Agro mira bilhões com créditos de carbono
Setor do agro pode gerar até 314,3 milhões de créditos em 2035; mas potencial de receita exige cautela para não comprometer as metas climáticas
O agro brasileiro tem potencial para se tornar um dos grandes fornecedores de créditos de carbono do mercado internacional. Um estudo estima que projetos de descarbonização da agropecuária podem gerar até 314,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em créditos entre 2025 e 2035.
Transformar esse potencial em receita, porém, depende de regulamentação, certificação, escala dos projetos e segurança jurídica.
Descarbonização pode gerar milhões de créditos
O levantamento foi realizado pela Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg). Intitulado “O Agronegócio Brasileiro no Mercado de Carbono Internacional — Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC”, o estudo considera diferentes níveis de maturidade dos projetos.
Em uma estratégia moderada, limitada a um impacto de até 4% sobre a segunda Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) do Brasil no âmbito do Acordo de Paris, seria possível negociar cerca de 15,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente no mercado internacional.
No cenário mais conservador, que considera apenas iniciativas já registradas, são estimados 25,6 milhões de créditos. A projeção sobe para 230 milhões no cenário intermediário, que inclui projetos em estágio avançado, e chega a 314,3 milhões no cenário integral, com todo o potencial identificado.
A maior parte desse volume está relacionada à recuperação de pastagens degradadas e ao aumento do estoque de carbono no solo. A metodologia VM0042, da Verra, responde por 312,1 milhões de créditos estimados. Outros 2,2 milhões viriam de projetos de recuperação de metano no manejo de dejetos animais, pela metodologia AMS-III.D.
“Sem dúvida nenhuma, a gente tem um potencial grande de gerar produtos que podem ter remuneração em diferentes formas, entre elas os créditos de carbono”, afirma Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa. Segundo ele, os projetos atualmente em desenvolvimento no país podem representar pouco mais de 300 milhões de toneladas de CO₂ equivalente até 2035.
Notícia do canal AgroMais sobre os créditos de carbono (Vídeo: reprodução/YouTube/AgroMais)
Volume não significa receita garantida
Apesar do potencial, a estimativa não significa que todos os créditos estejam disponíveis para comercialização. Também não representa uma receita garantida para os produtores. Antes de chegar ao mercado, cada projeto precisa atender a critérios técnicos, passar por processos de certificação e comprovar a redução ou remoção das emissões.
Um dos principais obstáculos está justamente nas regras que ainda estão em construção. O governo trabalha na implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei nº 15.042/2024, e na regulamentação das condições para que resultados de mitigação brasileiros possam ser transferidos para outros países.
O estudo considera mercados como Suíça e Singapura, além do Corsia, mecanismo internacional de compensação de emissões da aviação.
Em julho de 2026, o governo abriu consulta pública sobre uma resolução que estabelece condições, procedimentos e limites para a participação brasileira na comercialização de ITMOs, resultados de mitigação transferidos internacionalmente. A minuta prevê autorização para a transferência de até 50 milhões de toneladas de CO₂ equivalente referentes a reduções ou remoções ocorridas entre 2031 e 2035.
Para Natascha Trennepohl, advogada e sócia da Carbonn Nature, o cronograma será determinante para que o Brasil aproveite a demanda internacional sem perder espaço para outros fornecedores.
“Temos até o final do ano para regulamentar o decreto do SBCE. Então, a gente tem aí um período importantíssimo para regulamentar isso”, afirma.
Ela também alerta que regras excessivamente restritivas podem reduzir a competitividade brasileira. “Se o país para e diz: não, eu só vou começar a liberar a partir de 2031 ou 2035, nesse meio tempo, eles já fizeram acordos com outro país”, destaca.
Comprovação aumenta custos
Outro desafio para transformar carbono em receita é comprovar a redução ou remoção das emissões. Para comercializar um crédito, o projeto precisa medir, documentar e verificar os resultados de forma independente. O processo, conhecido como mensuração, relato e verificação (MRV), é necessário para dar credibilidade ao ativo.
“O carbono é um projeto. Como projeto, ele tem que ser monitorado”, afirma Guilherme Bastos, coordenador da FGV Agro.
