Estudo brasileiro pode ajudar no avanço de tratamentos da esclerose múltipla

Pesquisa liderada por brasileiros propõe uso do HTLV-1 como modelo para entender a progressão da esclerose múltipla e desenvolver novos tratamentos

02 ago, 2026
Exame para identificar esclerose múltipla | Reprodução/Unsplash/Vitaly Gariev
Exame para identificar esclerose múltipla | Reprodução/Unsplash/Vitaly Gariev

A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica que afeta cerca de 2,9 milhões de pessoas no mundo e aproximadamente 40 mil brasileiros. Embora os tratamentos atuais consigam controlar os surtos da doença, a progressão lenta da perda de funções neurológicas ainda representa um dos maiores desafios da medicina.

Um estudo liderado por pesquisadores brasileiros e publicado na revista científica Brain propõe uma nova abordagem para compreender essa fase progressiva da doença. O trabalho sugere utilizar a mielopatia associada ao vírus HTLV-1 (HAM/TSP) como modelo para investigar os mecanismos que levam à neurodegeneração e, futuramente, acelerar o desenvolvimento de terapias neuroprotetoras.

Esclerose múltipla afeta principalmente adultos jovens

A esclerose múltipla é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico passa a atacar estruturas do sistema nervoso central, provocando danos no cérebro e na medula espinhal.

Os primeiros sintomas podem incluir visão embaçada, formigamentos, perda de força muscular, alterações de equilíbrio e dificuldade para caminhar. Em muitos casos, essas manifestações desaparecem temporariamente, o que pode retardar a procura por atendimento médico.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,9 milhões de pessoas vivem com a doença no mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde estima aproximadamente 40 mil casos.

A enfermidade é mais frequente entre adultos de 20 a 50 anos e acomete mulheres com maior frequência.

Diagnóstico depende da combinação de exames

O diagnóstico da esclerose múltipla não é feito por um único exame.

Os neurologistas avaliam o histórico clínico do paciente, realizam exame físico e utilizam recursos como a ressonância magnética e a análise do líquor, líquido que circula pelo cérebro e pela medula espinhal, para confirmar o diagnóstico e excluir outras doenças neurológicas.

Segundo os especialistas, esse processo pode ser ainda mais complexo quando a doença se manifesta na forma progressiva, caracterizada por uma perda lenta, contínua e muitas vezes silenciosa das funções neurológicas.


Axônio nervoso danificado pela esclerose múltipla (Foto: reprodução/Getty Images Embed/koto_feja)


Pesquisadores utilizaram doença causada pelo HTLV-1 como modelo

Para entender melhor a progressão da esclerose múltipla, os pesquisadores recorreram ao estudo da mielopatia associada ao HTLV-1, uma doença inflamatória crônica da medula espinhal provocada por um retrovírus.

Ao contrário da esclerose múltipla, que possui origem multifatorial envolvendo fatores genéticos, ambientais e infecções virais, o HTLV-1 apresenta um gatilho conhecido: a infecção persistente pelo vírus.

Segundo os autores, isso permite acompanhar de forma mais clara como a inflamação contínua provoca a degeneração dos neurônios e das fibras nervosas.

O HTLV-1 pertence à mesma família do HIV e compartilha algumas formas de transmissão, mas não causa Aids. Embora a maioria das pessoas infectadas nunca desenvolva sintomas, uma pequena parcela evolui para uma inflamação grave da medula espinhal.

Brasil tem papel de destaque nas pesquisas sobre HTLV-1

O Brasil está entre os países com maior número de pessoas infectadas pelo HTLV-1, fator que contribuiu para consolidar uma tradição de pesquisas sobre o vírus em instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Com base nesse conhecimento acumulado, os pesquisadores realizaram uma ampla revisão científica de estudos publicados entre 1990 e 2025 nas bases PubMed e Embase.

O trabalho reuniu evidências de imunologia, neuroimagem, biologia molecular e biomarcadores para propor, pela primeira vez, a mielopatia associada ao HTLV-1 como um modelo humano de neurodegeneração progressiva.

Os autores destacam que a pesquisa não apresenta um novo medicamento nem representa um ensaio clínico com pacientes.

O principal avanço está na criação de um modelo capaz de ajudar cientistas a compreender melhor os mecanismos compartilhados entre diferentes doenças neurodegenerativas.

Segundo os pesquisadores, essa abordagem pode facilitar a identificação de biomarcadores para prever a evolução da esclerose múltipla e acelerar o desenvolvimento de terapias voltadas à fase progressiva da doença, considerada hoje um dos maiores desafios da neurologia.

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