Chile registra 110 detenções em protestos pelos sete anos do levante social de 2019

Manifestações no Chile deixam 18 feridos e marcam sete anos da revolta social de 2019, que levou a duas tentativas frustradas de criar uma nova Constituição

19 out, 2026
Manifestante segura cartaz durante protesto no Chile | Reprodução/X/@nacion

O Chile registrou 110 detenções durante manifestações realizadas no domingo (18), em referência ao sétimo aniversário da revolta social de 2019. Segundo o balanço divulgado pelas autoridades chilenas nesta segunda-feira (19), 14 policiais e quatro civis ficaram feridos durante os atos, que também foram marcados por barricadas, confrontos e ataques contra veículos do transporte público.

O ministro da Segurança Pública, Martín Arrau, e o diretor-geral dos Carabineros, Marcelo Araya, apresentaram os números da operação. Do total de detidos, 99 foram registrados na Região Metropolitana, que inclui a capital, Santiago. As autoridades também informaram que cerca de 5,1 mil policiais foram mobilizados para acompanhar as manifestações.

Protestos terminam em confrontos e ataques a ônibus

O balanço oficial contabilizou 43 ocorrências relacionadas à jornada, número 45% inferior ao registrado no ano anterior. Apesar da redução, as detenções aumentaram 41% em comparação com 2025, segundo o ministro. Entre os episódios registrados estavam 23 manifestações ou aglomerações, 11 barricadas, oito ocorrências de violência e um saque.

Um dos casos mais graves ocorreu na comuna de Pedro Aguirre Cerda, na região metropolitana de Santiago, onde um grupo de encapuzados interceptou e incendiou um ônibus do transporte público. Segundo informações divulgadas pela imprensa chilena com base nos relatos das autoridades, o veículo estava sem passageiros e seguia para uma garagem. O motorista foi obrigado a descer e não sofreu ferimentos graves.

Também houve uma tentativa de saque a um supermercado na comuna de Maipú, frustrada pela intervenção policial. Os registros integram o balanço das ocorrências durante as manifestações realizadas em diferentes pontos do país.

Ao comentar os episódios, Arrau condenou os atos violentos e defendeu a distinção entre manifestações pacíficas e ações criminosas. O ministro classificou os responsáveis pelos distúrbios como autores de atos de “delinquência pura e simples” e afirmou que o direito de protestar não deve ser confundido com a prática de crimes.


Registros mostram manifestações e confrontos durante os protestos no Chile, em referência ao sétimo aniversário da revolta social de 2019 (Vídeo: reprodução/X/@dw_espanol)


Revolta social começou após aumento na tarifa do metrô

A revolta social chilena teve início em 18 de outubro de 2019, após o anúncio de um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô de Santiago. A reação inicial, marcada por ações de estudantes contra o pagamento das passagens, ganhou dimensão nacional e passou a reunir reivindicações relacionadas ao custo de vida, às desigualdades sociais, à saúde, à educação e ao sistema previdenciário.

Nos dias seguintes, os protestos se espalharam pelo país e foram acompanhados por depredações, incêndios, saques e confrontos com as forças de segurança. A crise levou o governo do então presidente Sebastián Piñera a decretar estado de emergência em áreas da capital e a mobilizar militares para atuar na segurança pública.

A mobilização também abriu um período de intensos debates sobre a atuação das forças de segurança e a proteção dos direitos humanos. O movimento reuniu grupos com diferentes reivindicações e posicionamentos, sem uma única liderança ou pauta capaz de representar todos os participantes.

Duas tentativas de elaborar uma nova Constituição foram rejeitadas

A crise política resultou em um acordo entre partidos, em novembro de 2019, para iniciar um processo de elaboração de uma nova Constituição, com o objetivo de substituir a Carta herdada da ditadura de Augusto Pinochet. O acordo foi formalizado por meio da Lei nº 21.200, publicada em dezembro daquele ano.

Em outubro de 2020, os eleitores aprovaram a elaboração de uma nova Constituição e escolheram uma convenção formada integralmente por representantes eleitos para redigir o texto. A proposta resultante, porém, foi rejeitada no plebiscito de setembro de 2022: segundo dados da Biblioteca do Congresso Nacional chileno, a opção contrária ao texto recebeu 61,86% dos votos, enquanto a favorável obteve 38,14%.

Um segundo processo constitucional foi iniciado em 2023, com uma nova proposta, dessa vez elaborada por um Conselho Constitucional. O texto também foi rejeitado nas urnas. De acordo com os resultados divulgados pelo Serviço Eleitoral do Chile (Servel), a opção “Contra” recebeu 55,76% dos votos, enquanto “A favor” obteve 44,24%.

Com os dois resultados, as tentativas de substituir a Constituição vigente não avançaram. Sete anos após o início da revolta social, o aniversário continua sendo marcado por manifestações e debates sobre as reivindicações que levaram milhões de chilenos às ruas em 2019.

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