Republicanos temem que falas de Trump custem a maioria do Congresso
Partido se preocupa com falas de Trump sobre comunidade latina; pesquisas apontam crescimento na desaprovação do presidente no grupo hispânico
A apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny no último domingo (8) durante o intervalo do jogo do Super Bowl entre Seattle Seahawks e New England Patriots continua dando o que falar e movimentando as redes sociais. O que era para ser um atestado da importância e excelência do futebol americano se tornou um grande evento onde o mundo conheceu e entendeu o que é ser latino e o orgulho de carregar essas origens.
Quem não gostou nada foi o presidente Donald Trump, que chegou a dizer frases como “Ninguém entendeu o que ele cantava” ou “Sua dança é repugnante, especialmente para crianças”. O que não agradou aos republicanos apoiadores de Trump, que consideraram que suas declarações sobre a apresentação do cantor porto-riquenho foram um tiro no pé, já que as eleições do Congresso americano serão em nove meses, o que pode ocasionar a perda de apoio.
Preocupação Republicana
Apesar de Bad Bunny não ter feito nenhuma crítica abertamente ao governo americano. A mensagem que seu show passou foi de união latino-americana, o que deixou líderes regionais apoiadores de Trump preocupados. Já que pesquisas indicam que o voto latino tenha um grande peso nas próximas eleições, principalmente vindo daqueles que estão arrependidos por apoiar o governo Trump na eleição passada. Aumentando o eleitorado do Partido Democrata, o que estão chamando de “nueva onda” dos hispânicos arrependidos coloca o governo atual em uma situação complicada.
No reduto republicano, as críticas foram maiores do que já era esperado, mas o que surpreendeu mesmo, e não para um lado bom, foi a postagem de Trump. Várias demonstrações foram feitas, indignadas com a atitude do presidente americano. O ex-conselheiro de comunicação da Casa Branca afirmou e deu um exemplo pessoal: “minha avó porto-riquenha é 100% americana e votou em Trump”, contou. Já cantora Alexis Wilkins, namorada do diretor do FBI, Kash Patel, fez um alerta que indiretamente teve um ponto de conselho sobre a comunicação que os republicanos estão tendo atualmente: “precisam melhorar sua mensagem, pois a de união nacional, proposta por Bad Bunny, foi fantástica”. Até um dos principais influenciadores do movimento Maga de Trump teve um discurso diferente e mais brando, ele relembrou a relação de Porto Rico com os Estados Unidos: “Porto-riquenhos são americanos e deve-se celebrar a oportunidade de mostrar o incrível talento da ilha”, reforçou.
Os democratas estão em clima de celebração. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, agradeceu Bad Bunny em um post por “ter usado a sua voz em um momento lindo”. Ruben Gallego, o primeiro senador latino do Arizona, contou que chorou de emoção com a apresentação do cantor. Já a deputada de origem porto-riquenha, Alexandria Ocasio-Cortez, festejou que Benito transformou o evento esportivo em um Boricua Bowl.

Apresentação de Bad Bunny gerou elogios até de personalidades do partido republicano (Foto: reprodução/X/@rtnoticias_br
Para o especialista de direito migratório da Universidade Estadual de Ohio, Cesar Hernández o presidente americano não acredita que cometeu um erro ao dar suas declarações criticando a apresentação do cantor porto-riquenho, ele “apenas repetiu o que a base espera ouvir dele desde sua entrada na política: racismo, xenofobia e repúdio por quem ele não crê fazer parte dos EUA”, e que na lógica do presidente republicano, suas falas não fazem com que exista o risco dele perder a maioria do Congresso.
Já para a Casa Branca, existe sim uma lógica nesse pensamento. Afinal, o voto nos Estados Unidos não é obrigatório, mas o comparecimento da população é historicamente menor em eleições de meio de mandato. O mesmo aconteceu em 2018, quando os democratas venceram com folga as eleições e retomaram o controle da Câmara, o que ocasionou as investigações que levaram ao processo de impeachment do republicano. Por isso, o governo está tão preocupado com as eleições de novembro, eles não querem que a história de 2018 se repita. E afirmam que Washington está acreditando que a militância irá sair de casa e votar nos candidatos de Donald Trump.
Insatisfação Hispânica
As pesquisas apontam que o número de hispânicos insatisfeitos com o governo Trump aumentou. O jornal The Economist pediu um levantamento para o “YouGov”, que apurou que 55% dos hispânicos entrevistados entre 16 e 19 de janeiro não aprovam o presidente americano. Já a pesquisa do “Siena College”, encomendada pelo New York Times, registrou que 59% dos hispânicos estão insatisfeitos.
Em 2025, o voto arrependido, também conhecido como “anti-ICE”, foi o responsável pela vitória da oposição em Nova Jersey. Já neste ano, a vaga em vista é para o Senado estadual no Texas, onde pesquisas apontam para a vitória do candidato democrata. O que também pode acontecer em estados vizinhos como o Arizona e Novo México, onde há uma grande concentração da população latina.
Apresentação histórica
Bad Bunny transformou o Levi’s Stadium em um passeio pela ilha do Caribe, fazendo referência aos agricultores com seus chapéus tradicionais, senhores jogando dominó e até um casamento. A casa rosa típica de Porto Rico, que está presente em seus shows, marcou presença na sua apresentação e contou com a presença de grandes artistas de origem hispânica como Pedro Pascal, Karol G, Jessica Alba, entre outros. Uma grande surpresa foi a participação do cantor porto-riquenho Ricky Martin, que cantou alguns versos de “Lo que pasó a Hawaii” enquanto no estádio eram exibidas nos telões a frase “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.
Ainda na sua apresentação no evento esportivo, Bad Bunny priorizou falar apenas em espanhol. O único momento em que falou em inglês foi ao pedir a bênção para os países da América e citando todos, um a um. Ele encerrou sua apresentação com um “Seguimos aquí”, o que deixou de maneira implícita a importância de todos esses países e que sua voz continuaria viva.
Bad Bunny também ficou na mira do governo americano há dez dias, quando ganhou o Grammy por “melhor disco do ano”. Benito Antonio Martínez Ocasio aproveitou seu discurso como ganhador de um dos principais prêmios da noite para fazer uma manifestação aberta: “antes de agradecer a Deus, preciso dizer fora ICE”, fazendo referência ao serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, onde seus agentes mataram dois cidadãos americanos que manifestaram em Minneapolis.
