UE suspende importações de carnes do Brasil

Medida começa nesta quinta-feira (3) e também afeta pescados, mel e ovos; decisão pode impactar exportações brasileiras, até o momento o setor agropecuário não se pronunciou

03 set, 2026
Carne bovina |reprodução/Instagram/@maracana.carnes
Carne bovina |reprodução/Instagram/@maracana.carnes

A União Europeia (UE) iniciou nesta quinta-feira (3) o embargo a produtos de origem animal do Brasil. A medida impede, por enquanto, a entrada de carnes bovina, suína e de frango, além de mel, pescados e ovos nos 27 países do bloco. A decisão pode ser revista caso as negociações entre o governo brasileiro e as autoridades europeias avancem.

A suspensão ocorre enquanto a União Europeia avalia os controles brasileiros sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. Nesta semana, técnicos do bloco realizam uma auditoria nas cadeias de frango e mel no Brasil, com previsão de conclusão até sexta-feira (4). Depois disso, o resultado ainda será analisado pelas autoridades europeias, em um processo que pode levar cerca de dois meses.

Apesar do embargo, a medida não foi provocada por irregularidades identificadas diretamente nos produtos brasileiros. Segundo a avaliação da União Europeia, o problema está na forma como o Brasil fiscaliza o uso de determinadas substâncias na produção animal. Entre os produtos mais afetados estão as carnes bovina e de frango, que têm participação relevante nas exportações brasileiras para o bloco.

UE é acusada de protecionismo pelo setor agropecuário

A decisão da União Europeia gerou críticas entre representantes do agronegócio brasileiro, que interpretam o embargo como uma possível medida protecionista. A avaliação ganhou força, porque o bloqueio foi anunciado pouco depois de avançarem as negociações sobre o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. O setor teme que as novas exigências criem barreiras para os produtos brasileiros.


inforgráfico do agropecuário Brasil e UE
Infográfico do setor agropecuário de exportações do Brasil e UE em 2025. (foto:reprodução/ Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)/AgroStatBrasil/ Secex/MDIC
Elaboração: SCRI/DNAC/CGEA

A resistência também parte de agricultores europeus, que demonstram preocupação com a concorrência de produtos sul-americanos. O Brasil é o principal exportador agrícola do Mercosul para a União Europeia e, por isso, está entre os países mais afetados pela disputa comercial. Argentina, Paraguai e Uruguai, por outro lado, continuam autorizados a vender produtos de origem animal ao bloco.

A reação também aparece entre entidades do setor na Europa. Na Itália, a Confederação Italiana de Agricultores apoiou o bloqueio e defendeu condições semelhantes para produtores europeus e estrangeiros. O país também é o principal comprador de carne bovina brasileira dentro da União Europeia. Segundo dados apresentados pelo G1, o bloco importou cerca de US$ 1,05 bilhão em carne bovina brasileira, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos entre os principais compradores.

Brasil tenta atender às novas exigências da UE

Desde o anúncio do embargo, o governo brasileiro vem negociando com as autoridades europeias para tentar reverter a decisão. Em abril, o Ministério da Agricultura proibiu o uso de alguns antimicrobianos na produção animal. No mês seguinte, o Brasil chegou a propor um período de adaptação às novas regras, mas a União Europeia não aceitou a sugestão.


 

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Publicação do Metropoles sobre a suspensão de carne ( vídeo:reprodução/Instagram/@metropoles)


Em junho, o país apresentou um novo protocolo para controlar o uso dessas substâncias na pecuária. A proposta prevê o acompanhamento do animal desde o nascimento até o abate, com registros capazes de comprovar que os antimicrobianos proibidos não foram utilizados. Ainda de acordo com os dados apresentados pelo G1, a carne bovina representa o maior valor entre os produtos de origem animal exportados pelo Brasil para a UE, com cerca de US$ 1,05 bilhão, seguida pelo frango, com aproximadamente US$ 763 milhões.

Apesar dos valores, a União Europeia não é o principal destino das carnes brasileiras. Nos dados apresentados na reportagem do G1, a China aparece como maior compradora de carne bovina, com cerca de US$ 8,84 bilhões, enquanto a UE ocupa a terceira posição. No caso do frango, o bloco aparece entre os cinco maiores destinos, com aproximadamente US$ 763 milhões, equivalentes a 8% das exportações brasileiras do produto.

Setor espera retomada das exportações de frango

O setor brasileiro de frango ainda espera que as vendas para a União Europeia possam ser retomadas neste ano. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o próximo passo depende do resultado da auditoria realizada pelo bloco no Brasil. Depois da inspeção, o relatório ainda precisará passar pela análise das autoridades europeias.

Caso o embargo continue, a produção que seria destinada ao mercado europeu poderá ser direcionada para o consumo interno e para outros países que já compram o frango brasileiro. O Brasil mantém presença em cerca de 150 mercados e, para Santin, a maior preocupação seria uma eventual dificuldade de acesso aos compradores do Oriente Médio. A entidade, porém, ainda trabalha com a possibilidade de recuperação das vendas para a Europa.

Para a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a situação exige atenção principalmente pelo perfil do mercado europeu. Embora a União Europeia represente 5,8% das exportações brasileiras de carne bovina, o bloco é considerado estratégico por concentrar a compra de cortes nobres e de maior valor agregado. Por isso, a associação defende que o comércio seja normalizado o quanto antes.

Exportações de mel ganham novo desafio

O mel também passou a enfrentar um cenário de incerteza com o embargo europeu. As vendas brasileiras para o bloco vinham crescendo depois que as tarifas impostas pelos Estados Unidos encareceram as exportações para o mercado americano. Com isso, parte dos produtores passou a buscar espaço na Europa, onde as vendas chegaram a aproximadamente US$ 6,3 milhões no primeiro semestre deste ano, segundo dados apresentados pelo G1.

Para o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, a suspensão representa um obstáculo justamente quando os exportadores começavam a ampliar a presença no mercado europeu. Apesar disso, ele avalia que o mel brasileiro destinado à exportação apresenta baixo risco de problemas relacionados a resíduos, já que grande parte da produção é orgânica e segue processos de certificação.



Matéria sobre exportação de mel do Brasil à UE (vídeo:reprodução/YouTube/Canal do Boi- Oficial)


Um dos pontos de atenção, segundo Azevedo, é a chamada contaminação cruzada. O problema pode ocorrer quando colmeias ficam próximas a áreas de criação de animais e entram em contato, de forma indireta, com resíduos de medicamentos utilizados na pecuária. Por isso, o controle sobre o uso de antimicrobianos também pode afetar a cadeia do mel, mesmo que o produto em si não apresente irregularidades.

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