PF prende pastor Márcio Poncio em nova fase da Operação Unha e Carne

Nova etapa da investigação da Polícia Federal mira suposta rede de lavagem de dinheiro vinculada à cúpula do jogo do bicho e repasses a agentes políticos do RJ

02 jul, 2026
Márcio Poncio
| Reprodução/Instagram/@hugogloss
Márcio Poncio | Reprodução/Instagram/@hugogloss

A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (2), a quinta fase da Operação Unha e Carne. A nova etapa da investigação tem como objetivo principal desarticular uma suposta rede de lavagem de dinheiro vinculada à cúpula do jogo do bicho e a repasses financeiros para agentes políticos no Estado do Rio de Janeiro. Entre os principais alvos da ofensiva está o pastor e empresário Márcio Poncio, detido preventivamente por agentes federais em um hotel de luxo localizado na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste da capital fluminense.

Ao todo, os policiais federais cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 mandados de busca e apreensão. As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e estão sendo executadas em diferentes endereços ligados aos investigados nas cidades do Rio de Janeiro e de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Além das restrições de liberdade e das buscas domiciliares, a Suprema Corte determinou o sequestro de bens e valores dos envolvidos até o montante de cerca de R$ 22 milhões, visando garantir o ressarcimento dos cofres públicos e o bloqueio de ativos supostamente ilícitos.

A investigação aponta para a existência de um esquema estruturado de corrupção que envolve a simbiose entre o poder político regional e o crime organizado tradicional do Rio de Janeiro. Os policiais federais buscam consolidar as provas sobre a dinâmica de como o dinheiro oriundo da contravenção era inserido no sistema financeiro legal e distribuído para detentores de cargos eletivos, com o intuito de blindar as atividades criminosas do grupo e garantir a perpetuação de privilégios institucionais.

Listas de Adilsinho disparam quinta fase das investigações

O desdobramento que culminou na deflagração desta quinta fase da Operação Unha e Carne foi impulsionado por novos elementos de prova obtidos em etapas anteriores do processo investigativo. De acordo com fontes internas da Polícia Federal, o estopim para a atual ação foi a apreensão de listas manuscritas e documentos sigilosos encontrados pelos agentes na cabeceira da cama de Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido no meio policial e no submundo do crime como “Adilsinho”. O investigado é apontado pelas autoridades como um contraventor de alta periculosidade e um dos principais responsáveis pelo monopólio dos cigarros ilegais em território fluminense.

Segundo os investigadores da corporação, os papéis recolhidos trazem anotações detalhadas com nomes de políticos de diversos partidos e variados espectros ideológicos atuantes no cenário estadual. Para a Polícia Federal, os registros funcionavam como uma espécie de contabilidade paralela da organização criminosa, indicando de forma explícita:

  • Supostos pagamentos indevidos a agentes públicos de diferentes escalões;

  • Doações eleitorais sem qualquer lastro legal ou declaração aos órgãos competentes;

  • Movimentações contábeis estruturadas especificamente para a lavagem de capitais.

A principal linha de apuração seguida pelos agentes federais aponta para a “compra” de favores institucionais e políticos por meio do pagamento sistemático de propina. As anotações manuscritas chamaram a atenção do núcleo de inteligência da PF devido à precisão, clareza e riqueza de detalhes com que apontavam repasses diretos de expressivos valores em espécie a integrantes da classe política do Estado do Rio de Janeiro, funcionando como um mapa do fluxo de corrupção que abastecia o cenário governamental e legislativo fluminense.


 

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Miriam Leitão, jornalista da Globo, classificou a operação como “puro suco do Rio de Janeiro” (Vídeo: reprodução/Instagram/@globonews)


Defensiva policial atinge cúpula política e contravenção

Além do pastor Márcio Poncio, a operação realizada nesta quinta-feira visa figuras de grande destaque na política e na contravenção do Rio de Janeiro. Entre os alvos que já se encontravam sob custódia do Estado em decorrência de fases anteriores da mesma operação estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, e o próprio contraventor Adilsinho, apontado como o articulador financeiro do grupo criminoso.

Outro nome de relevância na estrutura investigada e que se tornou alvo central das buscas nesta data é Marco Antônio Cabral. Advogado, ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte do Rio de Janeiro durante a gestão do ex-governador Luiz Fernando Pezão, Marco Antônio é filho do ex-governador Sérgio Cabral. Ele foi alvo de um mandado de busca e apreensão em seus endereços residenciais e profissionais, onde os agentes recolheram mídias digitais e documentos para análise.

