Anuário aponta queda de 7,7% em roubos e furtos de celulares no Brasil em 2025, com 830 mil casos
Levantamento revela 95 aparelhos subtraídos por hora. Nordeste e Norte concentram maioria das cidades mais afetadas; São Paulo responde por 20% do total
Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado nesta quinta-feira (23), o Brasil contabilizou 830.890 celulares roubados ou furtados em 2025, o equivalente a 95 aparelhos a cada hora. O resultado marca redução de 7,7% ante 2024, quando foram registradas 855.113 ocorrências. No topo do ranking nacional de cidades mais atingidas figuram São Luís (MA), Belém (PA) e São Paulo (SP).
O recuo acompanha uma tendência que se consolida há anos. Desde 2019, quando atingiu o pico histórico de 1.053.433 registros, o país acumula queda de 25% nos números de 2025. Contudo, os dados revelam dinâmica peculiar: enquanto roubos caem de forma expressiva, furtos crescem levemente.
Distribuição geográfica e o peso de São Paulo
Entre as cidades com as maiores incidências, 14 são capitais estaduais. O Nordeste concentra 8 delas, o Norte abriga 6 e o Sudeste também reúne 6 capitais. Essa distribuição reflete vulnerabilidades regionais distintas.
O destaque, porém, recai sobre São Paulo. Embora represente apenas 5,6% da população brasileira, a capital paulista figura responsável por 20% de todos os roubos e furtos de celulares registrados no país. O volume absoluto situa a cidade entre as que mais sofrem com esse tipo de criminalidade.
Apenas dois estados escaparam à trajetória de redução em 2025. Rio de Janeiro registrou crescimento de 22,7%, enquanto Paraíba avançou 21,1%. Os demais 25 estados seguiram a tendência nacional de queda.
Modelos de celulares (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Bloomberg)
Furtos crescem enquanto roubos recuam
6 a cada 10 celulares foram furtados em 2025, chegando a 483.561 casos e representando aumento de 0,9% frente a 2024. Na direção inversa, 4 a cada 10 foram roubados, totalizando 308.723 ocorrências e marcando queda de 18,6% no mesmo intervalo.
Essa reconfiguração expõe uma mudança estratégica entre criminosos. O roubo demanda confronto direto, uso de violência ou ameaça, elevando substancialmente o risco de prisão. O furto, diversamente, ocorre frequentemente sem confronto e com risco menor para quem o pratica. Em transportes públicos e espaços com alto fluxo de pessoas, a vítima detecta o crime após sua consumação.
Os aparelhos furtados permanecem frequentemente bloqueados, reduzindo o ganho financeiro na revenda de peças ou equipamentos inteiros. Em roubos bem-sucedidos, criminosos compelem a vítima a desbloquear o dispositivo e extraem senhas bancárias, ampliando significativamente o retorno.
Padrões temporais: quando ocorrem os crimes
Furtos
Os furtos concentram-se predominantemente nos finais de semana. Sábados e domingos abarcam 34,5% de todas as ocorrências, enquanto dias úteis registram distribuição menos intensa.
Quanto aos horários, o padrão aponta dois períodos críticos. O primeiro situa-se entre 10h e 12h, quando as ruas apresentam maior movimento de pessoas. O segundo estende-se das 17h às 20h, período em que cidadãos retornam de atividades laborais ou escolares circulando por locais mais congestionados.
Roubos
Os roubos seguem padrão radicalmente diverso. Ocorrem preponderantemente em dias úteis, quando 73,1% dos casos se concentram. Sextas-feiras marcam o pico semanal.
Quantos aos horários, dois momentos revelam-se críticos. O primeiro vai das 5h às 6h da manhã, quando pessoas saem de seus domicílios para trabalhar. O segundo, que concentra a maioria dos casos, estende-se das 18h às 23h, com pico às 20h, quando ocorre maior fluxo de retorno de atividades diárias.
A lógica criminal por trás da migração noturna
Segundo análise de Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, autores do Anuário, a concentração crescente de roubos no período noturno responde a cálculos de risco e viabilidade. O relatório identifica três motivações principais:
- Facilidade aumentada para os assaltantes fugirem durante a noite
- Redução do número de testemunhas no período noturno
- Menor visibilidade que prejudica a identificação dos criminosos
“Como o roubo é um crime que exige interação entre o criminoso e a vítima, é de se supor que no período noturno seja mais simples para os assaltantes fugirem, e também que haja menos testemunhas”, diz o texto do Anuário.
Localização dos crimes
Vias públicas concentram 77,2% de todos os roubos de celular. Ruas, avenidas e praças reúnem a maioria dos casos, ambientes onde a fuga oferece maior viabilidade.
Os furtos, contrariamente, distribuem-se com maior dispersão geográfica. 49,3% ocorrem nas ruas, 15,2% em estabelecimentos comerciais e 6,1% em transportes públicos. Essa distribuição espelha as oportunidades disponíveis: qualquer espaço com circulação de pessoas cria condições para a subtração.
“Em muitos casos, como em transportes públicos ou locais com grande circulação de pessoas, a vítima só percebe o crime depois que ele aconteceu”, diz o relatório.
Avenida Paulista em São Paulo (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Bloomberg)
Perfil das vítimas
O padrão de vitimização varia conforme o tipo de crime praticado. Em roubos, homens constituem 59,8% das vítimas. Em furtos, a distribuição aproxima-se do equilíbrio: 50,3% dos casos atingem homens e 49,7%, mulheres.
Essa disparidade evidencia uma realidade subjacente: roubos de celular tendem a ser seletivos, buscando vítimas específicas, ao passo que furtos ocorrem por oportunidade, sem critério de gênero.
Explicação da migração para furtos
A preferência crescente por furtos decorre do cálculo de custo-benefício que orienta a ação criminosa. Enquanto roubos exigem proximidade com a vítima e emprego de violência ou ameaça, incrementando drasticamente a chance de prisão em flagrante, furtos costumam transcorrer sem confronto direto e sem deixar rastros de agressão.
Os fatores que elevaram esse custo são múltiplos: expansão da vigilância por câmeras, intensificação da atuação policial e alterações no comportamento da população, que passa a utilizar seus aparelhos com maior cautela em espaços públicos. A resposta criminal foi previsível e adaptativa: redirecionamento de recursos para atividades criminosas de menor risco.
O que explica a queda de roubos
Três elementos combinados justificam a redução de 18,6% em roubos de celular. O primeiro é o incremento de sistemas de câmeras de segurança em vias públicas e comércios. O segundo corresponde à maior concentração de recursos policiais em crimes contra o patrimônio. O terceiro refere-se ao ajuste comportamental da população, que adota cuidados reforçados na manipulação de aparelhos em ambientes públicos.
Conjuntamente, esses fatores tornaram o roubo uma atividade criminosa com retorno diminuído e risco elevado. A adaptação estratégica de criminosos ocorreu de forma esperada: transição para furtos.
Sobre a pesquisa
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública chega à sua 20ª edição como iniciativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A publicação consolida estatísticas de segurança pública de toda a nação para análise de tendências criminais.
Os dados de 2025 confirmam uma tendência consolidada nacionalmente: redução persistente de roubos e furtos de celular desde o pico registrado em 2019. A diminuição de 25% ao longo de seis anos sugere que políticas públicas e mudanças comportamentais produzem efeito, embora o contingente de 830 mil aparelhos continue representando desafio relevante para a segurança pública brasileira.
