia do tratamento.

Próximos passos e desafios

Apesar dos resultados positivos, o tratamento ainda não está disponível para os pacientes. O estudo da Fase 3 continua em andamento, e os dados serão apresentados em um congresso médico e orientados às autoridades reguladoras. Stéphane Bancel, CEO da Moderna, afirmou que a farmacêutica pretende avançar rapidamente no processo de avaliação e espera que a terapia chegue aos pacientes em 2027, caso obtenha as aprovações permitidas.

O diretor de desenvolvimento da Moderna, David Berman, mantém-se otimista quanto ao progresso da vacina nesse campo de estudo. “É a primeira vez que uma terapia de mRNA demonstra benefício contra o câncer. E, pela primeira vez, uma terapia desenvolvida especificamente a partir da assinatura genética individual do paciente — de seus antígenos — demonstrado benefício clínico“, afirmou.


Notícia sobre o avanço da vacina de mRNA para a Fase 3 (Vídeo: reprodução/Youtube/Rádio Bandeirantes)


A notícia teve forte impacto no mercado financeiro; após o anúncio, as ações da Moderna subiram 158% no pregão, enquanto os papéis da Merck avançaram cerca de 12%. O mercado vê o tratamento como uma das principais apostas da Moderna para diversificar os seus negócios após a queda nas receitas decorrentes do fim da procura pelas vacinas contra a Covid-19.

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