Roberto Sanchez ultrapassa Keiko Fujimori em disputa acirrada no Peru

Roberto Sánchez lidera com 50,065% dos votos, contra 49,935% de Keiko Fujimori; disputa segue apertada e resultado ainda é incerto

08 jun, 2026
Roberto Sanchez | Reprodução/Instagram/@robertosanchez.jp
Roberto Sanchez | Reprodução/Instagram/@robertosanchez.jp

Com 94,6% das urnas apuradas, o deputado de esquerda Roberto Sanchez assumiu a liderança da disputa presidencial no Peru e ultrapassou a candidata conservadora Keiko Fujimori na contagem dos votos do segundo turno.

De acordo com a atualização mais recente do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), divulgada às 17h42 (horário de Brasília), Sánchez registra 50,065% dos votos válidos, enquanto Fujimori soma 49,935%. A diferença entre os candidatos é mínima, o que mantém o resultado da eleição em aberto e sem definição oficial até o momento.

Segundo a contagem oficial divulgada pela autoridade eleitoral peruana, Roberto Sanchez assumiu a liderança da disputa às 14h58 (horário de Brasília), após várias horas em que Keiko Fujimori aparecia à frente na apuração dos votos.

Embora as pesquisas de boca de urna apontassem Keiko Fujimori como favorita, analistas já previam uma possível recuperação de Roberto Sanchez ao longo da apuração. Isso porque o candidato de esquerda concentra grande parte de seu apoio em regiões rurais e mais afastadas do país, cujos votos costumam ser contabilizados nas etapas finais da contagem.

Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko terminou o primeiro turno na liderança, com 17,2% dos votos válidos. Já Sanchez avançou para a segunda etapa da disputa após obter 12% dos votos válidos na votação inicial.

As seções eleitorais foram encerradas às 17h no horário local (19h em Brasília) no domingo. A votação transcorreu sem registros relevantes de incidentes, em contraste com o primeiro turno, marcado por problemas técnicos e denúncias de fraude que geraram questionamentos sobre o processo eleitoral.

Primeiro turno refletiu fragmentação política

A eleição peruana ocorreu em meio a um cenário de forte fragmentação partidária. No primeiro turno, um número recorde de 35 candidatos disputou a Presidência da República, evidenciando a dispersão de forças políticas e a dificuldade de formação de consensos no país.

Para Lucas Berti, cientista político, pesquisador do Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, o quadro observado nesta eleição é resultado de um processo contínuo de desgaste da confiança da população nas instituições políticas.

Segundo o especialista, o elevado número de candidaturas e a volatilidade do cenário eleitoral refletem uma crise de representatividade que vem se aprofundando nos últimos anos, marcada pela instabilidade dos governos e pela dificuldade de construção de lideranças capazes de reunir apoio duradouro no país.

Para Lucas Berti, cientista político, pesquisador do Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, o cenário eleitoral reflete um processo mais amplo de desgaste das instituições peruanas.

É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem ocorrendo no país nos últimos anos. À medida que os presidentes eleitos encontram dificuldades para governar e manter estabilidade política, cresce a fragmentação partidária e a desconfiança da população em relação às instituições”, afirmou.


Reportagem contextualizando a virada de Sanchez (Vídeo: reprodução/YouTube/UOL)


Nove presidentes em uma década

A instabilidade política do Peru fica evidente ao observar a sucessão de governos nos últimos anos. Em apenas uma década, o país teve nove presidentes diferentes. Considerando que os mandatos presidenciais peruanos têm duração de cinco anos, em um cenário de estabilidade democrática o país teria passado por apenas dois chefes de Estado no mesmo período.

A realidade, porém, foi bem diferente. Crises políticas recorrentes, processos de impeachment e disputas entre Executivo e Congresso provocaram uma rápida troca de governantes. Em alguns casos, presidentes permaneceram no cargo por poucos dias antes de serem destituídos ou renunciarem.

Segundo Lucas Berti, a presidente que permaneceu mais tempo no cargo nesse período de instabilidade foi Dina Boluarte, que governou o Peru por quase três anos. Ainda assim, sua gestão também acabou sendo interrompida após perder apoio político e enfrentar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko Fujimori no Congresso.

Nesses anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”, afirmou o pesquisador.

Outro elemento frequentemente citado por especialistas para explicar a instabilidade política peruana é o artigo 113 da Constituição. O dispositivo prevê que um presidente pode ser destituído por “incapacidade moral ou física permanente”, cabendo ao próprio Congresso avaliar e decidir sobre a aplicação desse mecanismo.

Na prática, a interpretação ampla do conceito de “incapacidade moral” transformou o artigo em uma ferramenta de forte impacto político, utilizada em diferentes momentos para afastar presidentes e aprofundar as tensões entre o Executivo e o Legislativo.

Na avaliação de Lucas Berti, a interpretação ampla desse mecanismo constitucional permite que o Congresso tenha poder para destituir um presidente em um curto espaço de tempo, inclusive em cenários marcados por impasses políticos entre os Poderes.

Para o pesquisador, essa facilidade evidencia a fragilidade institucional do Peru. Segundo ele, nos últimos anos, a coalizão fujimorista ampliou sua influência política, consolidando presença não apenas no Congresso, mas também em outros espaços de poder, como setores do Judiciário e dos tribunais do país.

Berti destaca ainda que o movimento fujimorista é liderado por Keiko Fujimori desde 2008, quando ela fundou o partido Fuerza Popular. Desde então, a filha do ex-presidente Alberto Fujimori se tornou uma das principais lideranças da direita peruana e tem buscado chegar à Presidência da República, embora ainda não tenha conseguido vencer uma eleição presidencial.


