Queimadas no Amazonas disparam após 1º turno, com oito em cada dez focos em áreas privadas
Análise do Inpe mostra que 52,8% dos focos estão em áreas desmatadas nos últimos três anos; incêndios aceleraram a partir de 4 de outubro
Uma análise exclusiva do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) a pedido do G1 mostra que 8 em cada 10 focos de fogo detectados em outubro no Amazonas estão dentro de imóveis rurais privados com Cadastro Ambiental Rural (CAR). Os incêndios ocorrem apesar da proibição do fogo decretada pelo governo estadual desde 9 de setembro.
No acumulado geral do ano, apenas no entorno da capital Manaus, os focos estão 109% acima da média histórica para o período, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O Amazonas vive uma crise com o fogo, com incêndios que vêm sufocando cidades. A análise do Inpe reforça o que a polícia, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente vêm dizendo: as chamas são causadas pela ação humana e são criminosas.
Para que uma propriedade possa usar o fogo para o manejo do solo, como limpeza de pastagem, é preciso autorização caso a caso do governo estadual, o que não há. O governo estadual proibiu o fogo no estado desde 9 de setembro, quando as chamas começaram a sufocar a região. Ainda assim, os incêndios continuaram.
O Amazonas enfrenta as consequências da seca fortalecida pelo El Niño. Com isso, muitos focos se alastram pela vegetação ressecada e se transformam em incêndios de grandes proporções.
O presidente do Ibama, Jair Schmitt, explica que o fogo pode ocorrer com a seca, mas a ação no Amazonas é humana e é justamente dessa configuração que aqueles que cometem crimes vêm se aproveitando. Em uma ação de combate a incêndios, o Ibama flagrou garrafas com combustíveis sendo jogadas ao longo das estradas. O órgão aplicou R$ 2 milhões em multas desde a última semana.
As ações criminosas também vêm sendo investigadas pela Polícia Federal e pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência). De acordo com a Polícia Civil do Amazonas, já são mais de 120 procedimentos criminais para investigar o uso criminoso do fogo.
Desmatamento cai, mas fogo continua
Os incêndios acontecem ao mesmo tempo em que o governo anuncia uma queda recorde no desmatamento. Na última semana, os dados do Inpe apontaram o menor índice desde 1988. A maior parte do fogo não está na floresta em pé, e sim em terras onde as árvores já foram derrubadas.
É fato que o desmatamento caiu, mas ele ainda existe. Foram 3.335 km² de agosto de 2025 a julho de 2026, segundo o Inpe. Isso ainda se soma ao que já foi derrubado em anos anteriores e que, agora, a floresta luta para reconstruir (o que se chama de vegetação secundária).
Em outubro, a distribuição dos focos por tipo de área mostra o padrão:
- 52,8% dos focos estavam em áreas desmatadas nos últimos três anos
- 30,6% dos focos estavam em áreas abertas há mais tempo
- 15,9% dos focos atingiram vegetação nativa
Desmatamento mede quanta floresta foi derrubada. O fogo, na maior parte dos casos, é usado depois, para limpar a área que já foi destruída, computada em algum momento nos levantamentos ou para renovar o pasto.
“A pessoa desmata no passado e para manter a vegetação morta ali, para limpar a área já devastada que ela usa como pasto, ela usa o fogo. É o processo contínuo de quem desmata.”
Por isso, mesmo que haja menos floresta sendo derrubada, a terra aberta nos últimos anos continua sendo queimada. A menor parte está em áreas de vegetação nativa: 15,9% atingiram vegetação nativa. Porém, elas estão sendo afetadas pelos incêndios. Com a seca, reflexo do El Niño, o fogo fica incontrolável e invade áreas a quilômetros depois do foco inicial do fogo.
De julho até a data da publicação, Manaus acumulou 104 milímetros, cerca de um terço dos 316 milímetros esperados. Agosto terminou sem chuva registrada, quando a média do mês é de 56 mm. Com isso, a floresta, que também é afetada pela seca, acaba sendo atingida pela ação ilegal do uso do fogo.
Amazonas registra aumento de queimadas após 1º turno (Foto: reprodução/ MICHAEL DANTAS/ Getty Images Embed)
Aceleração coincide com eleições
De acordo com o presidente do Ibama, o órgão flagrou casos de fogo criminoso e tem feito fiscalizações na região, além de contar com reforços em ações de combate às chamas para evitar que novas áreas protegidas sejam atingidas.
“Nós já autuamos aqui nessa região próxima a Manaus 19 pessoas nessa última semana. R$ 2 milhões de multa e mais de 250 hectares embargados. São pessoas que iniciam fogo na sua propriedade sem autorização e, em alguns casos, esse fogo acaba avançando em territórios protegidos, inclusive em territórios indígenas.”
De acordo com o Ibama, apesar disso, a fiscalização sobre o uso do fogo nas propriedades é de responsabilidade do governo estadual. O fogo se acelerou no entorno de Manaus a partir de 4 de outubro, dia do primeiro turno das eleições.
O fogo costuma começar em agosto, quando produtores passam a usá-lo no manejo do solo, como a limpeza de pasto, a maior parte de forma irregular. Geralmente, recua a partir do fim de setembro. A análise foi feita usando dados do sensor VIIRS, a bordo do satélite Suomi NPP, divulgados pelo Inpe. O sensor tem resolução mais alta e detecta mais focos que o satélite de referência.
Os registros começaram a subir em agosto e chegaram ao pico em setembro, como é esperado, com 6.861 focos. Outubro já soma 6.183 até o dia 14. Até o fim de setembro, 2026 seguiu o padrão. Os focos chegaram ao auge por volta do dia 20, quando já haviam rompido o limite histórico, e depois arrefeceram.
“Quando analisamos os dados do fogo, não vemos um crescimento em outubro nesses patamares. Escalou muito rápido, em poucos dias. Só tivemos um outubro ruim assim em 2023, durante uma seca histórica no Amazonas, cenário que não se repete agora.”
Para o Ibama, a causa ainda é incerta e depende de investigação.
“Isso sim é uma hipótese que deve ser considerada, de se valer do momento político para ampliar, tensionar mais ainda o caos e o cometimento desses incêndios. O que a gente tem de relato das nossas equipes em campo, brigadistas, é desse sentimento de impunidade. Independentemente do cenário político, de determinado candidato vitorioso, as pessoas têm uma expectativa de impunidade e de não sofrerem nenhum tipo de consequência.”
No acumulado do ano, de 1º de janeiro a 14 de outubro, os 19 municípios somaram 15.674 focos, 109% acima da média histórica para o período. Entre os anos analisados, só 2023 teve mais, ano de uma seca histórica na região.
