Augusto Cury na Globo: veja o que é fato e o que é fake na entrevista

G1 verifica seis afirmações do candidato e encontra dados maiores que os oficiais de órgãos como Secretaria de Prêmios e Apostas, Banco Central e Ministério da Saúde

30 ago, 2026
Augusto Cury na bancada para entrevista com Renata Vasconcellos e César Tralli — Foto: Manoella Mello/Globo
Augusto Cury na bancada para entrevista com Renata Vasconcellos e César Tralli — Foto: Manoella Mello/Globo

O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) foi entrevistado pela Globo no sábado 29 de agosto, em estúdios no Rio de Janeiro. A equipe de checagem do G1 verificou suas principais declarações e encontrou números significativamente maiores que os dados oficiais de órgãos como a Secretaria de Prêmios e Apostas, Banco Central e Ministério da Saúde.

A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, integra uma série de sabatinas que a Globo realiza com os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest de 14 de agosto. O cronograma foi definido por sorteio com representantes dos partidos, permitindo que cada presidenciável apresentasse suas propostas em cadeia nacional.

Checagem das afirmações

A equipe do Fato ou Fake analisou seis declarações centrais da entrevista de Cury, comparando-as com dados oficiais de instituições federais e estudos internacionais reconhecidos.

Receita das bets

Cury afirmou durante a sabatina que as bets faturam quantias extraordinárias. “Você sabe, as bets [faturam] R$ 30 milhões, 30 bilhões por mês. No final do ano, R$ 360 [bilhões], R$ 400 bilhões”, disse o candidato.

“Você sabe, as bets [faturam] R$ 30 milhões, 30 bilhões por mês. No final do ano, R$ 360 [bilhões], R$ 400 bilhões.”, disse Augusto Cury

Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, as bets obtiveram receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025, o que corresponde a uma média mensal de R$ 3,08 bilhões. Os números citados por Cury são cerca de dez vezes maiores que os dados oficiais.

Em 2025, a taxação sobre bets era de 12%. A Lei Complementar 224/2025, sancionada em 26 de dezembro de 2025, aumenta gradualmente os impostos: 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028. O tema representa uma prioridade na arrecadação federal, com pressão crescente para regular o setor.

Impacto da Selic na dívida

Cury também fez afirmação sobre a taxa Selic e seu impacto na dívida pública. “Cada 1 ponto percentual da taxa Selic, nós pagamos quase R$ 100 bilhões a mais para rolar a dívida federal”, declarou durante a entrevista.

“Cada 1 ponto percentual da taxa Selic, nós pagamos quase R$ 100 bilhões a mais para rolar a dívida federal.”, disse Augusto Cury

O Banco Central divulga mensalmente a nota Estatísticas Fiscais, que detalha o impacto de uma alta de 1 ponto percentual na Selic mantida por 12 meses. Segundo o Banco Central, esse impacto é de R$ 60,6 bilhões na Dívida Bruta do Governo Geral e R$ 66,1 bilhões na Dívida Líquida do Setor Público. Os valores são significativamente menores que os R$ 100 bilhões mencionados pelo candidato.

Tempo de espera no SUS

Cury citou prazos de espera no Sistema Único de Saúde. “Sabe quanto tempo demora para ter uma consulta com um oftalmologista [pelo SUS]? 57 dias. Com cardiologista também. Em Brasília, tem dados que são mais de 100 dias”, afirmou.

“Sabe quanto tempo demora para ter uma consulta com um oftalmologista [pelo SUS]? 57 dias. Com cardiologista também. Em Brasília, tem dados que são mais de 100 dias.”, disse Augusto Cury

A assessoria de Cury confirmou que a informação veio de reportagem publicada por O Globo em março de 2025, que obteve os dados via Lei de Acesso à Informação do Ministério da Saúde. No entanto, os dados oficiais diferem das afirmações. Em 2024, a média de espera para oftalmologia no SUS foi de 83 dias no país, não 57 dias. Para cardiologia, a média nacional foi de 52 dias.

Em Brasília especificamente, os prazos são ainda maiores. A espera para oftalmologia chegou a 180,9 dias em 2024, e para cardiologia foi de 104,2 dias. O Distrito Federal possui uma das filas mais demoradas do país em ambas as especialidades.

Mortes por feminicídio

Cury fez uma afirmação que se mostrou precisa. “Sabe quantas mulheres morreram [por feminicídio] no ano passado? Foram 1.571”, disse durante a sabatina.

“Sabe quantas mulheres morreram [por feminicídio] no ano passado? Foram 1.571.”, disse Augusto Cury

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. O dado citado por Cury está correto. No mesmo período, 3.539 mulheres foram assassinadas no país. O feminicídio ocorre quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar ou discriminação à condição de mulher.


 

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Augusto Cury (Vídeo: reprodução/Instagram/@portalg1)


Emissões de carbono

Cury comparou emissões de carbono entre países. “Um chinês emite quatro vezes mais carbono que um brasileiro; um americano, sete vezes mais”, afirmou.

“Um chinês emite quatro vezes mais carbono que um brasileiro; um americano, sete vezes mais.”, disse Augusto Cury

A assessoria de Cury confirmou que a fonte foi Our World In Data. Sem considerar mudanças no uso da terra e florestas, um brasileiro emite 2,37 toneladas de CO2 por ano, um chinês 7,9 toneladas e um americano 14,76 toneladas. Com essas métricas, o chinês emitiria 3,3 vezes mais que o brasileiro.

Ao considerar o índice de mudança no uso da terra e florestas, os números mudam significativamente. Um brasileiro emite 9,82 toneladas de CO2 per capita, um chinês emite 8,43 toneladas e um americano emite 14,52 toneladas. Com o desmatamento incluído, o Brasil supera a China mas permanece abaixo dos Estados Unidos.

Produção de alimentos

Cury citou dados sobre produção agrícola brasileira. O candidato afirmou que o Brasil produz 350 milhões de toneladas de alimentos e que precisaria dobrar esse volume para 700 milhões em dez anos.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira 2024/2025 chegou a 350,2 milhões de toneladas, um recorde histórico. O volume foi 16,3% maior que a safra 2023/24, cuja produção havia sido de 301,2 milhões de toneladas. O recorde anterior era de 324 milhões de toneladas em 2022/23.

O aumento expressivo foi impulsionado principalmente por milho, soja, arroz e algodão, que representam cerca de 47 milhões de toneladas do crescimento registrado. A produção agrícola brasileira mantém-se entre as maiores do mundo, consolidando o país como fornecedor global de alimentos.

A checagem foi realizada por Arthur Stabile, Camilla Alcântara, Gabriel de Campos, Gustavo Petró, Jorge Fofano, Mel Trench, Roney Domingos, Victória Cócolo e Vinícius Cassela, membros da equipe de checagem do G1.

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