Juscelino Kubitschek esteve na mira dos EUA durante a ditadura

O governo americano mantinha os olhares atentos a Kubitschek porque ele era visto como uma liderança relevante caso o Brasil se redemocratizasse

25 ago, 2026
JK era visto como uma liderança relevante no país pelo governo americano | Reprodução/Wikimedia Commons
JK era visto como uma liderança relevante no país pelo governo americano | Reprodução/Wikimedia Commons

Dez anos após deixar a Presidência da República, Juscelino Kubitschek voltou a ser alvo da atenção dos Estados Unidos. Em 14 de dezembro de 1970, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, o ex-presidente foi sabatinado por uma comitiva de norte-americanos liderada pelo embaixador dos EUA no Brasil.

Cassado pela ditadura militar e impedido de disputar novamente a Presidência, JK havia manifestado publicamente, no ano anterior, o interesse em voltar ao cargo. Para o regime, sua influência política e sua tentativa de articular uma Frente Ampla contra a ditadura, em 1967, faziam dele uma liderança relevante — e potencialmente ameaçadora.

Os Estados Unidos também acompanhavam seus movimentos de perto. Em um documento confidencial de sete páginas, datado de 5 de janeiro de 1971, o embaixador William Manning Rountree registrou suas impressões sobre a conversa com o ex-presidente.

Segundo especialistas citados nos documentos, Washington considerava JK uma figura importante da política brasileira. Ao mesmo tempo em que era visto como uma possível liderança em um eventual processo de redemocratização, também despertava preocupação por suas críticas ao regime militar e por posições consideradas próximas da esquerda no contexto da Guerra Fria.

O encontro com o embaixador americano

Durante a conversa, Rountree relatou que JK reconheceu o desempenho econômico do governo Médici, mas afirmou ser “fortemente contrário à revolução de 1964”.

Segundo o documento, o ex-presidente argumentava que, ao eliminar lideranças civis capazes de disputar o poder, o regime militar criava a própria justificativa para permanecer indefinidamente no comando do país.

A conversa ocorreu no apartamento de JK, em Copacabana. Antes da entrevista, o ex-presidente teria sido informado de que o conteúdo não seria divulgado e de que nenhum dos participantes era jornalista. Rountree descreveu o político como alguém que falou de maneira “clara e sem hesitação”.

JK também afirmou que, no início do regime militar, acreditava que a Constituição seria respeitada e que o país retornaria à normalidade democrática. Segundo o relato americano, ele mudou de posição quando percebeu que a ditadura havia se consolidado.

Questionado sobre quanto tempo os militares permaneceriam no poder, Kubitschek teria respondido com ironia: “Este governo está sempre falando sobre o ano 2000. Não acho que possa durar tanto”.

Críticas à ditadura

As principais insatisfações de JK estavam relacionadas à repressão política e às cassações de lideranças democráticas promovidas pelo regime.

Durante a conversa com Rountree, o ex-presidente também demonstrou preocupação com as relações entre a Igreja e o Estado brasileiro. Segundo o relatório, ele mencionou a influência de setores progressistas do clero e a atuação de dom Hélder Câmara, uma das principais vozes de oposição à ditadura.

JK também criticou a política externa do presidente americano Richard Nixon. Na avaliação atribuída ao ex-presidente pelo diplomata, os Estados Unidos cometiam um erro ao armar ditaduras militares na América Latina.


 JK discursando no Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Bettmann)


Por que JK interessava aos Estados Unidos?

A atenção americana sobre Kubitschek não começou durante o governo Médici. Antes mesmo do golpe de 1964, JK havia mantido conversas com o embaixador dos EUA no Brasil, Abraham Lincoln Gordon, que buscava compreender a turbulenta conjuntura política brasileira.

Após o golpe, documentos diplomáticos passaram a discutir inclusive se os direitos políticos do ex-presidente deveriam ser cassados. Segundo historiadores, os americanos não eram favoráveis à punição aplicada pelos militares contra JK.

A explicação está no peso político do ex-presidente. JK mantinha trânsito com diferentes grupos sociais e políticos e era visto como uma liderança civil capaz de dialogar tanto com setores da direita quanto da esquerda.

JK era, de certa forma, a figura mais confiável no âmbito civil para o governo americano ter determinada atenção”, avalia o historiador Victor Missiato.

Além disso, apesar de manter o Brasil alinhado ao bloco ocidental durante a Guerra Fria, JK havia buscado maior margem de negociação econômica com os Estados Unidos durante seu governo. Washington tinha interesses estratégicos no Brasil, principalmente em áreas como petróleo, energia e mineração.

Documentos revelam monitoramento

Os relatos sobre JK fazem parte de um acervo de milhares de documentos diplomáticos americanos reunidos pelo historiador Rodrigo Patto Sá Motta. Durante uma viagem de pesquisa a Washington, ele fotografou mais de 7 mil páginas relacionadas ao monitoramento realizado pelos Estados Unidos no Brasil durante a ditadura.

O material está arquivado no Laboratório de História do Tempo Presente, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No caso de JK, parte significativa dos documentos não registra conversas diretas com o ex-presidente, mas análises sobre seus movimentos e relatos obtidos com terceiros. Um documento de 1967, por exemplo, registra informações obtidas com Conceição Neves, uma aliada política de Kubitschek envolvida na articulação da Frente Ampla.


O embaixador americano para o Brasil, William M. Rountree (à esquerda), com o então governador de São Paulo, Laudo Natel
O embaixador americano para o Brasil, William M. Rountree, com o então governador de São Paulo, Laudo Natel (Foto: reprodução/Acervo Iconográfico/Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Uma relação marcada por contradições

Apesar do monitoramento, historiadores ressaltam que os documentos não permitem resumir a relação entre JK e os Estados Unidos como uma simples perseguição.

Os relatórios revelam diferentes percepções sobre o ex-presidente. Em alguns momentos, ele aparece como crítico da ditadura. Em outros, surge como uma liderança civil potencialmente importante para uma futura redemocratização e como interlocutor disposto a conversar com representantes americanos.

Para Victor Missiato, essa contradição precisa ser considerada ao analisar a atuação dos Estados Unidos durante o regime militar. O historiador também rejeita a ideia de que o governo americano tenha participado diretamente da morte de JK.

A documentação, portanto, mostra que Juscelino Kubitschek permaneceu no radar de Washington durante a ditadura, mas sua posição era mais complexa do que a de um simples adversário. Para os americanos, ele também era uma figura política influente, capaz de dialogar com diferentes setores e de desempenhar um papel relevante em um eventual processo de redemocratização.

O monitoramento americano no Brasil

O acompanhamento de JK fazia parte de uma operação mais ampla de monitoramento de autoridades e figuras públicas brasileiras.

Segundo os especialistas citados no material, documentos diplomáticos revelam a dimensão política, econômica e informacional da atuação dos Estados Unidos no país durante a ditadura. O contexto era marcado pela Guerra Fria e pela aproximação entre governos americanos e regimes militares latino-americanos.

O caso de JK ajuda a ilustrar essa relação. Ex-presidente, senador, articulador político e uma das principais lideranças civis do país, ele continuou sendo observado por Washington mesmo depois de perder seus direitos políticos.

Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de carro em 22 de agosto de 1976. Décadas depois, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou o entendimento de que sua morte foi resultado de uma emboscada promovida por agentes da ditadura. O próprio material, porém, ressalta que não há consenso entre os historiadores sobre uma eventual participação dos Estados Unidos nesse episódio.

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