Keiko Fujimori votando durante as eleições presidenciais de 2026 no Peru (Foto: reprodução/Instagram/@keikofujimorih)


Segundo Berti, o histórico eleitoral de Keiko Fujimori mostra o grau de polarização da política peruana. A líder do Fuerza Popular foi derrotada nos segundos turnos de 2011, 2016 e 2021, sempre por diferenças apertadas.

Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. Agora, em 2026, ela chega novamente ao segundo turno com uma vantagem maior de votos em relação ao primeiro turno. Alguns institutos apontam vantagem para Keiko, enquanto outros indicam liderança de Sánchez. Isso mostra que a disputa será difícil e que o resultado continua em aberto”, afirmou o cientista político.

Democracia enfrenta desgaste e perda de confiança

A disputa constante entre Executivo e Legislativo não provocou apenas uma sequência de crises políticas no Peru. Segundo especialistas, o cenário também contribuiu para o aumento da desconfiança da população em relação às instituições democráticas e ao funcionamento do sistema político do país.

Na avaliação de analistas, a sucessão de presidentes, os frequentes confrontos entre os Poderes e a dificuldade de formação de governos estáveis alimentaram uma percepção de insegurança institucional. Como consequência, cresce entre os peruanos o sentimento de descrença em relação à capacidade da democracia de oferecer soluções para os problemas do país.

Segundo Lucas Berti, a confiança da população peruana nas instituições atingiu níveis historicamente baixos ao longo da última década. O cientista político destaca que a sucessão de crises políticas e confrontos entre os Poderes contribuiu para um cenário de desgaste institucional profundo.

A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos dez anos. A desconfiança em relação ao Congresso supera 90%, especialmente após o processo político que culminou na saída da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025”, afirmou.

Os dados mais recentes do Latinobarómetro, levantamento que acompanha a percepção da democracia na América Latina, reforçam esse diagnóstico. O Peru aparece entre os países com os menores índices de confiança nas instituições públicas da região, em um cenário que especialistas classificam como de “desconfiança crônica”.

De acordo com a pesquisa, cerca de 90% dos peruanos afirmam ter pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso. Além disso, apenas 10% da população declara estar satisfeita com o funcionamento da democracia no país.

O levantamento também identificou outro fator considerado preocupante: o crescimento da indiferença em relação à política e ao próprio modelo de governo. Para analistas, esse distanciamento da população em relação à vida pública representa um desafio adicional para a recuperação da estabilidade institucional e da confiança democrática no Peru.

Para Berti, a fragmentação política peruana também está ligada à facilidade para a criação de partidos no país. Segundo ele, muitas dessas legendas possuem baixa institucionalização, sem vínculos sólidos com a sociedade ou projetos políticos de longo prazo.

Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru, e muitos deles são pouco institucionalizados. Não são siglas com raízes profundas na sociedade ou que participam continuamente da disputa política ao longo de décadas. São partidos que surgem e desaparecem com frequência”, explicou.

O pesquisador destaca ainda que essa dinâmica se reflete no comportamento dos próprios políticos. De acordo com ele, a fidelidade partidária é reduzida, e mudanças de legenda ou de coalizão são comuns no cenário político peruano.

Também não há um compromisso duradouro dos candidatos com os partidos. As trocas de coalizão acontecem com facilidade, o que contribui para a instabilidade do sistema político e dificulta a consolidação de projetos partidários mais consistentes”, completou.

Na avaliação de Lucas Berti, esse ambiente político marcado pela fragmentação partidária e pela alta rotatividade de lideranças contribui para ampliar a desconfiança do eleitorado em relação às instituições e aos próprios candidatos.

Segundo o pesquisador, muitos políticos chegam às eleições sem o respaldo de partidos consolidados ou de projetos políticos duradouros, o que dificulta a construção de vínculos de confiança com a população.

Todo esse cenário reforça no eleitor a percepção de que muitos candidatos disputam eleições sem uma base sólida ou sem o apoio de legendas amplamente reconhecidas. Isso alimenta a desconfiança e o descrédito em relação à política, além do temor de que autoridades eleitas possam ser afastadas com a mesma facilidade com que chegam ao poder”, afirmou.

Para especialistas, esse ciclo de instabilidade acaba retroalimentando a crise institucional peruana, enfraquecendo a confiança nas lideranças políticas e dificultando a construção de governos com capacidade de garantir estabilidade e governabilidade a longo prazo.


Acompanhe a apuração dos votos em tempo real (reprodução/YouTube/O Povo)


Peru retoma sistema bicameral após décadas

Além da disputa presidencial, as eleições de 2026 também marcaram uma mudança importante na estrutura política do Peru. Diferentemente do Brasil, que adota um sistema bicameral composto por Senado e Câmara dos Deputados, o país andino operava, até então, com um Congresso unicameral formado por 130 parlamentares.

Com a reforma aprovada nos últimos anos, o Peru voltou a adotar o modelo bicameral pela primeira vez em décadas. Desde a realização do primeiro turno, em abril, o Legislativo passou a contar novamente com uma Câmara dos Deputados, composta por 130 cadeiras, e um Senado, com 60 representantes.

A mudança também altera a dinâmica das relações entre os Poderes. Pelo novo sistema, eventuais processos de destituição presidencial precisarão ser analisados pelas duas Casas legislativas, cabendo ao Senado a decisão final sobre o afastamento ou permanência do chefe de Estado no cargo.

Para especialistas, a retomada do bicameralismo busca criar mecanismos adicionais de equilíbrio institucional e reduzir a facilidade com que presidentes foram removidos do poder nos últimos anos, um dos principais fatores associados à instabilidade política peruana.

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