Leilane Neubarth revela última mensagem enviada por Renato Machado antes de falecer

Ex-apresentador do Bom Dia Brasil estava internado na Zona Sul carioca; colega de bancada revela última mensagem enviada pelo jornalista na semana passada

16 jul, 2026
Jornalistas no comando do Bom Dia Brasil | Reprodução/Instagram/@portalg1
Jornalistas no comando do Bom Dia Brasil | Reprodução/Instagram/@portalg1

O telejornalismo brasileiro perdeu nesta quinta-feira (16) uma de suas figuras mais emblemáticas e sofisticadas. O jornalista Renato Machado morreu na manhã de hoje, aos 83 anos, na Clínica São Vicente, localizada na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. A instituição confirmou o falecimento e expressou condolências à família, mas a causa do óbito não foi divulgada. A morte do comunicador, que deixou a TV Globo em 2021, gerou uma onda de homenagens de colegas de profissão e admiradores que destacam sua elegância, inteligência e papel fundamental na modernização dos telejornais matinais no país.

A jornalista Leilane Neubarth, que recentemente anunciou sua saída do jornalismo diário da GloboNews, manifestou-se emocionada e revelou a última mensagem que recebeu do amigo. Os dois trabalharam juntos na bancada do Bom Dia Brasil entre os anos de 1996 e 2003, construindo uma parceria histórica na televisão brasileira. No Conexão GloboNews, Leilane lamentou profundamente a perda do ex-colega e relembrou os momentos especiais que viveu ao seu lado. Ela afirmou que adoraria falar do amigo de todas as maneiras, mas não neste momento de dor.

Segundo Leilane, o carinho entre os dois continuava forte. Na semana passada, quando ela se despedia das funções diárias na emissora, Renato enviou uma mensagem afetuosa. Ele escreveu que estava muito emocionado com a decisão da parceira. Os dois chegaram a marcar um encontro para assim que a saúde dele apresentasse melhora. Leilane destacou sua admiração pelo colega, lembrando o perfil elegante e a trajetória marcante de Renato Machado. Ela brincou ao dizer que ele era um “sangue azul” e ela um “polvo”, classificando o amigo como um “lord” e um “príncipe” com quem aprendeu muito ao longo da carreira.

Parceria histórica revoluciona manhãs da televisão

Com uma carreira que atravessou mais de 40 anos apenas na TV Globo, Renato Machado moldou a forma como o brasileiro consome notícias logo cedo. Ele esteve no centro dos principais acontecimentos globais do final do século XX e início do século XXI, combinando rigor analítico, erudição e uma capacidade ímpar de traduzir a complexidade do cenário internacional para o grande público.

Sua marca mais profunda na grade diária foi consolidada entre 1996 e 2010, período em que atuou como apresentador e editor-chefe do Bom Dia Brasil. Sob o seu comando, o telejornal matutino passou por uma profunda reestruturação que ditou tendências para as décadas seguintes. Ao lado de nomes como Leilane Neubarth e, posteriormente, Renata Vasconcellos, Renato quebrou a rigidez dos antigos padrões de bancada da televisão brasileira.

Ele introduziu um formato dinâmico, baseado na conversa fluida entre os âncoras, na movimentação física pelo cenário, na intensa participação de comentaristas de economia e política e em entradas ao vivo de repórteres de todo o país. O estúdio deixou de ser um espaço estático e tornou-se um centro de debates vivo e pulsante. Para ele, o domínio da linguagem televisiva era um ofício técnico rigoroso. Em depoimento concedido ao projeto Memória Globo, o jornalista resumiu a essência de sua profissão ao explicar que, para ser telejornalista, é necessário um acúmulo de conhecimento técnico e editorial, compreendendo o funcionamento de gruas, tráfego de câmeras, enquadramentos, cores, textos e edição.

Sabotagem por amor ao jornalismo e os anos de rádio

Carioca, filho de pai militar e mãe secretária bilíngue, Renato Machado parecia destinado às relações internacionais em sua juventude. Formado em Direito, ele chegou a ser aprovado no rigoroso concurso de admissão do Itamaraty. No entanto, sua determinação em testemunhar os fatos sem os filtros da diplomacia oficial o fez tomar uma decisão inusitada. Ele sabotou de forma proposital o seu próprio exame de vista para ser desclassificado do concurso diplomático e poder seguir a carreira jornalística que tanto desejava.

Antes de se firmar definitivamente nas redações de jornal e TV, Renato explorou sua expressividade nas artes, atuando como ator e dublador. A transição definitiva para o jornalismo ocorreu no final da década de 1960, quando ele se mudou para Londres para integrar o serviço brasileiro da rádio estatal britânica BBC. Ao retornar ao Brasil, em 1969, ingressou no Jornal do Brasil, onde trabalhou por 13 anos como repórter e, posteriormente, editor internacional. Foi nesse prestigiado impresso carioca que ele refinou sua visão de política externa.

Coberturas internacionais marcam trajetória na Globo

Em 1982, Renato Machado foi contratado pela TV Globo. Logo em seu primeiro ano na emissora, cobriu a Guerra das Malvinas, um conflito de alta complexidade técnica e diplomática. O excelente desempenho na cobertura o credenciou a assumir, em 1983, o posto de correspondente em Londres. Da Europa, narrou episódios que redefiniram a geopolítica mundial, como a onda de atentados terroristas em Paris em 1986 e o desastre nuclear de Chernobyl, na Ucrânia Soviética.

Após um breve intervalo na TV Manchete entre 1990 e 1991, onde cobriu a Guerra do Golfo direto do Oriente Médio, Renato retornou à Globo para atuar como repórter especial. Nessa função, assinou coberturas históricas do cenário nacional, como o processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello e as homenagens fúnebres ao piloto Ayrton Senna, em 1994.


Colegas conversaram a uma semana antes do falecimento de Renato (Foto: reprodução: X/@noticiasdatv)


Paixão pela cultura e reconhecimento mundial com o Emmy

Em 2011, Renato Machado iniciou seu segundo período como correspondente em Londres. Nos cinco anos seguintes, cobriu eventos marcantes que variaram do ataque terrorista à redação do semanário francês Charlie Hebdo em Paris às celebrações dos 95 anos do líder sul-africano Nelson Mandela, além dos desdobramentos da crise econômica na Grécia.

Foi também nesse período europeu que Renato pôde se dedicar à difusão de uma de suas maiores paixões pessoais: a enologia. Em 2014, produziu uma aclamada série especial para o Jornal Hoje gravada na Provença, sul da França. A produção costurava técnicas de vinicultura, gastronomia e traços culturais da região francesa.

Em janeiro de 2016, após transferir o posto de correspondente em Londres para a repórter Cecília Malan, retornou ao Rio de Janeiro e passou a integrar a equipe de repórteres especiais do Globo Repórter. Nesse programa, alcançou um dos maiores reconhecimentos de sua carreira com a reportagem “A arte como passaporte” (2016). O documentário, que mostrava como o ensino de música clássica na favela de Heliópolis, em São Paulo, e o balé na comunidade da Mangueira transformavam vidas vulneráveis, foi indicado ao Emmy Internacional na categoria de Atualidade.

O jornalista encerrou seu vínculo formal com a TV Globo em novembro de 2021. Sua partida silencia uma das vozes mais elegantes do país, mas consolida um modelo de jornalismo caracterizado pela precisão técnica, pelo respeito ao espectador e pela incansável curiosidade de compreender o mundo.

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