Presidente interina da Venezuela contesta Trump e reforça controle sobre petróleo do país
Acordo prevê US$ 100 bilhões em investimentos americanos e estimativa de US$ 204 bilhões em receita, mas gera ceticismo entre população
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou no último sábado (29) que o país mantém soberania sobre seu petróleo após novo acordo com os Estados Unidos. A declaração contraria a versão de Donald Trump, que anunciou que os EUA haviam assegurado controle majoritário dos mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas.
Os termos do acordo
“Uma coisa deve estar completamente clara: a Venezuela retém a posse e soberania sobre seus recursos”, afirmou Rodríguez em pronunciamento na televisão estatal.
Os 17 campos estratégicos que ficarão sob controle americano continuam pertencendo à Venezuela, segundo a presidente interina. O acordo prevê que a meta de produção chegue a 1,5 milhão de barris por dia. Por cada barril vendido, a Venezuela receberá US$ 19.
O acordo terá duração de 25 anos e prevê US$ 100 bilhões em investimentos privados de empresas americanas. Delcy estima que a parceria gere US$ 204 bilhões em receita fiscal para o país durante esse período. A meta é transformar os recursos subterrâneos, hoje “frios e inertes”, em uma fonte de “bem-estar econômico e social” para a população, conforme a presidente interina.
Delcy Rodríguez foi vice do presidente Nicolás Maduro, preso e deposto pelo governo Trump. Ela assumiu a liderança do país em meio à transição política recente.
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (Foto: reprodução/ NurPhoto/ Getty Images Embed)
Reações e ceticismo
O acordo gerou críticas nas redes sociais, inclusive entre apoiadores do chavismo. Muitos temem que a parceria com Washington represente perda de soberania com poucos benefícios para a população e alto custo político.
“Não sabemos quem se beneficiará com isso, se a Venezuela ou eles. Tenho minhas dúvidas, mas temos que esperar para ver o que acontece”, afirmou Jesús Salazar, segurança privado de 68 anos, segundo o jornal O Globo.
O Partido Socialista Unido da Venezuela reafirmou no sábado seu apoio à decisão. O PSUV afirmou defender medidas econômicas que priorizem os interesses nacionais e permitam superar os efeitos de mais de uma década de sanções econômicas, medidas coercitivas e bloqueios injustos.
Contexto de reformas e sanções
Sob pressão de Washington, Rodríguez promoveu nos últimos meses reformas para abrir os setores de petróleo e mineração ao capital privado, especialmente estrangeiro. Os EUA começaram a flexibilizar as sanções contra o setor petrolífero venezuelano.
A produção cresceu para 1,2 milhão de barris ao dia entre janeiro e julho, uma alta de 29,8%, segundo dados do O Globo. Ainda está muito abaixo dos 3 milhões atingidos diariamente há 25 anos. A petroleira americana Chevron já estaria em negociações avançadas para expandir sua operação no país.
Perspectivas de implementação
Especialistas avaliam que o aumento expressivo da produção levará anos. O engenheiro Oswaldo Felizzola estima que os efeitos poderão começar a ser percebidos somente daqui a três ou quatro anos.
“Se não fosse assim, esses campos não seriam explorados nos próximos 10 ou 15 anos, porque a PDVSA não tem os recursos econômicos para isso”, destaca Felizzola.
Para Felizzola, a entrada de empresas americanas pode funcionar como uma garantia para investimentos em um setor que não consegue atrair capital significativo há mais de uma década. Sem essa parceria, segundo ele, a exploração não seria viável nos próximos 10 ou 15 anos.
Contexto econômico
Uma operação dessa magnitude poderia acelerar a recuperação econômica da Venezuela, que ainda tenta se recuperar de uma contração de cerca de 80% entre 2014 e 2021, segundo informações do O Globo.
Venezuelanos enfrentam grave deterioração do poder de compra. O salário mínimo mensal equivale a apenas US$ 0,16, enquanto benefícios estatais podem chegar a US$ 240 por mês. O custo estimado da cesta básica é de US$ 730, segundo dados compilados pelo O Globo.
Carlos Baco, funcionário público de 74 anos, espera que o aumento da receita do petróleo melhore a economia. “Se eles querem o petróleo daqui, da Venezuela, têm que pagar pelo preço atual, porque a Venezuela não vai dar o petróleo de graça”, afirma Baco. Ainda assim, ele relata que não sentiu os efeitos da recuperação da produção: consumo, alimentos, dólar e preços das mercadorias estão mais caros.
Para o analista Elías Ferrer, a chegada de investimentos à Venezuela é positiva, apesar das condições do acordo. Segundo ele, a exploração do petróleo pode gerar royalties e benefícios ao país.
Já a ex-vice-ministra de Energia Dolores Dobarro avalia que a parceria tem potencial para impulsionar a recuperação do setor petrolífero venezuelano, desde que seja conduzida corretamente.
