Investigação aponta uso da Interpol pela Rússia para atingir opositores
Arquivos analisados pela BBC indicam que pedidos russos à Interpol concentram reclamações e levantam suspeitas de uso político contra críticos no exterior
Uma série de documentos vazados por um denunciante, que tem sua identidade protegida, revelou à Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) a extensão do suposto uso político da instituição pela Rússia para pressionar críticos e opositores no exterior. A análise desses arquivos pelo Serviço Mundial da BBC, empresa governamental responsável pela rádio e televisão do Reino Unido, e pelo portal jornalístico francês, Disclose, indica que Moscou teria recorrido às listas de pessoas procuradas pela polícia para exigir a prisão de jornalistas, empresários e adversários políticos, sob a acusação de crimes.
Dados examinados e investigados pela interpol indicam que, na última década, o governo russo concentrou o maior número de reclamações encaminhadas à unidade independente da Interpol. O total de contestações envolvendo pedidos feitos por Moscou supera em cerca de três vezes mais registros do que pela Turquia, que aparece em segundo lugar de reclamações. Como resultado, mais solicitações russas foram anuladas do que as apresentadas por qualquer outro país.
Interpol reforçou controles após invasão da Ucrânia
Após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, a organização passou a adotar procedimentos mais rigorosos de verificação com o objetivo de evitar o uso inadequado de seus canais para a perseguição de pessoas ligadas ao conflito, disputa ou caráter político. Ainda assim, os arquivos vazados indicam que essas salvaguardas não foram suficientes para impedir completamente o suposto mau uso do sistema. Segundo o denunciante, parte dos mecanismos de controle mais rígidos foi descontinuada de forma discreta em 2025.
Documentos vazados pela BBC expõem uso da Interpol pela Rússia (Video: reprodução/YouTube/BBC World Service)
Em resposta à reportagem do canal britânico, a Interpol enfatizou que todas as suas operações resultam, anualmente, em milhares de detenções de criminosos procurados em escala global. A instituição internacional afirmou ainda dispor de diversos instrumentos para evitar abusos de poder, reforçados nos últimos anos, e declarou estar ciente das consequências que solicitações de prisão podem acarretar para os indivíduos afetados.
O empresário russo Igor Pestrikov, mencionado nos documentos obtidos pela BBC, afirmou que seu nome passou a constar em uma “difusão vermelha” da policia russa após deixar o país, em junho de 2022, e pedir asilo na França. Segundo seu relato, a inclusão no seu nome nas listas de criminosos gerou efeitos imediatos, como restrições bancárias, dificuldades para alugar imóveis e um sentimento constante de estar sendo perseguindo. Por questões de segurança, sua filha e sua mãe se mudaram para outro país, enquanto ele permaneceu sob permanente tensão e receio de ser detido.
Embora seja frequentemente associada a uma polícia global, a Interpol atua, na prática, como uma plataforma de cooperação entre as forças de segurança de seus 196 países membros. O alerta vermelho, principal ferramenta da organização internacional, pede a identificação e a detenção de um indivíduo em todos os países participantes, enquanto a difusão vermelha tem alcance limitado a países determinados. Para Pestrikov, o impacto dessas ações ilustra como a instrumentalização política de ferramentas internacionais de justiça pode afetar de maneira significativa e prolongada a vida das pessoas envolvidas.
