Lula ganha espaço entre indecisos após deslizes de Flávio Bolsonaro

Pesquisa qualitativa do Instituto Travessia mostrou que cinco de seis indecisos saíram mais propensos a votar no presidente, não por mérito próprio, mas pelos erros do senador

24 out, 2026
Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) no último debate das eleições 2026 I Foto: reprodução/TVGlobo
Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) no último debate das eleições 2026 I Foto: reprodução/TVGlobo

Luiz Inácio Lula da Silva expandiu sua vantagem entre eleitores indecisos no debate presidencial de 2026 contra o senador Flávio Bolsonaro, transmitido pela Globo na última sexta-feira (23). Uma pesquisa qualitativa do Instituto Travessia, encomendada pelo Estadão, acompanhou as reações de participantes em tempo real durante o encontro na zona sul de São Paulo. Dos seis indecisos observados, cinco saíram do confronto mais inclinados a votar pela reeleição do presidente, enquanto um manteve a indecisão.

O estudo reuniu 12 eleitores em uma casa na Vila Mariana: seis indecisos, três apoiadores de Flávio e três de Lula. Os participantes utilizaram cartões coloridos para avaliar as falas dos candidatos conforme aconteciam, marcando em verde a aprovação, em amarelo a neutralidade e em vermelho a desaprovação.

Segundo Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia, a vantagem do presidente não resultou de propostas robustas. Os apoiadores de ambos permaneceram em suas posições, enquanto os indecisos, majoritariamente das classes C e D, se movimentaram para Lula, mas exclusivamente por causa dos equívocos do senador.

“Os eleitores de Lula e de Flávio ficaram imóveis, enquanto os indecisos, em sua maioria das classes C e D, se inclinaram para Lula. Mas não por mérito do presidente, mas, sim, pelos erros de Flávio, sobretudo no episódio da menina Ana Clara. Mas ninguém disse que Lula foi bem. Ele não ganhou o debate. Flávio foi quem perdeu”, afirmou Dorgan.

O episódio de Ana Clara e a confusão de nomes

O momento que mais pesou contra Flávio envolveu a menina Ana Clara Gomes Machado. O senador confundiu o nome da mãe da criança durante suas falas. Ana Clara havia sido atingida por disparo de fuzil de um policial para quem Flávio exerceu trabalho como advogado. A falha provocou reação imediata na sala. Todos os eleitores, com exceção dos apoiadores de Flávio, ergueram cartões vermelhos simultaneamente.

Uma eleitora reagiu com surpresa: “Ai, meu Deus, não sabe nem quem é.” Outro participante ressaltou que o senador não demonstrava empatia com a situação da criança. Uma eleitora indecisa manteve o cartão vermelho erguido durante toda a abordagem de Flávio sobre o tema. Quando a dinâmica se encerrou, uma indecisa citou espontaneamente o episódio, declarando sua expectativa por outra postura do candidato.

“Eu esperava que ele fosse falar que estava exercendo a profissão dele. Quando ele errou o nome, ficou claro que ele não se importa”, avaliou uma eleitora indecisa.

“Não por alguma proposta de Lula, mas por erros de Flávio e o caso Ana Clara, que impressionantemente tinha alto conhecimento”, reitrou Dorgan.

A provocação e a memória de trabalho

Outro instante crítico ocorreu quando Flávio se referiu a Lula como “nove dedos” durante o confronto. A frase extraiu risos inicialmente, porém a reação mudou quando Lula rebateu, lembrando que perdeu o dedo em um acidente de trabalho aos 17 anos. A resposta do presidente repercutiu bem entre praticamente todo o grupo de observação. Flávio tentou se desculpar posteriormente, mas a reação dos indecisos e eleitores de Lula foi desconfiada.

Na Grande São Paulo, conforme observou Dorgan, existe uma memória forte de pais e avós que vivenciaram trabalho em chão de fábrica.

“Na Grande São Paulo, há uma memória forte de pais e avós que trabalharam no chão de fábrica. A fala de Flávio poderia ter passado como piada, mas, quando Lula lembrou do acidente de trabalho, o episódio ganhou uma dimensão considerável”, explicou Dorgan.

Os números da avaliação

Os dados coletados revelam as diferenças de recepção entre os dois candidatos. Lula recebeu 54,95% de cartões verdes do grupo, enquanto Flávio recebeu 33,33%. O senador concentrou 36,8% de cartões vermelhos, ante 28,71% para o presidente. Três eleitores de Flávio atribuíram cartões vermelhos a Lula em todas as avaliações. Por outro lado, Flávio chegou a receber avaliações positivas de eleitores do PT.

Cinco dos seis indecisos saíram do encontro mais propensos a votar na reeleição de Lula, enquanto uma permaneceu indecisa. A pesquisa qualitativa, de acordo com o Instituto Travessia, não possui rigor estatístico e não equivale a um levantamento tradicional de intenção de voto.


 

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Debate entre Lula e Flávio (Vídeo: reprodução/Instagram/@portalg1)


Momentos de Flávio e críticas de indecisos

Flávio teve instantes bem recebidos. Seu discurso sobre o Nordeste marcou um dos melhores desempenhos da noite, ao prometer trabalhar com governadores da região no combate ao crime organizado e recepcionar nove cartões verdes. Sua abordagem sobre propostas para o SUS também agradou, ainda que sua defesa de redução da maioridade penal para 14 anos tenha gerado preocupações entre alguns observadores.

Entre os indecisos, a avaliação final foi contundente. Um deles sintetizou a percepção:

“Lula mostra mais conhecimento, tem mais experiência. O Flávio é a sombra do pai dele. Ele está no debate e não fala nada do que fez”, declarou um dos indecisos.

Flávio foi apontado por desviar de perguntas diretas e fornecer respostas genéricas destituídas de detalhes sobre sua trajetória no Senado. Lula apresentou propostas mais específicas, porém sua idade e percurso político repercutiram nas avaliações. Sua explanação sobre endividamento do país foi considerada vaga, gerando onda de cartões vermelhos. O bloco final sobre Banco Master obteve a pior avaliação de todo o grupo.

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