Rainha-mãe de Uganda denuncia prisão domiciliar após disputa por trono real
Tropas militares cercam palácio do Reino de Tooro depois de comitê nomear novo monarca e família contestar sucessão com suposto testamento secreto
A Rainha-Mãe do Reino de Tooro, Best Kemigisa, afirmou nesta quinta-feira (10) que está sob prisão domiciliar junto com membros da família real em Uganda. Segundo a monarca, forças militares cercaram o palácio e retiraram a guarda real sem aviso prévio, impedindo a saída de moradores e a entrada de visitantes. A ação ocorre em meio a um tenso impasse sobre quem deve assumir a liderança cultural da etnia após a morte do rei Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV.
O conflito começou após o comitê de seleção tradicional anunciar o príncipe Edward Rukidi Kijanangoma como o novo rei de Tooro. Kijanangoma foi escolhido para suceder o falecido monarca, de quem era primo. Oyo governou a região por 31 anos, tendo sido reconhecido pelo Guinness World Records como o monarca reinante mais jovem do mundo ao assumir o trono com apenas 3 anos de idade. Ele faleceu nos Estados Unidos durante o tratamento contra um câncer.
Testamento secreto e acusações de conspiração
A escolha do novo governante provocou reação imediata da família do falecido rei. A princesa Ruth Komuntale, irmã de Oyo, rejeitou publicamente a nomeação do primo e acusou integrantes do conselho de conspiração. Em declarações sobre o caso, a princesa afirmou que grupos com interesses próprios agiram contra a vontade da família e apresentou um documento que seria o testamento oficial do irmão, elaborado em 2022.
Segundo o texto apresentado por Komuntale, o rei Oyo deixou registrado que o trono deveria ser herdado por um filho biológico. O documento, no entanto, não revelava o nome ou a identidade da criança. A revelação pegou os líderes tradicionais e a elite de Tooro de surpresa, já que a existência de um herdeiro direto nunca tinha sido tornada pública. Diante da falta de informações e de confirmação sobre a criança, o comitê decidiu descartar a indicação e prosseguir com a votação que elegeu Kijanangoma.
Com a escalada da crise, a situação no palácio real se agravou. Em comunicado oficial divulgado nesta quinta-feira, Best Kemigisa denunciou a presença de homens armados ao redor da residência oficial da família real. A monarca declarou que a troca da guarda ocorreu de forma abrupta e que o cerco impede o livre trânsito dos familiares.
Monarca mais jovem do mundo, Oyo Nyimba, filho de Best, morreu aos 34 anos em agosto (Vídeo: Reprodução/YouTube/@g1)
A Rainha-Mãe relatou que a rotina no local foi totalmente alterada e pediu intervenção para garantir a segurança dos ocupantes do palácio. As autoridades governamentais de Uganda ainda não se pronunciaram oficialmente sobre a presença das tropas ou sobre as acusações de confinamento forçado feitas pela liderança tradicional.
O papel dos reinos tradicionais em Uganda
Uganda é uma república constitucional, mas a legislação do país reconhece oficialmente a existência de monarquias tradicionais no território. Esses reinos não possuem poder político, legislativo ou executivo formal, atuando de maneira focada na preservação cultural, na promoção do desenvolvimento comunitário e na liderança social das respectivas etnias.
No continente africano, apenas três países mantêm monarquias soberanas com autoridade estatal direta: Essuatíni, Lesoto e Marrocos. Nos demais países, como no caso ugandense, os títulos de rei e rainha possuem valor histórico e representativo, exercendo forte influência sobre a população local, o que torna disputas sucessórias como a de Tooro eventos de grande impacto social na região.
