Como a PF acessou mensagens de Vorcaro enviadas em visualização única

Softwares da Polícia Federal permitiram extração de dados de celulares e recuperar mensagens e arquivos do banqueiro Daniel Vorcaro

02 set, 2026
Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro | Reprodução/Instagram/@cidadaonoticias
Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro | Reprodução/Instagram/@cidadaonoticias

Mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes foram recuperadas pela Polícia Federal durante as investigações envolvendo o Banco Master. Os conteúdos, obtidos a partir de aparelhos apreendidos em operações da corporação, revelaram possíveis interações entre Vorcaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e pessoas ligadas à família de Moraes. Parte dos arquivos havia sido enviada pelo banqueiro pelo WhatsApp no formato de “visualização única”, recurso que faz com que imagens e vídeos desapareçam após serem abertos.

A recuperação foi possível por meio de ferramentas de perícia capazes de extrair informações de celulares bloqueados e acessar dados armazenados nos aparelhos mesmo após a exclusão de arquivos. Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, a combinação de diferentes softwares permite ampliar a quantidade de informações obtidas durante a análise dos dispositivos.

Uso dos softwares na investigação

As ferramentas foram utilizadas para acessar mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo as informações obtidas na investigação, o banqueiro conversava sobre sua situação diante das apurações relacionadas ao Banco Master.

Na tentativa de dificultar o acesso ao conteúdo, Vorcaro recorria a capturas de tela de anotações feitas no bloco de notas do celular e as enviava pelo WhatsApp utilizando o recurso de “visualização única”. A colunista Malu Gaspar, do GLOBO, revelou parte dos diálogos entre o banqueiro e Moraes no dia da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.


Prédio da Polícia Federal. (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Bloomberg)


De acordo com peritos da PF, a recuperação das informações depende de uma estratégia complementar, na qual diferentes programas são utilizados conforme as limitações de cada ferramenta. Depois da apreensão do aparelho, uma das primeiras etapas é o desbloqueio e a extração dos dados armazenados.

Entre os principais softwares utilizados estão o Cellebrite e o GrayKey. As ferramentas realizam uma chamada “extração bruta”, que consiste em copiar os dados armazenados no dispositivo, incluindo fragmentos de arquivos que não estão mais visíveis. O procedimento é conhecido entre os peritos como extração “bit por bit”, que basicamente é espelhar todo conteúdo presente em celulares e notebooks.

Segundo Wanderson Castilho, perito em crimes digitais, essa técnica permite localizar fragmentos que ajudam a identificar arquivos enviados em modo de visualização única ou que foram apagados.

“Quando você apaga ou manda uma informação em visualização única, os registros de que você mandou uma mensagem, os logs disso, ficam armazenados”, afirma Castilho.

Os rastros deixados no celular 

Mesmo quando um arquivo é enviado no modo de “visualização única”, Castilho explica que é possível identificar informações relacionadas ao envio, como horário e destinatário. No caso de Vorcaro, um fator foi essencial para ajudar nas inestigações: as capturas de tela utilizadas nas mensagens precisaram, em algum momento, estar armazenadas no celular para que pudessem ser enviadas.

Por isso, mesmo que o arquivo fosse apagado anteriormente, poderiam permanecer registros capazes de indicar sua existência dentro do aparelho. Além disso, segundo peritos ouvidos pelo GLOBO, algumas das imagens enviadas por Vorcaro ainda estavam armazenadas no dispositivo quando ele foi apreendido, o que facilitou a captação e a análise dos dados.

A perícia também contou com o IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais), sistema utilizado pela PF para organizar o grande volume de informações obtidas durante as extrações. O programa permite indexar arquivos, transcrever áudios e realizar buscas por palavras-chave, facilitando a localização de informações relevantes para as investigações. Dessa forma, os dados extraídos pelos softwares são organizados e processados para que os investigadores consigam identificar conversas e arquivos no aparelho.

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