No caso do carbono armazenado no solo, a comprovação pode exigir coleta de amostras e análises laboratoriais. Os procedimentos elevam os custos e podem dificultar a adesão de pequenos e médios produtores, que muitas vezes dependem de cooperativas ou modelos coletivos: “A questão, quando a gente pensa em escalar, é exatamente o que a gente faz com o restante dos produtores pequenos e médios que estão dispersos aqui pelo país”, afirma.
Morandi avalia que a participação desses produtores dependerá da criação de arranjos capazes de diluir os custos e viabilizar projetos em escala. “Pequenos produtores e médios produtores isoladamente não vão conseguir fazer, a não ser que seja em grandes cooperativas ou grandes produtores ou outro tipo de arranjo”, diz.
Plantação de soja em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul (Foto: reprodução/Getty ImagesEmbed/Silvio Avila)
Carbono exige compromisso de longo prazo
Outro fator diferencia o crédito de carbono de uma commodity tradicional: a necessidade de preservar o benefício climático durante o período previsto no projeto: “Você vende uma tonelada de soja e entrega a tonelada. O carbono não. Você vende, mas fica responsável por cuidar daquilo durante toda a vigência do contrato”, explica Morandi.
Projetos podem durar 20 ou 30 anos. Nesse período, incêndios, secas, mudanças no manejo ou alterações na propriedade podem comprometer a permanência do carbono. Por isso, especialistas defendem, além do monitoramento, mecanismos de seguro para cobrir eventuais perdas.
Crédito não é uma nova commodity
O potencial estimado pelo estudo pode criar a expectativa de que o carbono se torne uma nova fonte permanente de renda para o produtor. Especialistas, porém, consideram essa interpretação equivocada: “Criou-se em certo momento aqui no Brasil uma ilusão de que seria uma terceira safra, que qualquer produtor rural ia vender, além do seu produto, carbono e receber muito dinheiro por isso. Não é essa a lógica do mercado de carbono”, afirma Morandi.
Segundo ele, os créditos devem ser vistos principalmente como uma forma de financiar a transição para práticas produtivas de menor emissão.
“Não será uma grande fonte de receita geral para o agro brasileiro, mas pode ser uma fonte de recursos para o país que pode fomentar e ajudar nessa transição para a adoção de boas práticas”, ressalta.
Bastos também relativiza o retorno financeiro direto ao produtor. Os valores obtidos com os créditos precisam ser comparados com a rentabilidade das próprias atividades agropecuárias. A tendência, portanto, é que o carbono funcione como uma fonte complementar de renda, sujeita às oscilações do mercado e aos riscos climáticos.
O benefício econômico, contudo, pode ir além da venda dos créditos. A recuperação de pastagens degradadas, a melhoria do manejo do solo e a redução das emissões de metano podem aumentar a produtividade e, ao mesmo tempo, tornar as propriedades mais resistentes aos efeitos das mudanças climáticas.
Para Eduardo Bastos, CEO do Instituto Equilíbrio e presidente da Câmara de Carbono, é nessa transformação que está uma das principais oportunidades para o país. “O Brasil é potencialmente o maior gerador de crédito de carbono do mundo.”
Isso não significa, porém, que todo o volume estimado será convertido em ativos negociáveis. “Ser uma potência em carbono não significa que a gente vai ter esses bilhões de toneladas. Só com muito trabalho é que a gente vai conseguir gerar esses créditos”, afirma.
Na avaliação de Bastos, o mercado deve ser entendido como uma ferramenta de transformação do sistema produtivo. “O mercado de carbono é muito mais do que gerar um crédito no mercado voluntário e vender.”
Venda ao exterior exige atenção à meta climática
A abertura ao mercado internacional traz ainda um desafio estratégico: vender créditos de carbono sem comprometer a meta climática assumida pelo Brasil na NDC do Acordo de Paris.
Quando o país autoriza a transferência internacional de um resultado de mitigação, esse volume deixa de ser contabilizado para o cumprimento da meta brasileira. O chamado ajuste correspondente busca evitar que o mesmo resultado seja contabilizado pelo Brasil e pelo país comprador.
Na prática, cada resultado vendido ao exterior pode aumentar o esforço necessário para que o Brasil cumpra sua NDC. “Esse é um risco real”, afirma Morandi.
Por isso, o pesquisador defende que o país priorize a comercialização de resultados que estejam além do necessário para cumprir a própria meta climática.