A trajetória política de Marco Antônio Cabral inclui uma filiação de 18 anos ao MDB, partido pelo qual se projetou publicamente no cenário estadual e federal, tendo migrado recentemente para o Solidariedade com o objetivo de disputar uma vaga de deputado estadual na Alerj. O ex-parlamentar também exerceu funções estratégicas de assessoria na Presidência da Alerj durante a gestão de Rodrigo Bacellar. Nesse período, ele atuava diretamente na interlocução política com prefeitos e vereadores do interior do estado, uma posição que, segundo as investigações, conferia-lhe grande trânsito político e capacidade de articulação de interesses.


Empresário do ramo do tabaco é acusado de suposta ligação com a máfia do cigarro liderada pelo bicheiro Adilsinho (Vídeo: reprodução/X/@TVBrasil)


Perfil dos investigados revela conexões com tabaco e redes sociais

O pastor Márcio Poncio, preso preventivamente na ação de hoje, divide sua atuação pública de forma peculiar. Nas redes sociais, ele ostenta uma vida de alto padrão e se apresenta como o “patriarca da família Poncio”, sendo líder religioso da Igreja da Nuvem. Ele é pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do conhecido cantor Saulo Poncio. No entanto, longe dos altares e das postagens na internet, sua atuação no âmbito empresarial se concentra fortemente no ramo do tabaco, atividade comercial que lhe rendeu nos bastidores do setor o apelido de “pastor do cigarro”.

As investigações da Polícia Federal buscam esclarecer as conexões comerciais e financeiras entre as empresas de tabaco de Poncio e a estrutura de distribuição de cigarros ilegais controlada por Adilsinho. A suspeita é de que as empresas legalizadas fossem utilizadas para mascarar a circulação de dinheiro proveniente do contrabando e do jogo do bicho, misturando receitas lícitas e ilícitas para dificultar o rastreamento por parte dos órgãos de fiscalização financeira, como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

O esquema sob análise: A Polícia Federal suspeita que a estrutura empresarial do ramo de tabaco funcionava como uma engrenagem essencial no processo de lavagem de capitais, integrando o dinheiro da contravenção à economia formal por meio de simulação de vendas e emissão de notas fiscais fraudulentas.

Defesas dos citados manifestam posicionamento sobre acusações

Diante do impacto das medidas judiciais cumpridas, as representações jurídicas dos principais envolvidos se manifestaram publicamente para rebater as suspeitas levantadas pela Polícia Federal e ratificadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Em nota oficial enviada à imprensa, a advogada Patrícia Proetti, que representa Marco Antônio Cabral, declarou textualmente que o ex-deputado federal nega veementemente “qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou o recebimento de valores de origem ilícita”. A defesa do político ressaltou que ele se coloca à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos necessários e demonstrar a regularidade de suas atividades políticas e profissionais.

Por sua vez, a defesa do contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, informou em nota oficial que “rechaça categoricamente a alegação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos”. Os advogados do investigado ressaltaram ainda que mantêm plena confiança “no Poder Judiciário e no estrito cumprimento do devido processo legal”, afirmando que os fatos anotados nos documentos apreendidos possuem justificativas que serão apresentadas no momento oportuno do processo judicial.

Até o fechamento e a última atualização desta reportagem, as defesas técnicas de Rodrigo Bacellar e de Márcio Poncio não haviam sido localizadas ou encontradas para se manifestar sobre as ordens judiciais cumpridas nesta manhã. O espaço permanece aberto para que as representações dos citados apresentem seus contrapontos e esclarecimentos assim que decidirem se pronunciar formalmente.

Polícia Federal foca em análise técnica e fluxo financeiro

Segundo o posicionamento oficial emitido pela coordenação da Polícia Federal, as investigações sobre o caso entram agora em uma etapa estritamente técnica e de inteligência financeira. O foco principal dos agentes federais estará concentrado na análise minuciosa de todo o material digital, computadores, aparelhos celulares e documentos em papel que foram recolhidos durante os 14 mandados de busca e apreensão executados na manhã de hoje.

A corporação pretende mapear detalhadamente o fluxo financeiro do suposto esquema de lavagem de capitais, utilizando softwares avançados de auditoria e cruzando dados bancários e fiscais autorizados pela Justiça.

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