PF detalha relação de Vorcaro com servidores do BC: assessoria informal, grupo de mensagens e cobrança

Relatórios tornados públicos mostram que Paulo Sérgio e Belline Santana ofereceram consultoria detalhada em favor do Banco Master e cobraram pelos serviços

11 set, 2026
Daniel Vorcaro | Reprodução/X/@liberta___depre
Daniel Vorcaro | Reprodução/X/@liberta___depre

A Polícia Federal apontou em relatórios divulgados nesta sexta-feira (11) que dois servidores afastados do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, atuaram como consultores informais de Daniel Vorcaro, oferecendo orientações, revisando documentos sensíveis e intervindo em temas de supervisão bancária em favor do Banco Master. Os servidores cobraram por esses serviços.

Os relatórios foram tornados públicos após o ministro André Mendonça levantar o sigilo das investigações do caso Master. A decisão atendeu solicitação do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, e liberou acesso a inquéritos, reclamações e petições vinculados ao caso. Com os documentos divulgados, o público teve acesso aos detalhes das ações investigadas pela PF.

O papel de Paulo Sérgio no Banco Central

Paulo Sérgio Neves de Souza foi promovido a chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, o Desup. Este departamento monitora capital e liquidez dos bancos e acompanha práticas de gestão e controle interno das instituições financeiras. Com a promoção, sua posição ganhou peso nas discussões sobre políticas bancárias.

A partir dessa promoção, sua atuação junto a Vorcaro “passa a assumir contornos de verdadeira assessoria paralela”, conforme descrito nos relatórios da PF. Paulo Sérgio começou a oferecer orientações detalhadas a Vorcaro sobre estratégias e documentos relacionados aos interesses do Banco Master, atuando de forma coordenada com o empresário.

Em 21 de dezembro de 2023, Paulo Sérgio sugeriu pontos para uma reunião que Vorcaro teria com Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central. Conforme os relatórios, Paulo Sérgio orientou Vorcaro a focar em demonstrar como o Banco Will agregaria capacidade para oferta de serviços de pagamento. A PF inferiu que se tratava de Campos Neto:

“Infere-se tratar-se do presidente do BCB, à época, ROBERTO CAMPOS NETO”.


Vorcaro mantinha relação próxima com servidores do BC, aponta PF (Vídeo: reprodução/YouTube/@g1)


Aquisição do Banco Will e intervenções posteriores

O Banco Master, em conjunto com a Reag Investimentos, adquiriu o Banco Will em fevereiro de 2024. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Will em 21 de janeiro de 2026. Segundo a PF:

“Tal fato indica que as orientações, seguidas ou não, culminaram na efetiva aquisição do referido banco”.

Além da orientação sobre a aquisição do Will, Paulo Sérgio tentou atuar para alterar normas de enquadramento das entidades que atuam na Superintendência Nacional de Previdência Complementar, a Previc. Na avaliação de Vorcaro, conforme os relatórios, a regra em vigor permitia que apenas grandes bancos atuassem naquele segmento, o que motivava as gestões junto ao servidor.

Em 25 de abril de 2025, Vorcaro preparou um ofício do Banco Master endereçado ao Desup. Ele solicitou revisão da minuta a Paulo Sérgio, que retornou com alterações sugeridas. Este padrão de revisão de documentos sensíveis se repetiu em outras ocasiões, consolidando a relação de consultoria paralela.

O papel de Belline Santana

Belline Santana era ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária do Banco Central. Em outubro de 2025, ele criou um grupo de mensagens que incluía a si mesmo, Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio. Belline afirmou ter criado o grupo para facilitar a interlocução entre os três.

No grupo, Belline elogiou a elaboração de um documento, mas questionou a adequação de uma expressão relacionada à Difis, sigla da Diretoria de Fiscalização. Ele sugeriu deixar a expressão mais aberta para evitar ruídos desnecessários. A PF aponta que o grupo funcionava como prestação de consultoria em benefício dos interesses de Vorcaro.

O relacionamento de Vorcaro e Belline era anterior à criação do grupo. Em novembro de 2023, Belline enviou mensagem a Vorcaro para tratar sobre a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. Em abril de 2024, Belline marcou uma reunião entre ele, Vorcaro e Paulo Sérgio. O tema proposto por Belline era “visão prospectiva e estratégica”. Segundo a PF, este tema nenhuma relação tinha com o cargo ocupado por Belline no Banco Central e relacionava-se aos interesses de negócios de Vorcaro.

O sistema de pagamentos

Fabiano Zettel atuava como intermediário nos pagamentos a Belline Santana. Os pagamentos não saíam diretamente do banco, mas através de terceiros, estrutura que visava à ocultação dos valores.

A cronologia de pagamentos registrada nos relatórios inclui:

  • Em dezembro de 2023, Fabiano Zettel mencionou a Vorcaro que era dia de pagamento a Belline
  • Em 9 de janeiro de 2024, Fabiano enviou mensagem indicando pagamento a Belline como pendente
  • Em 30 de janeiro de 2024, Zettel informou que realizaria o pagamento a Belline

Em outubro de 2024, Fabiano Zettel informou que parte do dinheiro enviado a Leonardo Palhares destinava-se ao pagamento a Belline. O valor indicado foi de R$ 760 mil, conforme os relatórios da PF.

Vorcaro e Zettel discutiram em mensagens como estruturar os pagamentos para evitar rastreamento. Zettel mencionou que não podia mais usar “super”, referência a uma empresa intermediária que vinha sendo utilizada. Planejavam abrir outra empresa para fazer os pagamentos subsequentes. A PF aponta que Vorcaro realizou pagamentos a Belline inclusive durante uma viagem para a França, conforme mostram as mensagens analisadas.

Fabiano Zettel mencionou em um momento que alguém chamado “Igreja” não fazia pagamentos havia um mês. Zettel afirmou odiar cobrar, mas que a obra pararia se não pagasse, e mencionou que Belline não havia comparecido em determinado período.

Conclusão da investigação

A PF conclui que Paulo Sérgio e Belline prestaram consultoria tanto por meio de mensagens de texto e ligações quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de Daniel Vorcaro. Conforme o relatório:

“O contexto geral observado se relaciona ao que já vinha sendo tratado ao longo deste documento: a prestação de uma espécie de consultoria, tanto por meio de mensagens de texto e ligações quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de DANIEL VORCARO”.

A consultoria envolvia temas de supervisão bancária do Banco Central, incluindo questões sobre aquisições, mudanças normativas e intervenções junto à alta administração da instituição. Com a divulgação dos relatórios, o caso Master ganhou novos contornos e informações que permitem detalhar as ações investigadas há meses pela Polícia Federal.

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