Democratas conquistam maioria do Congresso nos EUA e podem limitar tarifaço de Trump
Nova correlação de forças em Washington pode fortalecer negociações comerciais de Brasil, China e aliados asiáticos, mas não elimina poderes presidenciais
A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), abriu uma nova frente de pressão sobre a política comercial do presidente Donald Trump. Com a conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, os democratas passam a ter mais instrumentos para fiscalizar o governo, questionar decisões e dificultar iniciativas que ampliem as tarifas sobre produtos estrangeiros.
O resultado pode repercutir nas relações comerciais de Washington com países como Brasil, China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Essas economias enfrentam diferentes níveis de pressão tarifária ou mantêm negociações com o governo americano. Com o novo equilíbrio político, seus representantes podem encontrar mais espaço para contestar exigências e renegociar compromissos.
A mudança, entretanto, não representa o fim do chamado tarifaço. Trump continua na Presidência e dispõe de mecanismos legais para impor determinadas taxas sobre importações. O que muda é o ambiente político: a partir da nova composição do Congresso, a Casa Branca terá de lidar com uma oposição mais forte e com maior fiscalização de suas decisões.
A insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a inflação, a guerra contra o Irã e os efeitos das tarifas sobre os preços estiveram entre os fatores associados ao desempenho dos republicanos nas urnas. A derrota amplia a pressão sobre a estratégia econômica de Trump, que utiliza as barreiras comerciais como instrumento de negociação e de estímulo à produção dentro dos Estados Unidos.
Vitória democrata pode afetar o tarifaço de Trump?
O controle das duas Casas do Congresso fortalece a capacidade dos democratas de convocar autoridades, abrir investigações, promover audiências e questionar os fundamentos das medidas comerciais adotadas pelo Executivo. Também aumenta a possibilidade de resistência legislativa a novas iniciativas do presidente.
Na prática, países que negociam com Washington podem aproveitar esse cenário para buscar condições mais favoráveis. A mudança no Congresso, porém, não significa que os parlamentares consigam revogar automaticamente todas as tarifas ou impedir qualquer decisão presidencial.
O alcance da pressão depende da base jurídica utilizada pelo governo para estabelecer cada medida. Em 20 de fevereiro de 2026, por exemplo, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a impor tarifas. A decisão derrubou medidas fundamentadas nessa legislação, mas não eliminou outros instrumentos previstos na legislação comercial americana.
Entre eles estão:
- Seção 232: permite a aplicação de tarifas por razões de segurança nacional. O mecanismo já foi utilizado para impor taxas sobre produtos como o aço brasileiro.
- Seção 301: autoriza medidas comerciais contra práticas estrangeiras consideradas desleais ou prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos.
Partido Democrata conquista controle do Congresso e impõe derrota a Donald Trump (Vídeo: reprodução/YouTube/@g1)
Essas duas ferramentas seguem regras próprias e não foram anuladas pela decisão da Suprema Corte sobre a IEEPA. Por isso, mesmo com o Congresso sob controle democrata, Trump ainda poderá recorrer a esses dispositivos para pressionar parceiros comerciais.
Brasil pode ganhar espaço para negociar com Washington
Para o Brasil, a mudança no Congresso americano pode reduzir a margem política de Trump para ampliar tensões comerciais e criar obstáculos a novas medidas contra produtos brasileiros.
Essa é a avaliação de Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil. Segundo o especialista, a nova composição do Legislativo pode aumentar a resistência institucional a iniciativas comerciais do presidente, especialmente em situações de conflito entre os dois países.
O cenário também pode ampliar a importância das negociações diplomáticas e da interlocução com parlamentares americanos. Ainda assim, o Brasil não está automaticamente protegido contra novas tarifas, já que a administração Trump mantém instrumentos legais para adotar medidas em setores específicos.
A utilização das Seções 232 e 301 exige atenção especial. A primeira pode atingir produtos considerados relevantes para a segurança nacional americana, enquanto a segunda permite investigar práticas comerciais de outros países. Ambas podem continuar sendo utilizadas independentemente da decisão judicial que limitou o uso da IEEPA.
Entenda como as eleições de meio de mandato dos EUA podem afetar o Brasil (Vídeo: reprodução/YouTube/@cnnbrasil)
Assim, o principal efeito da vitória democrata para o Brasil pode estar no aumento da fiscalização política sobre decisões comerciais e na abertura de novos canais de negociação, não na eliminação imediata das barreiras existentes.
Japão e Coreia do Sul podem rever investimentos
A mudança política em Washington também pode repercutir nos compromissos assumidos por Japão e Coreia do Sul durante negociações comerciais com os Estados Unidos. No ano anterior, os dois países prometeram investimentos expressivos em território americano como parte dos entendimentos para evitar tarifas mais elevadas. Os compromissos informados são de US$ 550 bilhões do Japão, aproximadamente R$ 3,02 trilhões, e US$ 350 bilhões da Coreia do Sul, cerca de R$ 1,92 trilhão.
Com os democratas no controle do Congresso, os governos asiáticos podem encontrar mais espaço para discutir os termos e o ritmo de execução desses investimentos. A avaliação de especialistas é que a pressão política para cumprir rapidamente as promessas pode diminuir.
