França levou 500 mil estudantes às ruas e mergulhou Paris no caos

Mais de 2 mil manifestantes foram presos durante fim de semana após confrontos com a polícia; governo da França ordenou toque de recolher para conter ações

20 out, 2026
Prédios governamentais foram incendiados e um manifestante foi morto | Reprodução/Instagram/@chefaonoticias
Prédios governamentais foram incendiados e um manifestante foi morto | Reprodução/Instagram/@chefaonoticias

Cerca de 500 mil pessoas participaram de manifestações na França durante o fim de semana, em uma onda de protestos que começou com reivindicações estudantis e se transformou em uma mobilização mais ampla contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos. Os atos também foram marcados por episódios de violência, saques e confrontos com a polícia.

O movimento ganhou força ao incorporar diferentes grupos sociais e chegou a outros países europeus, como Itália, Albânia e Portugal. Além disso, a crise aumenta a pressão sobre o governo francês a seis meses das eleições presidenciais de 2027.

Protestos se espalham e episódios de violência aumentam

Entre o fim de setembro e o início de outubro, a França registrou uma escalada das manifestações estudantis. Duas escolas foram incendiadas, enquanto carros e veículos públicos também foram destruídos. Em algumas cidades, os atos terminaram em confrontos com as forças de segurança e prisões.

Com o passar dos dias, as reivindicações ultrapassaram os problemas enfrentados nas escolas. A insatisfação com o custo de vida, a qualidade dos serviços públicos e as decisões do governo passou a mobilizar outros setores da sociedade.

O cientista político Thomás Zicman de Barros, professor e pesquisador do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po Paris, compara a atual onda de protestos ao movimento dos Coletes Amarelos, que levou milhares de pessoas às ruas francesas a partir de 2018.

Segundo o pesquisador, grupos ligados aos Coletes Amarelos já organizavam manifestações contra o encarecimento da vida antes do início dos protestos estudantis.

“Há uma sensação de perda de poder de compra e esse pessoal falou: ‘A gente precisa ir para a rua contra a vida cara’”, afirma.

Para Barros, uma das particularidades das mobilizações atuais é a dificuldade de identificar lideranças capazes de negociar com o governo. Os atos se organizam de maneira descentralizada, sem depender exclusivamente dos sindicatos tradicionais, embora essas entidades também tenham aderido às manifestações.



Manifestações acabam em violência e depredação na França (Vídeo: reprodução/X/@JornalOGlobo)


Essa dinâmica permite que os participantes mudem de rota e se desloquem pelas cidades de maneira imprevisível, dificultando a atuação das forças de segurança.

“Essas manifestações não são inéditas. Nos Coletes Amarelos, já havia um pouco dessa dinâmica. Mas são difíceis de controlar porque não são organizadas por estruturas centralizadas. Elas têm uma dimensão espontânea, que aqui na França eles chamam de selvagem”, explica.

O movimento começou em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos. Em seguida, alunos de outras instituições aderiram aos atos, que se espalharam pelo país.

Paris e Marselha registram saques e destruição

As manifestações do fim de semana deixaram um rastro de destruição em diferentes cidades francesas. Paris e Marselha estiveram entre os principais focos de violência, com lojas danificadas, estabelecimentos saqueados e confrontos nas ruas.

Na capital francesa, marcas de luxo fecharam as portas ou reforçaram a segurança para proteger seus estabelecimentos. Mesmo assim, a entrada de uma boutique da Dior foi danificada, enquanto vitrines de outras grifes, como Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci, também foram atingidas.

Em Marselha, o Olympique de Marseille informou que sua loja oficial, localizada em uma das principais avenidas da cidade, foi saqueada. Em Bordeaux, a filial das Galeries Lafayette também foi alvo de saques.

Segundo a Federação do Comércio e Varejo, quase 3 mil lojas foram afetadas durante o fim de semana.

Para conter os distúrbios, o governo mobilizou 60 mil policiais e outros agentes de segurança no sábado, de acordo com o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Mesmo assim, as autoridades reconheceram falhas na resposta aos episódios de violência.

Mais de 2,400 pessoas foram presas durante a onda de manifestações, enquanto mais de 150 policiais ficaram feridos, segundo relatos divulgados pela Reuters. As autoridades também registraram danos a estabelecimentos comerciais e edifícios públicos.

Na segunda-feira (19), o governo adotou toques de recolher localizados em áreas de cidades como Paris, Lille e Nice para tentar conter novos episódios de violência e saques.


Macron lida com sua maior onda de impopularidade de seu governo (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Benoit Tessier)


Macron condena violência em meio à crise política

Diante da escalada dos protestos, o presidente Emmanuel Macron fez um pronunciamento na televisão no domingo (18). Ele afirmou que “nada justifica” a violência e defendeu a distinção entre reivindicações legítimas e atos de destruição.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu, por sua vez, responsabilizou setores da extrema esquerda pelos episódios de violência. Segundo ele, grupos políticos tentam provocar uma “profunda agitação no país” para influenciar o cenário eleitoral.

De acordo com informações divulgadas pela Reuters, serviços de inteligência franceses apontaram a possibilidade de participação da França Insubmissa, partido de esquerda liderado por Jean-Luc Mélenchon, na organização das mobilizações. A legenda nega as acusações e afirma defender manifestações pacíficas.

Mélenchon cobrou provas das declarações do primeiro-ministro e afirmou que, caso não consiga sustentá-las, Lecornu deveria se desculpar e deixar de alimentar a tensão política.

A disputa em torno dos protestos ocorre em um momento de preparação para as eleições presidenciais de 2027. Nesse contexto, a violência nas ruas passou a integrar o debate entre governo e oposição sobre segurança pública, responsabilidade política e insatisfação social.

Violência pode desviar atenção das reivindicações

Para Thomás Zicman de Barros, os episódios de violência podem ser usados pelo governo e por setores da extrema direita para atacar a oposição e defender medidas mais rígidas de segurança.

O pesquisador, no entanto, alerta para o risco de a discussão ficar restrita à ordem pública, deixando em segundo plano os problemas que motivaram as manifestações.

Embora condene os atos de destruição, Barros considera necessário compreender as razões que levaram tantas pessoas às ruas. Para ele, tratar os protestos exclusivamente como um problema policial impede que o governo enfrente as causas da insatisfação.

“Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma.

A mobilização francesa, portanto, combina reivindicações relacionadas à educação e ao custo de vida com uma crise política mais ampla. A capacidade do governo de responder a essas demandas, sem ignorar a violência registrada durante os atos, deve influenciar o debate público nos meses que antecedem a eleição presidencial.

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