Moraes volta atrás e impede visita de assessor de Trump a Bolsonaro na prisão

Encontro solicitado pela defesa do ex-presidente havia sido autorizado pelo ministro do STF; Itamaraty recorreu da decisão alegando ‘indevida ingerência’

12 mar, 2026
Ministro Alexandre de Moraes é relator de inquérito aberto em 2019 | Reprodução/	Instagram/@geopolitica.mundial_
Ministro Alexandre de Moraes é relator de inquérito aberto em 2019 | Reprodução/ Instagram/@geopolitica.mundial_

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes cancelou decisão anterior própria e negou a visita de um assessor do presidente americano Donald Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro na cadeia. Moraes repensou a autorização após afirmações do Itamaraty de que o encontro entre o ex-presidente e o assessor sênior do governo republicano para políticas relacionadas ao Brasil, Darren Batie, poderia se enquadrar em uma “indevida ingerência nos assuntos internos do Estado Brasileiro”. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), não havia também compromisso diplomático já confirmado com Battie no momento.

A realização da visita de Darren Beattie, requerida nestes autos pela Defesa de Jair Messias Bolsonaro, não está inserida no contexto diplomático que autorizou a concessão do visto e seu ingresso no território brasileiro, além de não ter sido comunicada, previamente, às autoridades diplomáticas brasileiras, o que, inclusive, poderia ensejar a reanálise do visto concedido“, afirma Moraes na nova decisão.

Pedido inicial 

A defesa de Bolsonaro solicitou, no último dia 10 de março, a autorização de uma visita de Beattie ao ex-presidente no 19º Batalhão de Polícia Militar – PMDF, popularmente conhecido como Papudinha, onde Bolsonaro cumpre, desde janeiro, pena de 27 anos por envolvimento na tentativa de golpe de 2022. Inicialmente, o ministro havia autorizado a visita para o próximo dia 18. A data, porém, era diferente da requerida pela defesa de Bolsonaro, que solicitava que o encontro acontecesse dia 17, alegando que, no dia seguinte, Beattie participaria de um evento sobre mineração rara em São Paulo. O jurídico do ex-presidente, então, recorreu da primeira decisão de Moraes e o ministro decidiu solicitar ao MRE informações sobre a agenda diplomática de Beattie. 

Em documento assinado pelo ministro Mauro Vieira, o Itamaraty pontuou que, na concessão de visto, “não constava qualquer menção a eventual interesse do visitante em realizar encontros ou visitas não relacionadas aos objetivos oficialmente comunicados. Assim, o processamento e a concessão do visto ocorreram exclusivamente com base na justificativa então apresentada pelo Departamento de Estado“.

Cumpre observar, por oportuno, que a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro“, alega o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que assina o documento. 


Itamaraty entende que encontro poderia ser indevido por se tratar de ano eleitoral (Foto: reprodução/Instagram/@uolnoticias)


Assessor americano é conhecido por polêmicas 

Darren Beattie foi nomeado no fim de fevereiro para o cargo de assessor sênior do governo Donald Trump para políticas relacionadas ao Brasil. O responsável pelas propostas e supervisão das políticas de Washington referentes a Brasília é crítico ferrenho do atual governo brasileiro e foi pivô de polêmica em torno da crise diplomática entre Brasil e EUA pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no STF. Na época, ele acusou o ministro Alexandre de Moraes de ser o “principal arquiteto da censura e perseguição a Bolsonaro“. 

Nos EUA, Beattie também se envolveu em diferentes casos polêmicos. Em 2018, durante o 1º mandato de Trump, o até então redator de discursos da Casa Branca foi demitido por discursar em evento frequentado por nacionalistas brancos. Seis anos depois, durante a campanha presidencial de 2024, Beattie sugeriu que a inteligência dos EUA poderia estar por trás de atentados a Donald Trump. Após declaração nas redes sociais de que “homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”, Beattie também foi acusado de racismo e sexismo. 

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