Cenipa detalha causas do acidente da Voepass em relatório preliminar
Investigação identificou 39 conclusões e encaminhou recomendações à fabricante ATR, à EASA e à agência brasileira de aviação
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou na última quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo Voepass em Vinhedo (SP), ocorrida em 9 de agosto de 2024. O documento concluiu que falhas da companhia aérea, da tripulação e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuíram para a tragédia que resultou em 62 mortes.
Segundo o Cenipa, a aeronave não deveria ter decolado. Antes do voo que sairia de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), o avião apresentava dez itens com defeitos, incluindo uma falha no limpador de para-brisa que impedia operações sob previsão de chuva. O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa, explicou: “Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa”.
Fróes complementou: “A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem”.
Gelo severo e sistemas que falharam
Durante os 8 a 10 minutos de voo, o turboélice enfrentou condições severas de formação de gelo. O fenômeno começou ainda na subida e persistiu ao longo de toda a trajetória. Uma falha técnica comprometeu o sistema responsável por remover gelo da asa direita.
O equipamento de monitoramento da aeronave disparou pelo menos oito alertas de velocidade baixa e sinais de performance degradada. Os pilotos, no entanto, não acionaram os procedimentos de emergência estabelecidos nos manuais. Conversas sobre assuntos pessoais entre os tripulantes desviaram a atenção do monitoramento das condições de gelo e dos instrumentos.
Ao perder sustentação e entrar em estol, o copiloto agiu em desacordo com os procedimentos. Em vez de empurrar o manche conforme prescrito, ele o puxou, agravando a perda de controle.
Relatório expõe falhas antes da queda da Voepass
A aeronave entrou em parafuso chato, girando sobre seu próprio eixo enquanto caía verticalmente. Completou cinco voltas antes de atingir o solo. A velocidade de descida atingiu 14 mil pés por minuto, o equivalente a uma queda de 4 quilômetros a cada minuto.
Entre os 58 passageiros e quatro tripulantes a bordo, nenhum sobreviveu. Desde o desastre com o voo TAM em 2007, era o acidente mais grave da aviação brasileira.
O ATR 72-500 foi liberado para operar com uma falha técnica no sistema de degelo. Porém, o defeito não foi registrado no diário de bordo, impossibilitando os reparos.
O Cenipa identificou uma prática recorrente na Voepass: a normalização de desvios. Pilotos e mecânicos evitavam relatar panes no diário de bordo para permitir que os aviões voassem no dia seguinte. Esse procedimento facilitava a continuidade das operações apesar dos problemas técnicos acumulados.
Divulgação de relatório sobre acidente aéreo (Vídeo: reprodução/YouTube/@MetrópolesTV)
Insuficiência da fiscalização
O relatório aponta que o processo de gestão de risco adotado pela Anac não foi adequado. Auditorias e inspeções da agência identificaram diversas não conformidades relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes e à prática informal de reporte de panes.
Essas constatações, todavia, não influenciaram as decisões estratégicas. Os problemas detectados permitiram que a Voepass mantivesse suas operações apesar da degradação progressiva dos níveis de segurança.
Orientações para a fabricante
O Cenipa encaminhou quatro recomendações à EASA (Agência Europeia de Segurança Aérea) para serem transmitidas à ATR, fabricante da aeronave:
- Reformular os alertas de desempenho para exigir resposta imediata dos pilotos
- Aperfeiçoar as normas de operação em condições de gelo
- Melhorar o registro da caixa-preta com dados técnicos adicionais
- Fortalecer o sistema de alerta para ampliar a consciência situacional
Recomendações direcionadas à Anac
O Cenipa também encaminhou cinco recomendações à Anac:
- Revisar listas de verificação para incluir procedimento de ajuste de velocidade
- Aperfeiçoar canais de comunicação entre aeronaves e equipes em terra
- Intensificar a fiscalização com atualização de processos internos
- Divulgar os achados da investigação entre operadores de aviação
- Instituir monitoramento internacional para acompanhar a implementação das mudanças
Posição da companhia
A Voepass informou em nota que sua frota sempre esteve certificada para realizar voos conforme padrões internacionais de segurança. A companhia destacou que mantém certificação IOSA desde 2012 e que a tripulação possuía mais de 5 mil horas de voo acumuladas, com treinamentos técnicos atualizados e acompanhamento médico em dia. “A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS”.
A companhia reafirmou solidariedade com as famílias das vítimas e argumentou que em mais de 30 anos de operações nunca havia enfrentado situação semelhante. Segundo a empresa, manteve cooperação integral com o Cenipa e autoridades públicas.
Relatório traz recomendações após tragédia da Voepass
Antes da divulgação do relatório final, a Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia, impedindo voos comerciais.
A Polícia Federal instaurou inquérito após a tragédia para investigar possíveis crimes. O relatório do Cenipa não pode servir como base para responsabilização criminal.
Um mês após o acidente, o Cenipa havia divulgado um relatório preliminar confirmando condições severas de formação de gelo. O documento registrou relato da tripulação sobre possível falha no sistema antigelo, acionado e desligado múltiplas vezes durante o trajeto. Aquele relatório inicial, porém, não apontou a causa do acidente.
Para chegar às conclusões, o Cenipa analisou o conteúdo das caixas-pretas, registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e conduziu entrevistas com envolvidos. A equipe também realizou exames em componentes da aeronave e reconstruiu o voo.
Quase dois anos após a tragédia, o Cenipa finalizou as investigações. O relatório final reúne análise técnica do acidente e recomendações para elevar os padrões de segurança da aviação, evitando tragédias futuras.
