Governo do Nepal faz enterro coletivo de mais de 900 pessoas, vítimas de avalanche no Himalaia

Tragédia provocada pelo colapso de geleira deixa quase mil mortos no Nepal e na China; equipes de resgate ainda buscam trabalhadores presos em túneis

31 ago, 2026
Casas destruídas no Nepal | Reprodução/Instagram/@weatherchannel
Casas destruídas no Nepal | Reprodução/Instagram/@weatherchannel

O governo do Nepal começa a sepultar corpos recuperados após a avalanche devastadora que atingiu a região do Himalaia na última semana. A tragédia, provocada pelo colapso parcial de uma geleira na fronteira entre o Nepal e a China, gerou uma forte onda de gelo, pedras e detritos. Até o momento, o desastre contabiliza 955 mortos confirmados e cerca de 4,5 mil pessoas desaparecidas ao longo do vale atingido nos dois países.

A decisão de realizar os sepultamentos coletivos antes do término do processo de identificação decorre da falta de infraestrutura adequada para armazenar a grande quantidade de cadáveres resgatados dos escombros. Para garantir que as famílias possam realizar rituais funerários tradicionais no futuro, as equipes médicas estão coletando amostras de DNA de todos os corpos antes do sepultamento.

Enquanto as autoridades organizam os funerais, familiares das vítimas continuam lotando hospitais e centros de resgate improvisados em busca de informações sobre parentes. Nesses locais, telas de LED exibem fotografias dos corpos encontrados para que os parentes façam o reconhecimento visual inicial. Entre as pessoas presentes nos centros de apoio, o clima é de consternação extrema, com familiares enfrentando a dolorosa tarefa de analisar as imagens de seus entes queridos.

Trabalhadores seguem soterrados em usinas

O foco principal das operações de busca concentra-se na tentativa de resgatar 933 trabalhadores de usinas hidrelétricas que continuam desaparecidos. A maior parte dessas pessoas está presa dentro de túneis operacionais nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, os dois mais severamente impactados pela correnteza no Nepal.

Na usina Trishuli-3A, soldados e engenheiros do Exército nepalês realizam perfurações nos escombros para tentar criar vias de acesso e de ventilação. No último domingo, as equipes conseguiram inserir um tubo de diâmetro menor em um dos túneis para auxiliar na sobrevivência daqueles que permanecem isolados no subsolo. Os trabalhos prosseguem de forma ininterrupta, com a utilização de escavadeiras, refletores e explosões controladas durante a noite para abrir caminho em meio às rochas e à espessa camada de lama.

Durante as incursões em dois dos túneis afetados, os socorristas conseguiram recuperar três corpos. A porta-voz do Exército nepalês, Raja Ram Basnet, informou que a imensa quantidade de detritos depositada nas entradas dos empreendimentos representa o maior desafio tático para as forças de segurança. Ao todo, quase 21 mil agentes de segurança nepaleses atuam nas buscas, ao lado de trabalhadores civis e voluntários.

Sobreviventes que conseguiram escapar dos momentos iniciais da tragédia relatam momentos de pânico e destruição repentina. O trabalhador indiano Surendra Dowluri, de 33 anos, contou que escutou um estrondo avassalador pouco antes de a água invadir o local onde operava. Ele relatou que o andar da turbina foi completamente submerso por lama, deixando seis trabalhadores presos na área. Dowluri e seus colegas conseguiram retirar cinco pessoas com vida após quatro dias do desastre, mas um dos trabalhadores não sobreviveu.

Estrangeiros e peregrinos estão entre desaparecidos

Além dos trabalhadores das usinas hidrelétricas, o volume de desaparecidos inclui centenas de turistas e peregrinos. Muitos dos viajantes seguiam rumo ao Monte Kailash, local sagrado situado na Região Autônoma do Tibete, na China.

Na porção chinesa da fronteira, o governo mobilizou mais de 2,1 mil socorristas para atuar nos pontos atingidos. Pequim informou que 261 cidadãos estrangeiros, vindos de 23 países diferentes, constam na lista oficial de desaparecidos na região do Tibete. O governo chinês destinou 220 milhões de yuans para apoiar as ações de socorro, o equivalente a cerca de R$ 169,7 milhões. Equipamentos de detecção de sinais vitais e suprimentos essenciais estão sendo lançados por via aérea nas zonas de difícil acesso.


Funcionários filmaram fuga durante a avalanche de lama (Vídeo: Reprodução/X/@g1)


As operações terrestres enfrentam extrema dificuldade devido ao bloqueio das vias de transporte. Em um dos pontos operacionais perto do porto fronteiriço de Gyirong, equipes chinesas munidas de maquinário pesado conseguiram avançar apenas 285 metros ao longo de todo o domingo na tentativa de abrir um caminho até o epicentro dos estragos.

Instabilidade do terreno ameaça resgates

O evento catastrófico teve início com o derretimento e consequente colapso parcial de uma geleira. Segundo dados divulgados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, o volume massivo de água, gelo e rochas transformou o leito de um rio local em uma forte correnteza que desceu rapidamente pelo vale, destruindo a infraestrutura existente nas duas margens.

O desastre natural gerou um problema adicional para a segurança do local: a formação de grandes lagos resultantes do represamento de rios por terra e detritos. As equipes de emergência mantêm monitoramento constante sobre esses corpos d’água, que correm o risco de romper e provocar enchentes secundárias nas áreas de busca.

Na área perto do porto de Gyirong, no Tibete, socorristas chineses precisaram ser evacuados de emergência para locais seguros no domingo devido ao surgimento repentino de um novo lago provocado por um deslizamento de terra. O fluxo dessas águas que começam a transbordar para os rios do Nepal forçou as autoridades a suspenderem temporariamente as buscas em diversos momentos. Imagens capturadas por drones mostram que as encostas ao redor da cratera formada pelo colapso continuam instáveis, com alto risco de novos desabamentos.

Impacto ambiental e alto custo de reconstrução

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou o acontecimento como um desastre devastador, sem precedentes e desolador para a nação. O líder governamental ressaltou que ainda não é possível mensurar com precisão a totalidade dos prejuízos materiais, mas estimou que os custos para a reconstrução das regiões devastadas alcançarão a casa dos bilhões de dólares. Vilarejos inteiros localizados às margens dos rios foram completamente apagados do mapa.


Equipes ainda trabalham para resgatar mais de 900 trabalhadores (Vídeo: Reprodução/X/@g1)


Em suas declarações, o primeiro-ministro também chamou a atenção para o contraste entre o sofrimento imposto ao Nepal pelas mudanças climáticas e a responsabilidade do país nesse cenário. O Nepal possui uma das menores taxas de emissão de carbono per capita do mundo. No entanto, por estar situado na cadeia do Himalaia, a maior estrutura de montanhas do planeta, sofre diretamente com o derretimento acelerado das geleiras provocado pelo aumento das temperaturas globais.

Apesar da escala do desastre, o governo nepalês afirmou que possui capacidade própria para gerenciar as operações gerais de busca no solo. No entanto, o país solicitou e vem utilizando a expertise técnica de engenheiros e especialistas da Índia e da China especificamente para os trabalhos complexos de resgate e escavação dentro dos túneis subterrâneos inundados. As buscas continuam concentradas em resgatar possíveis sobreviventes presos sob a lama nas próximas horas.

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