Bets investiram R$ 1,1 bilhão nos grandes times de futebol e acende alerta nos bastidores
Casas de apostas já informam possível rescisão de contratos; receita de bets representa até 73% do marketing de alguns times
O governo Lula anunciou na sexta-feira (25) a proibição de apostas e jogos virtuais online no Brasil por meio de medida provisória. A decisão ameaça R$ 1,143 bilhão em patrocínios que as bets pagaram aos 20 maiores clubes de futebol em 2025, segundo levantamento da Sports Value. Casas de apostas já comunicam o possível encerramento de contratos, segundo o g1.
O tamanho do mercado de bets no futebol
Em 2025, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 maiores clubes do país, de acordo com a Sports Value. Esse valor representa 36% das receitas totais de marketing desses clubes. O impacto, porém, não é uniforme: no São Paulo, as bets responderam por 73% da receita com patrocínios.
O crescimento foi explosivo. Em 2024, os patrocínios de casas de apostas somaram R$ 618 milhões. Um ano depois, chegaram a R$ 1,143 bilhão, quase dobrando em 12 meses.
Clubes se posicionam (Vídeo: reprodução/YouTube/CNN Brasil)
Esse aumento faz parte de um movimento maior. Os 20 maiores clubes somavam R$ 1,426 bilhão em receitas de marketing em 2022. Em 2025, esse valor chegou a R$ 3,166 bilhões. As bets foram parcela importante desse crescimento exponencial.
Por que as bets pagavam tanto
Amir Somoggi, diretor da Sports Value, explica o fenômeno. As casas de apostas colocaram valores no mercado muito acima do que outras empresas estavam dispostas a pagar pelos mesmos espaços.
“Eu acredito que houve uma acomodação, que eu costumo chamar de ‘easy money’, um dinheiro fácil. Como é tudo digital, você não tem que fazer nada, não faz nenhuma ação realmente contundente. Hoje, a bet paga esse dinheiro fácil de cotas inflacionadas, pagando muito mais do que vale.”
O modelo permitiu que as bets expandissem rapidamente. Começaram a ganhar espaço após 2018, quando a legislação autorizou apostas de quota fixa no país. Sem a necessidade de construir marca ou criar produtos complexos, as casas simplesmente compraram presença no futebol com dinheiro em abundância.
Muitos clubes aproveitaram para antecipar recebíveis. Apresentavam contratos de patrocínio a bancos e recebiam parte do dinheiro antes da data prevista, pagando juros sobre o valor adiantado. Corinthians e São Paulo, ambos endividados, usaram essa prática com frequência.
Agora enfrentam um risco real. Se os contratos forem encerrados, perdem receita já prevista no orçamento, mas continuam com compromissos financeiros assumidos com base nesse dinheiro.
“Você tem um estrangulamento financeiro do clube nesse modelo, porque ele está pagando juros. Se houver um problema, vai ter que cortar custos ou não conseguirá arcar com seus compromissos, já que essa receita não será substituída tão rapidamente por outros patrocínios.”, disse Amir Somoggi.
O que acontece depois da proibição
A saída das bets não significa perda automática de todo o dinheiro. O impacto dependerá de quanto do espaço será ocupado por outras empresas dispostas a pagar pelos mesmos lugares nas camisas e estádios.
Amir Somoggi aponta setores com capacidade financeira para substituir as casas de apostas:
- Bancos e instituições financeiras
- Seguradoras
- Empresas de cartões de crédito
- Empresas de alimentos e bebidas
- Montadoras de veículos
“Outros setores, como bancos, seguradoras, cartões de crédito, alimentos e veículos, têm empresas com capacidade financeira até maior que a das bets. A questão é o interesse.”, disse Somoggi.
A diferença crucial é que essas empresas podem não estar tão interessadas em investir no futebol quanto as bets estavam. Além disso, a substituição dificilmente será imediata. Clubes terão de encontrar empresas dispostas a pagar pelos mesmos espaços e, em alguns casos, renegociar contratos já existentes. O processo pode levar tempo.
Como outros países lidaram com bets no futebol
O Brasil não é o primeiro a enfrentar essa questão. Alguns países europeus já restringiram ou proibiram patrocínios de apostas no futebol:
- Itália: Proibiu publicidade e patrocínio de apostas no esporte em 2018, incluindo clubes de futebol
- Espanha: Adotou regras em 2020 que restringiram contratos de patrocínio de bets, proibindo marcas de apostas nas camisas e uniformes dos clubes
- Inglaterra: A Premier League decidiu em 2023 retirar voluntariamente marcas de apostas da frente das camisas a partir da temporada 2025/26
