Antes consideradas raras, doenças intestinais como a de Evaristo Costa avançam rapidamente no Brasil e preocupam especialistas

Estudo com 337 mil pacientes do SUS mostra que prevalência de doenças inflamatórias intestinais subiu de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025

25 set, 2026
Evaristo Costa | Reprodução/Instagram/@evaristocostaoficial
Evaristo Costa | Reprodução/Instagram/@evaristocostaoficial

Doenças inflamatórias intestinais (DIIs), como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, deixaram de ser raras no Brasil. Um estudo apresentado em maio de 2024 no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia analisou dados de 337 mil pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2012 e 2025. O resultado revela um crescimento preocupante: a prevalência de DIIs subiu de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. Pesquisadores alertam para o impacto que esse aumento representará nas políticas públicas de saúde, segundo o site QG.

O que é doença inflamatória intestinal

A doença de Crohn é uma condição inflamatória do sistema digestivo sem cura conhecida que, historicamente, era diagnosticada raramente. A retocolite ulcerativa afeta especificamente o intestino grosso. Ambas integram a categoria das doenças inflamatórias intestinais. O caso do apresentador Evaristo Costa ilustra a realidade dos pacientes: ele foi internado em janeiro de 2024 em Cambridge, Inglaterra, enfrentando complicações da doença de Crohn.

Evaristo Costa descreve os sintomas com precisão: “Tenho fortes dores abdominais. Além de muita diarreia (que pode conter sangue), febre e perda de peso. Isso tudo me leva à fraqueza, à fadiga.” A doença afeta profundamente a rotina. Ele relata constrangimento ao não conseguir chegar ao banheiro do avião a tempo durante voos. Em uma crise, perdeu 22 quilogramas em uma semana, segundo o site QG.


Evaristo Costa (Foto: reprodução/Instagram/@evaristocostaoficial)


As complicações vão além dos sintomas iniciais. “Se eu não me cuidar, posso ter complicações como anemia e graves infecções”, afirma Evaristo Costa. No fim de 2023, ele sofreu uma infecção bacteriana na pele da perna potencializada pela vulnerabilidade biológica da doença. “Me sinto definhando”, descreve.

Crescimento acelerado das doenças

O crescimento das DIIs no Brasil é vertiginoso em poucos anos. A doença de Crohn subiu de 12 para 47 casos por 100 mil habitantes entre 2021 e 2025. A retocolite ulcerativa cresceu de 16 para 97 casos por 100 mil habitantes no mesmo período, segundo dados do estudo conduzido por pesquisadores da University of Calgary, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Campinas (Unicamp).

O que marca a transição de uma doença de “rara” para comum é um critério médico bem definido. De acordo com o Dr. Abel Quaresma, em entrevista ao site QG, que participou da pesquisa: “O que a sociedade médica fala é que para uma doença ser rara é preciso de menos de 60 casos por 100 mil habitantes”. As DIIs deixaram de atender a esse critério a partir de 2015. Desde então, o crescimento não desacelerou.

A projeção para os próximos anos é alarmante. Pesquisadores estimam que a prevalência de DIIs poderá alcançar 264 casos por 100 mil habitantes em 2035 se a tendência de alta intensificada a partir de 2018 se mantiver. O Dr. Quaresma expressa preocupação: o aumento dessas doenças incuráveis representa um desafio extraordinário para o sistema de saúde.


Doença de Crohn (Vídeo: reprodução/YouTube/Hospital Alemão Oswaldo Cruz)


Custo do tratamento e desafios do sistema de saúde

O tratamento impõe desafios financeiros imensos. O padrão-ouro para Crohn envolve medicamentos biológicos que custam até R$ 500 mil ao ano. Muitos pacientes recebem o diagnóstico ainda na juventude e necessitam de acompanhamento médico contínuo ao longo de décadas.

Essa realidade coloca em xeque a capacidade do sistema. O estudo funciona como um alerta tanto para planos de saúde quanto para gestores de saúde municipais, estaduais e do SUS. As políticas públicas ainda não estão preparadas para absorver essa magnitude de crescimento, segundo o Dr. Abel Quaresma e sua equipe.

Por que as doenças crescem

Ocidentalização e estilo de vida

O aumento das DIIs segue um padrão global vinculado à mudança nos hábitos de vida. Fatores explicativos incluem a ocidentalização dos costumes: morar em cidades maiores, maior exposição à poluição urbana e alterações na microbiota intestinal (o conjunto de bactérias benéficas que vivem no intestino).

Essas transformações redefinem o ambiente interno do corpo. O sistema imunológico, que evoluiu em contato permanente com biodiversidade, agora interage com um mundo muito mais estéril e processado.

Alimentos ultraprocessados como gatilho

A presença de alimentos ultraprocessados é fator explicativo central para o crescimento das DIIs. O Dr. Abel Quaresma exemplifica a mudança: um sorvete moderno contém cerca de 20 ingredientes (espessante, acidulante, conservante, corante), enquanto versões antigas continham apenas ingredientes simples.

Os conservantes desempenham papel relevante. Esses aditivos matam bactérias benéficas presentes naturalmente em alimentos como o leite. O sistema imunológico de gerações anteriores era permanentemente testado e treinado por contato com bactérias naturais. Hoje, essa exposição é rara.

Um estudo influente de 2012 com comunidades rurais nos Estados Unidos evidencia essa relação: crianças que convivem com animais mostraram-se mais resistentes a alergias, asma e eczemas. A privação de contato com biodiversidade faz o sistema imunológico reconhecer poucas bactérias, sem saber como responder apropriadamente ao resto.

O caminho para o controle

Evaristo Costa alcançou remissão clínica em fevereiro de 2024, um estado no qual nenhuma inflamação é detectada. Remissão significa controle da doença, não cura: trata-se de um estado clinicamente estável mantido com tratamento contínuo. O objetivo do acompanhamento médico é justamente buscar e manter essa remissão.

As doenças inflamatórias intestinais requerem diagnóstico e acompanhamento de especialista. Procure um gastroenterologista ou coloproctologista se notar sintomas persistentes como dores abdominais, diarreia frequente, sangue nas fezes ou perda de peso sem causa aparente. Nenhum texto substitui a avaliação clínica, e o diagnóstico depende de exame específico.

Mais notícias