Deolane tem prisão preventiva mantida pelo Tribunal de Justiça de SP

Decisão valida o decreto preventivo e reforça conexões financeiras com o PCC; defesa da influenciadora alega que valores são honorários de advocacia legítimos

25 jun, 2026
Deolane Bezerra | Reprodução/Instagram/@deolane
Deolane Bezerra | Reprodução/Instagram/@deolane

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) negou, no mérito, o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa da influenciadora e advogada Deolane Bezerra. A decisão, proferida nesta quinta-feira (25), confirma a manutenção da sua prisão preventiva no âmbito de uma operação que investiga um complexo esquema de lavagem de dinheiro estruturado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Com a deliberação colegiada, o tribunal valida a posição que já havia sido adotada em caráter liminar no mês de maio. A situação jurídica da influenciadora se consolida em um cenário adverso, visto que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), também já rejeitou anteriormente um pedido de prisão domiciliar protocolado por seus advogados. Na ocasião, o ministro do STF considerou que não ficou demonstrada qualquer ilegalidade no decreto de prisão. Deolane segue detida na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, localizada no interior do estado de São Paulo.

Origem das investigações e bilhetes nas celas

O caso que culminou na prisão da advogada começou a ser desenhado há sete anos. A apuração policial teve início em 2019, quando agentes penitenciários descobriram bilhetes manuscritos camuflados no interior de celas e na tubulação da caixa de esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, unidade prisional de segurança máxima conhecida por abrigar lideranças da facção criminosa no interior paulista.

A partir das mensagens apreendidas, a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo passaram a mapear a estrutura financeira do grupo. O trabalho de inteligência identificou que uma empresa transportadora funcionava como peça central no esquema de ocultação de recursos ilícitos. A referida empresa realizava sucessivos repasses financeiros para contas bancárias de terceiros com o objetivo expresso de disfarçar e diluir a origem do capital oriundo de atividades criminosas da facção.

STJ negou pedido de liberdade apresentado pela defesa da influenciadora no começo do mês (Vídeo: Reprodução/YouTube/@cnnbrasil)


Mecanismo de lavagem e depósitos fracionados

Os investigadores apontam que pelo menos duas das contas bancárias utilizadas na engrenagem de ocultação patrimonial pertencem a Deolane Bezerra. O fluxo do dinheiro seguia uma dinâmica específica: os valores saíam diretamente do caixa da organização criminosa em espécie e eram depositados de forma fracionada. Essa técnica de depósitos em pequenas quantias em dinheiro vivo passava pela transportadora antes de atingir as contas bancárias ligadas à influenciadora digital.

De acordo com o relatório da Polícia Civil, o esquema operava por meio de uma sofisticada rede de movimentações cruzadas entre contas de pessoas físicas e jurídicas. O processo configura a etapa que o setor de inteligência financeira classifica como “dissimulação”, uma fase essencial da lavagem de capitais projetada para distanciar o dinheiro de sua origem ilícita e dificultar o rastreamento por parte dos órgãos de controle financeiro.

O delegado Edmar Caparroz, responsável pela condução dos inquéritos, esclarece que a facção utilizava de maneira estratégica a projeção pública, a influência nas redes sociais e o vultoso patrimônio de Deolane para conferir uma aparência de legalidade a recursos essencialmente ilícitos.

Conexões internacionais e vínculos com Marcola

As investigações policiais sustentam que o principal elo de ligação entre Deolane Bezerra e o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, é Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha do chefe da facção. Paloma reside atualmente em Madri, na Espanha, e é apontada como uma das conexões internacionais do grupo econômico sob investigação.

Os relatórios policiais indicam que Deolane mantinha vínculos pessoais e de natureza comercial com um dos gestores fantasmas da transportadora usada pela facção. Além disso, as autoridades afirmam que não foi identificada nenhuma prestação de serviços técnicos ou jurídicos compatível com o montante financeiro recebido pela influenciadora.

Risco de fuga e a difusão vermelha da Interpol

A decretação da custódia preventiva pelo Poder Judiciário fundamentou-se no iminente risco de fuga da investigada. Conforme os autos do processo, Deolane havia retornado ao território brasileiro exatamente na véspera da deflagração da operação, após passar um período de várias semanas em viagem pela Europa.

O receio das autoridades aumentou com a constatação de que outros parentes de Marcola evadiram-se do país ao longo das apurações: uma sobrinha viajou para a Espanha e um sobrinho fugiu em direção à Bolívia. Diante do risco de nova saída do país, o nome de Deolane Bezerra chegou a ser inserido na Difusão Vermelha da Interpol, o sistema internacional que alerta agências policiais estrangeiras sobre indivíduos com ordens de prisão pendentes.

 

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A Justiça negou habeas corpus para a influenciadora na última quarta-feira (Vídeo: Reprodução/Instagram/@globonews)


Histórico de prisões e investigações de apostas online

Esta prisão constitui o segundo episódio de detenção da influenciadora em um intervalo inferior a dois anos. Em 2025, Deolane Bezerra foi o foco de uma apuração conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco, voltada à repressão de crimes de lavagem de dinheiro associados a plataformas de apostas online, conhecidas popularmente como “bets”.

Naquela investigação em solo nordestino, os agentes constataram que a advogada teria injetado uma quantia superior a R$ 65 milhões na aquisição de automóveis de luxo e imóveis de alto padrão. Os recursos teriam sido provenientes diretamente de movimentações financeiras ligadas ao setor de jogos de azar na internet.

Defesa alega exercício estrito da advocacia

Em contraposição às teses apresentadas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, Deolane Bezerra nega integralmente todas as acusações formuladas contra ela. Em manifestações públicas e nos depoimentos prestados, a influenciadora argumenta que sua detenção é injusta e decorre unicamente de sua atuação profissional.

Segundo a versão apresentada por sua defesa técnica, os valores identificados em suas contas são decorrentes de honorários recebidos legitimamente pelo exercício da advocacia. Ela afirma ter recebido a quantia de R$ 24 mil por um serviço prestado a um cliente e sustenta que as movimentações financeiras não possuem vinculação com as atividades da facção. Presa no interior de São Paulo, a influenciadora declarou formalmente manter a convicção de que a “justiça vai ser feita”.

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