Heo Yoon, professor de economia da Universidade Sogang, em Seul, afirmou à Reuters que os compromissos foram impostos aos aliados durante as negociações. Na avaliação do pesquisador, a nova configuração política americana pode permitir que Japão e Coreia do Sul reavaliem parte das condições acordadas.
A Coreia do Sul já enfrenta divergências com Trump sobre os investimentos prometidos. Um dos pontos de atrito envolve o projeto Alaska LNG, voltado à infraestrutura de transporte de gás natural. O governo sul-coreano contestou a afirmação do presidente americano de que teria concordado em financiar a iniciativa.
Para Ban Kil-joo, professor de relações internacionais da Academia Diplomática Nacional da Coreia, uma fiscalização mais rigorosa do Congresso pode dar a Seul mais tempo para examinar os projetos antes de assumir compromissos definitivos.
O Japão, por sua vez, também pode enfrentar novas ameaças tarifárias caso Trump considere que os investimentos anunciados não estejam avançando no ritmo esperado. Portanto, a vitória democrata abre oportunidades de revisão, mas não elimina o risco de pressão comercial.
Índia pode adotar postura mais cautelosa nas negociações
A Índia também pode se beneficiar de um ambiente político menos favorável à ampliação de tarifas. O país mantém negociações comerciais com Washington e pode utilizar a mudança no Congresso para evitar concessões consideradas desfavoráveis.
Em fevereiro, os dois governos chegaram a um entendimento que reduziu de 50% para 18% as tarifas aplicadas à maioria dos produtos indianos. As taxas mais elevadas haviam sido anunciadas em agosto do ano anterior, depois do fracasso de uma rodada de negociações.
O ministro do Comércio indiano afirmou recentemente que a primeira etapa de um novo acordo estava próxima de ser concluída. Entretanto, ressaltou que Nova Délhi pretende avançar apenas se conseguir condições competitivas em relação a outros parceiros comerciais dos Estados Unidos.
Para Tommy Xie, chefe de pesquisa econômica para a Ásia do OCBC Bank, a derrota republicana pode aumentar a pressão sobre a Casa Branca para evitar disputas comerciais que elevem ainda mais os preços pagos pelos consumidores americanos.
A avaliação, contudo, não é unânime. Rajiv Bhatia, ex-diplomata indiano e integrante do centro de estudos Gateway House, defende cautela. Segundo ele, a vitória democrata não significa necessariamente que Trump adotará uma postura mais flexível com todos os países.
A recomendação é que a Índia amplie o diálogo com parlamentares americanos para defender seus interesses em comércio, tarifas e vistos, sem depender exclusivamente das negociações com a Casa Branca.
China pode explorar o enfraquecimento político de Trump
A China, principal rival econômica dos Estados Unidos, também acompanha os desdobramentos das eleições. Os dois países mantêm uma trégua comercial temporária, com previsão de encerramento em janeiro, e devem enfrentar novas negociações para definir os rumos da relação econômica.
O resultado eleitoral pode fortalecer a posição de Pequim nas conversas com Washington. Com Trump politicamente enfraquecido, o governo chinês pode tentar obter condições mais favoráveis e reduzir a pressão americana sobre setores estratégicos de sua economia.
Saul Eslake, economista da Corinna Economic Advisory, avalia que o presidente chinês, Xi Jinping, deverá considerar formas de aproveitar a perda de força política do republicano.
Por outro lado, a nova maioria democrata também pode dificultar eventuais concessões de Trump à China. Parlamentares do partido defendem controles mais rigorosos sobre a transferência de tecnologias americanas, principalmente em áreas consideradas estratégicas, como inteligência artificial e semicondutores.
Esses componentes são fundamentais para a fabricação de equipamentos eletrônicos, sistemas de computação e tecnologias avançadas. Por isso, eventuais restrições podem se tornar um dos principais pontos de tensão entre Washington e Pequim.
Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, considera improvável que os democratas permitam ampla liberdade para Trump negociar com o governo chinês. A expectativa é de maior pressão do Congresso por fiscalização e limites às concessões comerciais.
Em resposta ao resultado eleitoral, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, afirmou que as eleições são um assunto interno dos Estados Unidos. Segundo ela, Pequim continuará buscando administrar divergências e ampliar a cooperação com Washington.
Trump ainda pode impor tarifas após derrota republicana?
Apesar da derrota nas eleições de meio de mandato, Trump mantém poderes presidenciais e poderá continuar utilizando instrumentos legais para estabelecer tarifas sobre produtos estrangeiros. A vitória democrata altera o equilíbrio político, mas não transfere automaticamente ao Congresso todas as decisões sobre comércio exterior.
O novo cenário deve ampliar a fiscalização sobre a Casa Branca, dificultar a aprovação de determinadas iniciativas e aumentar a pressão política sobre decisões que afetem consumidores e empresas americanas.
Para Brasil, China, Índia, Japão e Coreia do Sul, a mudança pode representar uma oportunidade de fortalecer negociações, questionar compromissos e buscar maior previsibilidade nas relações comerciais. Ao mesmo tempo, a reação de Trump permanece uma incógnita: o presidente pode tentar negociar com mais cautela ou intensificar ameaças tarifárias para demonstrar força política.
A agenda internacional do republicano também será observada de perto. Ainda em novembro, ele tem previsão de viajar à Ásia para encontros com líderes do Sudeste Asiático, nas Filipinas, e participar do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Shenzhen, na China.
