Super El Niño pode atingir intensidade histórica e causar extremos no Brasil

Previsto para atingir auge em dezembro, fenômeno pode provocar ondas de calor, secas, incêndios e enchentes no Brasil; saiba o que esperar

17 ago, 2026
Super El Niño pode causar ondas de calor | Reprodução/Pexels/Fatih Turan
Super El Niño pode causar ondas de calor | Reprodução/Pexels/Fatih Turan

Previsto para iniciar ainda em 2026, o Super El Niño chama a atenção dos pesquisadores pela possibilidade de ser um dos eventos mais fortes já registrados, atingindo alta intensidade e provocando diversos efeitos climáticos, que vão da seca às enchentes.

Gilvan Sampaio, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirmou em entrevista ao Fantástico, que o auge do fenômeno deve ocorrer em dezembro deste ano, mas sua influência deve permanecer durante os primeiros meses de 2027, com intensidade forte ou muito forte no primeiro semestre.

El Niño pode provocar calor extremo, seca, incêndios e enchentes no Brasil

No Brasil, a previsão de um El Niño de forte intensidade aumenta a preocupação com a elevação das temperaturas em diferentes regiões do país. Além disso, a possibilidade de ocorrência de extremos climáticos simultâneos também preocupa pelos impactos sobre diferentes setores da sociedade.

Secas, incêndios, enchentes e ondas de calor podem comprometer a produção de alimentos, o abastecimento de água, os transportes e os sistemas de saúde, além de aumentar a demanda sobre a Defesa Civil.

A redução das precipitações pode agravar a escassez de água em áreas que já enfrentam dificuldades de abastecimento. Ao mesmo tempo, temperaturas persistentemente elevadas aumentam os riscos à saúde, sobretudo para idosos, pessoas doentes e moradores de regiões com infraestrutura mais vulnerável.


Incêndio atinge área da Amazônia localizada em Marajó, no Pará (Foto: reprodução/Getty Images Embed/AFP/Pablo Porciuncula)


Embora o fogo esteja relacionado à ação humana na maioria dos casos, a combinação entre calor intenso e menor volume de chuvas pode deixar a vegetação mais seca durante a estiagem — cenário que torna a Amazônia mais suscetível à propagação de incêndios, com possíveis impactos sobre as florestas, as comunidades locais e a qualidade do ar.

Os efeitos do El Niño também podem incluir episódios de chuva intensa e enchentes em determinadas regiões do território brasileiro. O fenômeno de 1982/1983, que à época foi considerado o mais forte já registrado, provocou consequências severas no país, com perdas agrícolas relacionadas à seca no Nordeste e grandes inundações em Santa Catarina.

Naquele episódio, centenas de municípios catarinenses foram atingidos pelas enchentes, que deixaram mortos e provocaram grandes prejuízos à infraestrutura. O contraste entre períodos de estiagem e eventos de precipitação intensa mostra como os impactos do El Niño podem variar significativamente conforme a região.

Aquecimento global contribui para cenário de incertezas

Ao comparar os registros naturais preservados nas rochas de cavernas com os dados obtidos por boias no Pacífico e outros instrumentos modernos, os cientistas conseguem identificar padrões e compreender melhor a evolução do El Niño, além de ajudar a aperfeiçoar as projeções sobre a intensidade e a duração do fenômeno.

O aquecimento global, porém, acrescenta uma dificuldade às previsões, já que as condições climáticas atuais não são necessariamente equivalentes às observadas anteriormente. Por isso, os modelos precisam ser constantemente atualizados para incorporar as transformações provocadas pelo constante aumento da temperatura média do planeta.

Pensando nisso, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ampliou a capacidade do supercomputador utilizado nas previsões meteorológicas do Brasil e prevê novos investimentos nessa estrutura. A medida busca aumentar a precisão dos modelos e melhorar a previsão de situações que possam representar riscos para a população.

O monitoramento contínuo pode ajudar comunidades e órgãos públicos a se prepararem para períodos de seca, incêndios, enchentes e calor extremo, reduzindo os impactos desses eventos.


Enchentes causadas pelo El Niño no Rio Grande do Sul, em 2024 (Foto: reprodução/Getty Images Embed/AFP/Nelson Almeida)


Ainda assim, mesmo com os avanços, a ciência ainda não consegue determinar com precisão todos os impactos que serão registrados, uma vez que as mudanças climáticas podem alterar a forma como os fenômenos extremos se manifestam.

Como acontece o El Niño?

O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes, provocando alterações na circulação atmosférica. Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas quentes em direção à Indonésia, enquanto correntes frias levam águas profundas até a superfície na costa do Peru.

Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem e permitem que as águas quentes avancem em direção ao leste do Pacífico. Esse deslocamento modifica a dinâmica do oceano e da atmosfera, alterando padrões climáticos que podem ser sentidos em regiões muito distantes.

As mudanças provocadas pelo fenômeno interferem nos padrões de temperatura e de chuva em diferentes partes do mundo. No Brasil, os efeitos variam conforme a região e podem incluir temperaturas mais elevadas e alterações no regime de precipitações.

O fenômeno é conhecido há séculos por pescadores peruanos, que observavam o aquecimento das águas próximas à costa do país. O nome El Niño faz referência ao Menino Jesus, em razão da ocorrência desse aquecimento próximo ao período do Natal.

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