Lula defende homens na cozinha e igualdade no trabalho doméstico
Defesa de uma rotina menos exaustiva tem sido o principal argumento dos defensores da Proposta de Emenda à Constituição (PEC)
Presidente Luiz Inácio Lula defendeu nesta quarta-feira (27), em Manaus, a divisão das tarefas domésticas ao cobrar maior cooperação dos homens. A declaração, feita em evento de investimentos da Petrobras, serviu para ajustar uma fala polêmica do dia anterior sobre a dupla jornada feminina. Com isso, o mandatário alinhou o discurso ao debate da PEC do fim da escala 6×1, exaltando as mulheres na indústria e exigindo postura ativa dos parceiros no lar.
Mudança de postura
A declaração do presidente marcou uma mudança clara na condução do seu discurso sobre gênero e mercado de trabalho. No dia anterior, terça-feira (26), Lula havia classificado a realidade da mulher trabalhadora como “mais grave” devido ao acúmulo de funções, citando obrigações como lavar louça e limpar o banheiro. A abordagem anterior recebeu críticas por parecer naturalizar o fardo doméstico como uma obrigação exclusivamente feminina.
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Lula diz que “a vida da mulher é mais grave ainda” (Vídeo: reprodução / Instagram /@gazetadopovo)
Diante da repercussão, o chefe do Executivo aproveitou o evento em solo amazonense para reformular o argumento. Ele elogiou o fato de encontrar mulheres atuando em funções técnicas pesadas dentro do estaleiro, como soldadoras e montadoras. Segundo o petista, o tempo em que as mulheres ocupavam apenas cargos de secretariado ficou no passado.
Lula projetou um cenário em que as mulheres cobrem de forma direta uma postura recíproca dos seus companheiros. Ele sugeriu que a classe feminina diga aos homens que, assim como elas aprenderam a ocupar o mundo do trabalho exterior, cabe agora aos parceiros entrar na cozinha para ajudar a cuidar da casa.
A mudança de tom acontece em um momento em que os movimentos sociais e feministas cobram debates mais profundos e ações estruturais que combatam a disparidade de gênero. A fala presidencial buscou transformar uma constatação de sobrecarga em um chamado para a ação e para a transformação cultural dentro dos lares brasileiros.
Dupla jornada e 6×1
O posicionamento de Lula ganhou tração ao ser associado diretamente à defesa do fim da escala de trabalho 6×1. Durante as agendas na capital amazonense, o presidente reforçou o entendimento de que a rotina atual de seis dias de trabalho por um de descanso é prejudicial para a saúde física e mental da população. Segundo o mandatário, essa realidade se torna ainda mais cruel para as trabalhadoras, que saem das empresas e iniciam imediatamente um segundo turno invisível em suas próprias residências.
O chefe do Executivo revelou que o governo firmou um entendimento estratégico com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para dar celeridade ao projeto. A intenção é viabilizar a transição para o modelo de cinco dias de trabalho por dois de descanso. No entendimento da gestão federal, garantir dois dias oficiais de folga na semana é um passo fundamental para aliviar a exaustão crônica e permitir que as famílias reorganizem a rotina doméstica com mais equilíbrio e dignidade.
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Governo defende o fim da escala 6X1 (Vídeo: reprodução / Instagram /@canalgov)
A discussão sobre o tempo de descanso também abre espaço para outras pautas socioeconômicas urgentes no país. No mesmo pronunciamento, Lula aproveitou para criticar de forma contundente a interferência do uso de ferramentas de Inteligência Artificial no processo eleitoral, alertando para os riscos de manipulação tecnológica. Além disso, o petista destacou o interesse manifestado pelo governo do México em fechar acordos de cooperação técnica e exploração conjunta com a Petrobras, evidenciando o papel de destaque da estatal no cenário internacional.
Desafios do cotidiano
A cobrança por uma divisão equilibrada encontra respaldo em estatísticas oficiais sobre a realidade brasileira. Conforme levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens nas tarefas de casa e no cuidado com pessoas.
Essa diferença expressiva ilustra o tamanho do desafio cultural apontado na fala presidencial. Mesmo inseridas no mercado profissional formal, as trabalhadoras enfrentam uma jornada dupla que restringe o tempo de descanso, lazer e qualificação individual.
A discussão levantada em Manaus conecta-se diretamente com as negociações que ocorrem nos bastidores políticos de Brasília.
Comissão da câmara aprova texto-base da PEC sobre o fim da escala 6×1 (Vídeo: reprodução / YouTube /@CNNbrasil)
Na Câmara dos Deputados, uma comissão especial analisa o parecer do deputado Leo Prates. O relatório sugere uma transição para reduzir o limite da jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo os salários atuais. O projeto recebeu parecer favorável e aguarda votação no comitê para seguir ao plenário da casa legislativa.
O governo federal tem utilizado o avanço dessa pauta no Congresso para demonstrar alinhamento com as demandas da classe trabalhadora. Com as discussões em andamento e a possibilidade de votação rápida no plenário principal, o tema da gestão do tempo e do equilíbrio familiar deve continuar em evidência nos próximos dias.
