Promotor diz que EUA podem classificar PCC como terrorista sem ouvir Brasil
Lincoln Gakiya afirmou que teve conversas nos últimos meses e que acredita que decisão do dos EUA será tomada independente da opinião brasileira
Na tarde desta quarta-feira (11), o promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-SP), Lincoln Gakiya. Ele falou em entrevista ao Estúdio I da Globo News sobre a decisão dos Estados Unidos em classificar o PCC como uma organização terrorista. Gakiya afirma que o país norte-americano não vai considerar a opinião do governo brasileiro.
Reunião com autoridades
Gakiya é o responsável por investigar a facção criminosa há mais de 20 anos e coleciona ameaças de morte feitas pela facção desde 2005. Há pelo menos 10 anos, ele circula com escolta policial 24 horas. Ele também afirmou que, nos últimos meses, tem participado de encontros com assessores diretos do secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, com o objetivo de conhecer como funcionava o PCC.
Em 2025, representantes norte-americanos visitaram Brasília e São Paulo para obter informações detalhadas sobre o PCC, sua ameaça e os impactos da facção no Brasil e no mundo. Uma nova reunião com representantes do governo norte-americano vai acontecer ainda nesta semana, onde Gakiya vai compartilhar informações sobre o crime organizado e a atuação do PCC. Essa reunião deixará decidido qual assunto será discutido no encontro que acontecerá ainda este mês em Boston com a DEA (Drug Enforcement Administration), FBI (Federal Bureau of Investigation) e Departamento de Estado dos EUA.
Embaixadas e consulados ao redor do mundo têm recebido um relatório do Ministério Público de São Paulo para que esses países ajudem no combate a crimes transnacionais, já que autoridades e investigadores brasileiros e estrangeiros têm prestado atenção que integrantes do PCC estão buscando em outros países não somente para viagens temporárias, mas também como um lugar para moradia fixa, que são consideradas uma “marca registrada” da facção paulista.
Segundo um levantamento da Globo News, o PCC está infiltrado em presídios de ao menos 28 países, onde novos membros são recrutados com o objetivo de expandir negócios de tráfico de drogas e armas e lavagem de dinheiro.

Secretário de estado dos EUA, Marco Rubio (Foto: reprodução/Instagram/@marcorubio)
Opinião de Gakiya
Lincoln Gakiya deixou claro que não considera o PCC como uma organização terrorista, mas sim como uma organização criminosa transnacional com características parecidas com a máfia. “O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo. O foco é puramente comercial: lucro e dominação territorial”, afirmou.
Ele ainda criticou que o discurso político ter se apropriado do tema criou uma falsa ideia de que classificar o crime organizado como terrorismo endureceria as penas. “O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população, influenciada por uma corrente política, acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos”, contou.
Ele também criticou o discurso de que uma intervenção estrangeira seria milagrosa e que isso não é uma realidade palpável. Gakiya afirma que a solução seria uma intervenção militar que auxilie no combate, e ainda fez o alerta de que a classificação como terrorismo pode criar barreiras burocráticas e econômicas que não existem.
O promotor afirma que a troca de informações entre o Ministério Público brasileiro com o FBI e a DEA é através de cooperação policial. E caso o PCC seja classificado como “grupo terrorista”, as informações vão entrar em um nível confidencial, e a responsabilidade será passada para a CIA, o que dificultaria diretamente o acesso dos investigadores brasileiros às informações.

Donald Trump e Lula (Foto: reprodução/Instagram/@hugogloss)
Impactos da classificação no Brasil
Ele também falou sobre os impactos que o Brasil pode ter caso essa classificação aconteça, já que o caminho fica aberto para os EUA fazerem ações militares para combater esses grupos e que sanções econômicas e dificuldade de acesso a bancos multilaterais podem acontecer. “Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a praticar, a executar ações militares fora do estado americano, e você também pode abrir aí um flanco para o Brasil sofrer algum tipo de sanção econômica e mesmo nas relações internacionais”, finalizou.
Não é de hoje que o governo brasileiro tenta acabar com essa discussão dos EUA que classifica facções como o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. O presidente Lula e Donald Trump têm um encontro presencial em Washington marcado para tratar desse assunto.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em uma ligação telefônica, pediu a Marco Rubio, secretário dos EUA, que não seja encaminhada ao Parlamento norte-americano essa pauta, pois, se for enviada, o Congresso terá um prazo de sete dias para fazer a análise e chegar a uma conclusão. O pedido incluiu que Marco espere até o encontro de Lula e Trump, já que o governo brasileiro pretende usar essa reunião para mostrar como tem atuado no combate ao crime organizado no país. A visita oficial de Lula à Casa Branca estaria marcada para acontecer em março, mas, pela agenda agitada do presidente do Brasil e de Trump, uma data ainda não foi acertada.
