Eleitorado brasileiro cresce nos EUA em meio a desafios
Cerca de 900 mil brasileiros no exterior estão aptos a votar este ano, em momento marcado por medo das políticas imigratórias de Trump
15 set, 2026
Urna eletrônica | Reprodução/Instagram/@radiodifusora973fm
Nas eleições deste ano, mais de 900 mil brasileiros estão aptos a votar no exterior, mas o eleitorado nos Estados Unidos enfrenta barreiras logísticas e o medo da fiscalização migratória.
Em Nova York, a mudança das seções para a região do Queens provocou fortes reclamações devido à distância, exigindo uma operação especial de segurança estruturada pelo Consulado e pela polícia americana para garantir o acesso seguro dos votantes aos locais de votação.
Embaixada espera mais votantes neste pleito
Os Estados Unidos se consolidaram como o país com a maior quantidade de eleitores brasileiros fora do Brasil. De acordo com os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de cidadãos aptos a votar em território americano registrou uma alta expressiva de aproximadamente 45% em comparação com o último pleito presidencial.
Esse avanço acompanha uma tendência global: o total de eleitores cadastrados no exterior atingiu a marca de 918,9 mil em 2026, representando um salto de 31,8% diante dos 697,1 mil registrados em 2022.
Eleitores no estrangeiro vivem insegurança para votar (Foto: reprodução/Getty Images Embed/EVARISTO SA)
Para se ter uma ideia do crescimento a longo prazo, esse eleitorado fora do país mais do que quadruplicou desde o ano de 2010. A distribuição de votantes aponta a liderança da cidade de Boston, que abriga o maior colégio eleitoral nos Estados Unidos, com 53,4 mil pessoas aptas a comparecer às urnas. Logo em seguida aparecem os circuitos consulares de Miami, com 40.109 eleitores cadastrados, e de Nova York, que alcançou a marca de 39.026 cidadãos habilitados — um avanço notável comparado aos cerca de 28 mil registrados em 2022.
Mudança de endereço gera queixas
Apesar do aumento no número de inscritos, a organização logística da votação gerou insatisfação na Costa Leste. Ao contrário do pleito de 2022, quando os eleitores de Nova York votaram na região central de Manhattan, o Consulado-Geral do Brasil decidiu transferir as seções eleitorais para uma instituição de ensino localizada no distrito do Queens.
O novo ponto de votação fica situado a cerca de 16 quilômetros de distância da sede consular anterior e impõe dificuldades geográficas adicionais, uma vez que o local escolhido não conta com rotas ou acessos diretos por linhas de metrô.
Essa transferência impactou diretamente não apenas os residentes de Nova York, mas também milhares de brasileiros que dependem da mesma jurisdição consular e vivem em estados vizinhos, como Nova Jersey e a região metropolitana de Filadélfia. Cidadãos dessas localidades precisam planejar longas jornadas de viagem interestadual apenas para exercer o direito ao voto, enfrentando custos de transporte e tempos de deslocamento muito maiores.
A distância fez com que parte do eleitorado cogitasse a ausência nas urnas. Moradores relatam desânimo com o novo trajeto, destacando que a centralidade antiga em Manhattan facilitava o fluxo por não exigir o deslocamento para outras regiões da cidade. O descontentamento gerou uma mobilização comunitária organizada, com brasileiros pressionando formalmente a representação diplomática para tentar reverter a decisão e trazer o pleito de volta ao endereço original.
Eleitores temem ações da ICE
A escolha do Queens como nova sede eleitoral ocorreu estrategicamente em um dos distritos nova-iorquinos que concentram a maior população de imigrantes, área que frequentemente entra na rota de monitoramento das autoridades locais. O cenário de votação é atravessado por uma preocupação crescente da comunidade com a segurança, provocada pelo endurecimento das políticas de controle de fronteiras e de imigração.
O fantasma das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) intensificou o receio de brasileiros que vivem em situação irregular e temem ser abordados no trajeto até as urnas.
Para minimizar os riscos e incentivar a participação popular, o corpo diplomático organizou os fluxos de votação em espaços fechados e protegidos dentro da escola. A medida jurídica visa garantir que as filas de eleitores não se estendam pelas calçadas públicas, protegendo a integridade dos votantes e reduzindo a exposição a eventuais patrulhas externas de agências de imigração estadunidenses.
Eleições no exterior são marcadas por abstenção
Além dos novos desafios geográficos e migratórios, a Justiça Eleitoral tenta superar o tradicional desinteresse do eleitorado que vive fora do Brasil. No pleito de 2022, o índice de ausência nas urnas foi alarmante: a taxa de abstenção entre os brasileiros que votam no exterior atingiu 63,36% no primeiro turno e ficou em 61,44% na rodada decisiva. Vale lembrar que, assim como ocorre em território nacional, o voto permanece obrigatório para cidadãos alfabetizados com idade entre 18 e 70 anos, sendo necessária a justificativa oficial em caso de ausência.
A própria organização interna das seções em Nova York já vinha de uma experiência complexa na última eleição. Em 2022, os eleitores enfrentaram extensas filas de até 500 metros, gerando um tempo médio de espera de meia hora sob forte clima de polarização partidária.
Na ocasião, episódios de atrito entre apoiadores de Jair Bolsonaro — candidato que obteve ampla vantagem em solo americano no último pleito — e de Luiz Inácio Lula da Silva forçaram a polícia nova-iorquina a intervir, utilizando barreiras de contenção para isolar as duas militâncias em lados opostos da via pública.
Por fim, em 2026, as autoridades brasileiras terão desafios maiores, como usar o aumento de registros em participações nas urnas para melhorar o cenário. Vale ressaltar que o cenário migratório será diferente ao de quatro anos atrás.
