João de Deus e centro espírita são sentenciados a pagar fortuna de R$ 20 milhões por danos morais coletivos
Decisão também determina indenizações individuais a vítimas e mantém bloqueio de fazenda avaliada em R$ 41 milhões
O médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, e o Centro Espírita Dom Inácio de Loyola foram condenados solidariamente a pagar R$ 20 milhões por danos morais coletivos decorrentes de abusos sexuais cometidos em Abadiânia, Goiás. A decisão, proferida nesta terça-feira (6) pelo juiz André Luiz Figueiredo Ligório, também determina indenizações individuais a vítimas que comprovarem abuso.
O montante será destinado a fundos públicos voltados a políticas de proteção e apoio a mulheres vítimas de violência sexual. Os valores incluem correção monetária e juros de mora calculados desde dezembro de 2018, segundo a sentença. A Fazenda Agropastoril Dom Inácio, avaliada em R$ 41 milhões, mantém bloqueio judicial como garantia do cumprimento da condenação, segundo o g1.
A condenação solidária e as indenizações individuais
A condenação solidária significa que ambos os réus respondem pela totalidade da dívida sem divisão prévia de quotas. Seja qual for o desempenho em cobrança, o débito inteiro permanece exigível de qualquer um deles, segundo a decisão. Além disso, João de Deus e o Centro Espírita indenizarão individualmente todas as pessoas que comprovarem terem sofrido abuso durante atendimentos espirituais na instituição.
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— g1 (@g1) October 7, 2026
João de Deus (Vídeo: reprodução/X/@g1)
O juiz rejeitou a alegação da defesa de que os abusos teriam sido atos isolados e íntimos, sem vínculo com a instituição. Pelo contrário, o magistrado destacou que a entidade e o médium se confundiam em sua própria existência e imagem pública, de forma que a responsabilidade de um recai sobre o outro.
Histórico do caso
A ação civil pública foi movida pelo Ministério Público de Goiás, que comprovou conexão direta entre os abusos sexuais cometidos por João de Deus e a estrutura de atendimentos do Centro Espírita. João de Deus ficou conhecido internacionalmente por realizar atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, localizada em Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal. As denúncias de abuso sexual vieram à tona em dezembro de 2018, após relatos de mulheres exibidos em programa da TV Globo.
Segundo a sentença do juiz André Luiz Figueiredo Ligório, a estrutura institucional forneceu a logística necessária para que os crimes ocorressem. João de Deus utilizava a estrutura física do centro, seus funcionários, o fluxo organizado de fiéis e a credibilidade comunitária da instituição para cometer as violações, tudo sob o pretexto de atendimentos espirituais reservados.
“Não se trata de mera coincidência, tampouco de se considerar que a Instituição também fora vítima. Em verdade, a própria estrutura institucional forneceu a logística física, humana e de legitimação social sem a qual as agressões não teriam ocorrido com a reiteração e a segurança que os autos revelam”
João de Deus foi condenado em múltiplos processos pelos crimes de estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude, todos cometidos contra frequentadoras sob pretexto de atendimentos reservados. Também foi condenado por posse ilegal de armas de fogo. As sentenças somaram 215 anos de prisão ao longo dos julgamentos na Justiça goiana, reduzidos de condenações em primeira instância que ultrapassavam 500 anos.
João de Deus se tornou réu em 18 denúncias, sendo 16 delas sobre crimes sexuais, conforme informado ao G1 pelo promotor Luciano Meireles. Cerca de 200 mulheres formalizaram depoimentos sobre os abusos. Ao todo, 67 vítimas foram reconhecidas nos processos, segundo dados do Tribunal de Justiça de Goiás. Outras 121 mulheres tiveram a extinção da punibilidade pela decadência ou prescrição, não sendo contabilizadas como vítimas nos processos.
João de Deus foi preso preventivamente no fim de 2018 e posteriormente passou ao cumprimento de prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. A defesa informou que os autos não refletem a realidade dos fatos e que recorrerá da decisão. Conforme comunicado ao G1, os advogados alegaram que a sentença desconsidera o conjunto de provas e as absolvições obtidas ao longo de oito anos de julgamentos. A defesa reafirmou que recorrerá às instâncias superiores com convicção de que a decisão será revista.
