ONU alerta que metas climáticas preveem corte de apenas 6% das emissões

Para limitar aquecimento a 1,5°C, redução necessária seria de 60%; projeções da ONU indicam que a temperatura média do planeta pode subir até 3,2°C

27 out, 2026
Antalya, na Turquia será sede da COP31 | Reprodução/Instagram/@roteirosturquia
Antalya, na Turquia será sede da COP31 | Reprodução/Instagram/@roteirosturquia

As novas metas climáticas apresentadas pelos países devem reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em apenas 6% até 2035. O resultado está muito distante do corte de aproximadamente 60% necessário para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

O alerta foi divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta uma grande diferença entre os compromissos assumidos pelos governos e as medidas necessárias para conter as mudanças climáticas, mesmo após a assinatura do Acordo de Paris, em 2015.

Avaliação antecede a COP31

A análise foi publicada nesta terça-feira (27) pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), às vésperas da COP31, marcada para 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia.

O relatório considera 127 novas metas climáticas nacionais, conhecidas como NDCs, apresentadas entre janeiro de 2024 e agosto de 2026. Juntas, elas representam 154 participantes do Acordo de Paris, incluindo a União Europeia e seus países-membros.

Esses compromissos abrangem aproximadamente 71% das emissões globais registradas em 2019, sem considerar o desmatamento e as mudanças no uso da terra.

Segundo a ONU, o cumprimento das metas deve reduzir as emissões globais em apenas 6% até 2035, na comparação com os níveis de 2019. Para limitar o aquecimento a 1,5°C, porém, seria necessário um corte de aproximadamente 60% no mesmo período. Já a redução necessária para manter o aumento da temperatura abaixo de 2°C seria de cerca de 37%.

O limite de 1,5°C foi estabelecido pelo Acordo de Paris para evitar os impactos mais graves das mudanças climáticas, como secas intensas, elevação do nível do mar e perda de geleiras. No entanto, estudos recentes indicam que o planeta pode ultrapassar temporariamente esse patamar.

A ONU calcula que a redução das emissões poderia chegar a 9% até 2035 caso os países implementem integralmente todas as medidas previstas, incluindo aquelas que dependem de financiamento e apoio internacional. Sem essas ações adicionais, o corte seria de apenas 3%.

Apesar da insuficiência dos compromissos, o relatório aponta que as emissões globais podem atingir o pico antes de 2030 e começar a cair nos anos seguintes.

A projeção indica que as emissões anuais devem ficar entre 49,6 bilhões e 55,9 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2035. A unidade permite comparar diferentes gases de efeito estufa de acordo com seu potencial de aquecimento.


Emissões de Co2 na atmosfera ainda é o principal desafio das metas (Foto: reprodução/Getty Images Embed/CN-STR)


Aquecimento pode chegar a 3,2°C até 2100

Mesmo com a implementação das novas metas nacionais, o mundo continua distante do objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5°C.

Segundo o relatório, a temperatura média do planeta pode aumentar entre 2,1°C e 3,2°C até 2100, considerando os compromissos apresentados e as projeções de emissões posteriores ao período abrangido pelas metas.

Em outro cenário, que inclui os objetivos de longo prazo dos países, como a neutralidade das emissões líquidas até meados do século, o aquecimento projetado fica entre 1,7°C e 2,3°C.

Para alcançar esse resultado, porém, os governos precisarão cumprir suas promessas e acelerar os cortes de emissões nas próximas décadas.

O documento também alerta que o mundo pode esgotar antes de 2030 o orçamento de carbono compatível com a meta de 1,5°C. A partir do início de 2026, esse limite era estimado em aproximadamente 130 bilhões de toneladas de CO₂, volume equivalente a cerca de três anos das emissões globais atuais.

Entretanto, os compromissos apresentados até agora indicam emissões acumuladas de aproximadamente 368 bilhões de toneladas de CO₂ entre 2026 e 2035, quase três vezes o orçamento disponível.

Caso o aquecimento ultrapasse o limite de 1,5°C, a remoção de grandes quantidades de CO₂ da atmosfera poderá ser necessária para tentar reduzir novamente a temperatura global.

Países ampliam medidas de combate às mudanças climáticas

Apesar da distância entre as metas e os resultados necessários, a ONU reconhece avanços na incorporação de políticas climáticas aos planos nacionais.

Cerca de 90% dos participantes analisados afirmaram ter considerado as conclusões do primeiro balanço global do Acordo de Paris, concluído na COP28, em Dubai, em 2023. Além disso, 99% apresentaram medidas para reduzir as emissões em setores como energia, transporte, indústria, agricultura e gestão de resíduos.

A transição energética também ganhou espaço. A parcela de participantes que prevê modernizar redes elétricas passou de 51% para 70%, enquanto a proporção dos que planejam ampliar o armazenamento de energia subiu de 33% para 56%.

O metano também aparece nas metas de 92% dos participantes. Já 90% incluíram compromissos relacionados ao uso da terra e às florestas, como o combate ao desmatamento e o reflorestamento.

Ainda assim, os avanços são desiguais. Outro relatório divulgado nesta terça-feira, baseado em 137 documentos nacionais, identificou progresso em direção às metas climáticas em 61 participantes. Outros 27 se afastaram dos objetivos ou apresentaram resultados mistos.

A ONU ressalta que esses avanços não significam, necessariamente, que os países estejam reduzindo as emissões no ritmo necessário para cumprir seus compromissos.


COP30 foi realizada no Brasil, em Belém do Pará (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Wagner Meier)


Adaptação e financiamento continuam sendo desafios

As medidas de adaptação aos impactos climáticos também ganharam espaço nas novas metas. Segundo a ONU, 86% dos participantes incluíram ações para proteger a produção de alimentos, os recursos hídricos e a saúde, além de prevenir desastres.

Entre eles, 92% mencionaram perdas e danos provocados pelas mudanças climáticas, como destruição de infraestrutura, prejuízos econômicos e mortes em eventos extremos. Nas metas anteriores, essa proporção era de 56%.

A implementação dessas iniciativas, porém, ainda enfrenta obstáculos. Até outubro de 2026, 81 países em desenvolvimento haviam apresentado planos nacionais de adaptação. Entre 41 planos de países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares, 36 ainda estavam nas etapas iniciais de execução.

O financiamento climático também permanece como um desafio. Os investimentos globais na área atingiram uma média de US$ 1,9 trilhão por ano em 2023 e 2024, alta de 32% em relação ao biênio anterior.

Desse total, apenas 9% corresponderam a transferências internacionais para países em desenvolvimento, o equivalente a cerca de US$ 183 bilhões anuais. Os recursos destinados especificamente à adaptação somaram US$ 63 bilhões por ano, queda de 20% e apenas 3% do financiamento climático global identificado.

Os países desenvolvidos, por sua vez, superaram em 2023 e 2024 a promessa de mobilizar US$ 100 bilhões anuais para apoiar nações em desenvolvimento. Os valores chegaram a US$ 132,8 bilhões e US$ 136,7 bilhões, respectivamente, embora a meta original previsse o cumprimento desse compromisso em 2020.

A contabilização desses recursos, entretanto, continua sendo motivo de divergência. Segundo a Oxfam, a contribuição financeira efetiva dos países ricos em 2024 ficou entre US$ 32,7 bilhões e US$ 44,7 bilhões, considerando critérios diferentes dos utilizados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Diante desse cenário, a redução das emissões e o financiamento aos países mais vulneráveis devem estar entre os principais temas das negociações da COP31.

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