Projeto de restauração do Cerrado recebe reconhecimento da ONU
Araticum reúne mais de 180 organizações e mantém 27 mil hectares em recuperação, com meta de restaurar 2 milhões de hectares até 2030
A Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum) recebeu reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo trabalho de recuperação do bioma brasileiro. A iniciativa foi classificada como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship), título destinado a projetos considerados exemplos de recuperação de ecossistemas em larga escala.
O reconhecimento foi entregue durante a 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Com a conquista, o Brasil passa a contar com duas iniciativas reconhecidas nessa categoria. A Araticum articula mais de 180 organizações com atuação no Distrito Federal, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Atualmente, mais de 27 mil hectares estão em processo de restauração e são acompanhados por um sistema de mapeamento. A meta é alcançar 2 milhões de hectares recuperados até 2030.
Ciência e conhecimento tradicional atuam juntos
Um dos pilares do projeto é a participação de povos e comunidades tradicionais na recuperação das áreas degradadas. As ações incluem o plantio de sementes nativas e sistemas agrocerratenses, que combinam produção agrícola com espécies características do Cerrado. A proposta é incluir as comunidades não apenas na coleta de sementes, mas também no planejamento e na execução dos projetos.
O Cerrado já perdeu mais de de 40% de sua cobertura vegetal original devido à degradação e ao desmatamento (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Nelson Almeida)
“Para nós é muito importante a restauração inclusiva, então trazer os diversos atores para estarem olhando e participando junto em todo o processo da restauração”, afirma Anabele Gomes, coordenadora da Araticum e presidente da Rede de Sementes do Cerrado. Segundo ela, a integração entre conhecimento tradicional, científico e técnico contribui para tornar a restauração mais resiliente e adaptada às características de cada território.
Preservação e produção agrícola são desafios conjuntos
A expansão da recuperação ambiental também passa pela relação com o setor agropecuário. Para a Araticum, produção e preservação não precisam ocupar lados opostos, principalmente devido à importância do Cerrado para os recursos hídricos.
“Se a gente não tiver restauração, se a gente não tiver Cerrado preservado, a gente não tem água. Se a gente não tem água, a gente não tem produção”, explica Anabele.
A vegetação nativa desempenha papel importante na infiltração de água no solo. Nesse processo, não são apenas as árvores que importam: gramíneas e outras plantas rasteiras possuem sistemas radiculares relevantes para a dinâmica hídrica do bioma.
A substituição dessa diversidade por monoculturas de pastagens pode alterar as funções ecológicas desempenhadas pela vegetação original. Por isso, a iniciativa procura aproximar restauração ambiental, diferentes formas de uso do solo e princípios de agricultura regenerativa.
UnB estuda sementes usadas na restauração
No Distrito Federal, a Universidade de Brasília (UnB) é uma das instituições que conectam pesquisa científica e recuperação ambiental. No Laboratório de Termobiologia, ligado à Rede de Sementes do Cerrado, pesquisadores analisam espécies nativas utilizadas nos projetos. Parte das sementes vem de coletores da Associação Cerrado de Pé, na Chapada dos Veadeiros. No laboratório, são estudadas características como profundidade adequada para plantio e tolerância ao fogo.
Essas análises ajudam a determinar como e onde cada planta pode ser utilizada. A adaptação é fundamental porque uma mesma espécie pode apresentar comportamentos diferentes conforme a região do Cerrado e sua proximidade com biomas como Amazônia e Pantanal. Em Brasília, mais de 185 hectares estão em processo de restauração, com parcerias que incluem a Floresta Nacional de Brasília (Flona). A iniciativa também desenvolve sistemas agrocerratenses em assentamentos do Distrito Federal.
O reconhecimento da ONU amplia a projeção internacional do modelo, mas também evidencia a dimensão do próximo desafio. Para avançar dos atuais 27 mil hectares para 2 milhões até 2030, a Araticum terá de ampliar significativamente sua escala, mantendo uma estratégia baseada na integração entre ciência, comunidades locais, produção agrícola e conservação do Cerrado.
