Cenipa detalha causas do acidente da Voepass em relatório preliminar

Investigação identificou 39 conclusões e encaminhou recomendações à fabricante ATR, à EASA e à agência brasileira de aviação

24 jul, 2026
Avião da Voepass I Reprodução/Instagram/@jpjornal
Avião da Voepass I Reprodução/Instagram/@jpjornal

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou na última quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo Voepass em Vinhedo (SP), ocorrida em 9 de agosto de 2024. O documento concluiu que falhas da companhia aérea, da tripulação e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuíram para a tragédia que resultou em 62 mortes.

Segundo o Cenipa, a aeronave não deveria ter decolado. Antes do voo que sairia de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), o avião apresentava dez itens com defeitos, incluindo uma falha no limpador de para-brisa que impedia operações sob previsão de chuva. O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa, explicou: “Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa”.

Fróes complementou: “A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem”.

Gelo severo e sistemas que falharam

Durante os 8 a 10 minutos de voo, o turboélice enfrentou condições severas de formação de gelo. O fenômeno começou ainda na subida e persistiu ao longo de toda a trajetória. Uma falha técnica comprometeu o sistema responsável por remover gelo da asa direita.

O equipamento de monitoramento da aeronave disparou pelo menos oito alertas de velocidade baixa e sinais de performance degradada. Os pilotos, no entanto, não acionaram os procedimentos de emergência estabelecidos nos manuais. Conversas sobre assuntos pessoais entre os tripulantes desviaram a atenção do monitoramento das condições de gelo e dos instrumentos.

Ao perder sustentação e entrar em estol, o copiloto agiu em desacordo com os procedimentos. Em vez de empurrar o manche conforme prescrito, ele o puxou, agravando a perda de controle.

Relatório expõe falhas antes da queda da Voepass

A aeronave entrou em parafuso chato, girando sobre seu próprio eixo enquanto caía verticalmente. Completou cinco voltas antes de atingir o solo. A velocidade de descida atingiu 14 mil pés por minuto, o equivalente a uma queda de 4 quilômetros a cada minuto.

Entre os 58 passageiros e quatro tripulantes a bordo, nenhum sobreviveu. Desde o desastre com o voo TAM em 2007, era o acidente mais grave da aviação brasileira.

O ATR 72-500 foi liberado para operar com uma falha técnica no sistema de degelo. Porém, o defeito não foi registrado no diário de bordo, impossibilitando os reparos.

O Cenipa identificou uma prática recorrente na Voepass: a normalização de desvios. Pilotos e mecânicos evitavam relatar panes no diário de bordo para permitir que os aviões voassem no dia seguinte. Esse procedimento facilitava a continuidade das operações apesar dos problemas técnicos acumulados.


Divulgação de relatório sobre acidente aéreo (Vídeo: reprodução/YouTube/@MetrópolesTV)


Insuficiência da fiscalização

O relatório aponta que o processo de gestão de risco adotado pela Anac não foi adequado. Auditorias e inspeções da agência identificaram diversas não conformidades relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes e à prática informal de reporte de panes.

Essas constatações, todavia, não influenciaram as decisões estratégicas. Os problemas detectados permitiram que a Voepass mantivesse suas operações apesar da degradação progressiva dos níveis de segurança.

Orientações para a fabricante

O Cenipa encaminhou quatro recomendações à EASA (Agência Europeia de Segurança Aérea) para serem transmitidas à ATR, fabricante da aeronave:

  • Reformular os alertas de desempenho para exigir resposta imediata dos pilotos
  • Aperfeiçoar as normas de operação em condições de gelo
  • Melhorar o registro da caixa-preta com dados técnicos adicionais
  • Fortalecer o sistema de alerta para ampliar a consciência situacional

Recomendações direcionadas à Anac

O Cenipa também encaminhou cinco recomendações à Anac:

  • Revisar listas de verificação para incluir procedimento de ajuste de velocidade
  • Aperfeiçoar canais de comunicação entre aeronaves e equipes em terra
  • Intensificar a fiscalização com atualização de processos internos
  • Divulgar os achados da investigação entre operadores de aviação
  • Instituir monitoramento internacional para acompanhar a implementação das mudanças

Posição da companhia

A Voepass informou em nota que sua frota sempre esteve certificada para realizar voos conforme padrões internacionais de segurança. A companhia destacou que mantém certificação IOSA desde 2012 e que a tripulação possuía mais de 5 mil horas de voo acumuladas, com treinamentos técnicos atualizados e acompanhamento médico em dia. “A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS”.

A companhia reafirmou solidariedade com as famílias das vítimas e argumentou que em mais de 30 anos de operações nunca havia enfrentado situação semelhante. Segundo a empresa, manteve cooperação integral com o Cenipa e autoridades públicas.

Relatório traz recomendações após tragédia da Voepass

Antes da divulgação do relatório final, a Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia, impedindo voos comerciais.

A Polícia Federal instaurou inquérito após a tragédia para investigar possíveis crimes. O relatório do Cenipa não pode servir como base para responsabilização criminal.

Um mês após o acidente, o Cenipa havia divulgado um relatório preliminar confirmando condições severas de formação de gelo. O documento registrou relato da tripulação sobre possível falha no sistema antigelo, acionado e desligado múltiplas vezes durante o trajeto. Aquele relatório inicial, porém, não apontou a causa do acidente.

Para chegar às conclusões, o Cenipa analisou o conteúdo das caixas-pretas, registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e conduziu entrevistas com envolvidos. A equipe também realizou exames em componentes da aeronave e reconstruiu o voo.

Quase dois anos após a tragédia, o Cenipa finalizou as investigações. O relatório final reúne análise técnica do acidente e recomendações para elevar os padrões de segurança da aviação, evitando tragédias futuras.

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