Retatrutida não foi aprovada em nenhum país e produtos vendidos são ilegais, alerta Anvisa

Apesar de reduzir até 28,3% do peso em estudos, a substância da Eli Lilly ainda não completou testes clínicos e circula ilegalmente na internet e fronteiras

24 jul, 2026
Anvisa expõe o perigo do uso de medicamentos não autorizados | Reprodução/Sweet life/Unsplash
Anvisa expõe o perigo do uso de medicamentos não autorizados | Reprodução/Sweet life/Unsplash

A Anvisa alertou que a retatrutida, medicamento experimental para obesidade e diabetes, não foi aprovada em nenhum país. Apesar de pesquisas mostrarem redução de até 28,3% do peso, a substância ainda está em desenvolvimento clínico. “Qualquer produto vendido atualmente com o nome retatrutida é irregular”, segundo a Anvisa. Essas versões circulam ilegalmente em sites, redes sociais e são apreendidas nas fronteiras brasileiras.

A retatrutida segue em etapa avançada de testes. O conjunto de estudos necessário ainda não foi concluído, e a Eli Lilly aguarda a finalização das pesquisas antes de solicitar registro a órgãos reguladores. Essa etapa, conhecida como desenvolvimento clínico, é obrigatória para qualquer novo medicamento.

O que significa estar em desenvolvimento clínico

Os testes em fase clínica avançada avaliam doses adequadas, efeitos adversos, complicações raras, contraindicações e interações medicamentosas. Somente depois que essa avaliação fica completa é que a empresa pode solicitar o registro junto às autoridades sanitárias. Essa sequência existe porque resultados promissores em laboratório ou em primeiras fases de teste nem sempre se confirmam quando o medicamento chega a um número maior de pessoas.

Um estudo publicado em junho na revista The Lancet acompanhou 930 adultos com diabetes tipo 2. A redução média de peso foi de até 28,3% entre participantes que receberam a dose mais alta. Mais de 65% deixaram de se enquadrar nos critérios de obesidade pelo índice de massa corporal (IMC). Além da perda de peso, a pesquisa identificou melhora no controle da glicose. Os resultados divulgados indicaram também possíveis benefícios em apneia obstrutiva do sono e em osteoartrite no joelho.


Avisa alerta sobre a venda do produto que ainda não foi aprovado (Vídeo: reprodução/YouTube/globonews)


Por que resultados promissores não garantem aprovação

Um medicamento pode apresentar efeito expressivo sobre o peso e ainda exigir mais testes antes da aprovação. Esses testes continuam buscando identificar riscos, contraindicações e efeitos adversos menos frequentes. Os dados precisam ser considerados junto aos resultados completos de segurança antes que a agência reguladora libere o produto para o mercado.

A retatrutida pertence à mesma família das canetas emagrecedoras já conhecidas, mas com um mecanismo diferente. “A retatrutida é descrita como uma substância de tripla ação”, conforme a fonte, porque atua sobre três mecanismos hormonais ao mesmo tempo: GLP-1, GIP e receptor de glucagon. Ela imita a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, liberados naturalmente pelo intestino após as refeições.

GLP-1 e GIP

Esses hormônios aumentam a sensação de saciedade e participam do controle da glicose. Ambos influenciam a liberação de insulina pelo pâncreas. Medicamentos como a semaglutida (Ozempic e Wegovy) atuam principalmente sobre GLP-1, enquanto a tirzepatida (Mounjaro) age sobre GLP-1 e GIP. A retatrutida, ao incluir um terceiro alvo, direciona-se a um mecanismo adicional.

Receptor de glucagon

A retatrutida também age sobre o receptor de glucagon, o terceiro mecanismo de sua ação. Esse alvo pode estimular o organismo a gastar mais energia, aumentando o gasto energético inclusive em repouso. A aprovação de semaglutida e tirzepatida não vale para retatrutida: cada princípio ativo precisa passar por estudos próprios e receber autorização específica.

Riscos dos produtos irregulares

Produtos vendidos sem registro não passam pela avaliação das instalações de fabricação, matérias-primas, processos produtivos ou condições de transporte e armazenamento. “Sem esses controles, o conteúdo da embalagem pode apresentar uma concentração diferente da anunciada, conter impurezas, microrganismos ou outras substâncias”, alerta a Anvisa. Não existe sistema confiável para rastrear lotes e investigar reações graves.

O conteúdo pode variar do anunciado. Produtos podem conter impurezas ou microrganismos. Podem não ter sequer o princípio ativo informado no rótulo. Não há garantia de que foram produzidos pela fabricante responsável pelos estudos clínicos. Sem bula, o consumidor desconhece as doses avaliadas nos testes, contraindicações, interações medicamentosas ou condições adequadas de conservação. Uma embalagem profissional não comprova origem, composição ou segurança.

Apesar de não haver aprovação em nenhum país, produtos anunciados como retatrutida já circulam no mercado paralelo. No Paraguai, uma empresa promoveu canetas supostamente contendo retatrutida em março. O evento contou com a presença de influenciadores brasileiros. Nos três primeiros meses de 2026, o valor das canetas emagrecedoras irregulares apreendidas na fronteira superou R$ 11 milhões, segundo a Anvisa. Esse total ultrapassa o volume inteiro registrado ao longo de 2025.

A Anvisa recomenda que a população não compre nem utilize medicamentos sem registro sanitário. Além do risco à saúde, a comercialização de produtos irregulares pode configurar crime.

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