Drones com explosivos se tornam nova arma na guerra entre facções no Rio de Janeiro

Imagens obtidas pela polícia mostram ataques contra carros e casas; duas crianças e um homem foram feridos em festa de rua

17 ago, 2026
Drones com explosivos viram nova arma na disputa entre facções no Rio de Janeiro I Reprodução/Instagram/@showdavida
Drones com explosivos viram nova arma na disputa entre facções no Rio de Janeiro I Reprodução/Instagram/@showdavida

Drones carregados com explosivos improvisados passaram a ser usados por facções criminosas em áreas do Rio de Janeiro disputadas por grupos rivais. Imagens obtidas pela polícia e registros feitos por moradores mostram ataques contra veículos e imóveis, pessoas feridas e medo nas comunidades. Os explosivos são granadas feitas com tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e cacos de vidro.

Em um dos vídeos, moradores percebem a aproximação de um drone carregando uma granada. Um homem alerta a mãe sobre o equipamento e a explosão que se segue. “Mãe, o drone com a granada aqui, ó! (…) Vai soltar aqui na rua! Soltou.”

“A gente vive com muito medo mesmo dentro do nosso quintal, mesmo dentro de casa.”

Uma moradora resume assim o sentimento de conviver com os ataques nas comunidades.

Ataques documentados

Um dos ataques foi gravado pelo próprio drone usado pelos criminosos. As imagens mostram uma bomba caseira sendo lançada contra um carro onde estariam integrantes de uma facção rival. Depois da explosão, é possível ouvir os envolvidos comemorando o lançamento bem-sucedido.

Um homem foi atingido por estilhaços na perna. Imagens feitas por moradores mostram ferimentos na perna da vítima e marcas de impacto na lateral do carro. O ataque aconteceu durante o dia, em uma área onde circulavam moradores.

Em outro episódio, uma bomba explodiu ao atingir o telhado de uma casa e destruiu parte da cozinha e de um quarto. Numa comunidade diferente, o explosivo caiu sobre uma árvore no quintal de uma casa e arrebentou uma janela.

“E quando falaram: ‘Olha o drone, olha o drone’, eu só ouvia esse barulho da hélice e um barulhão, um clarão e todo mundo gritando. (…) Acertou minha perna, o estilhaço acertou minha perna.”

Assim relata um morador atingido. Ele afirma que as explosões se tornaram frequentes na região e que a violência já atinge quem não tem relação com a disputa entre as facções. Sua filha costuma andar de bicicleta pelo local.


 

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Reportagem sobre o uso de drones (Vídeo: reprodução/Instagram/@showdavida)


Armas improvisadas

Segundo a polícia, os artefatos usados nos ataques são granadas improvisadas conhecidas como “bombas tubo”. Elas são produzidas com tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e cacos de vidro.

Durante quase dois meses, equipes acompanharam do alto a rotina de comunidades dominadas por organizações criminosas. As imagens mostram ruas com homens armados com fuzis, barricadas, trincheiras e pontos de venda de drogas próximos a casas.

Cenas de vida cotidiana convivem com a criminalidade. Uma mulher cuida de um bebê enquanto traficantes armados vendem drogas no térreo do imóvel. Uma festa de aniversário com brinquedos para crianças acontece ao lado de um homem armado com um fuzil.

Na semana passada, uma festa de rua foi atingida por explosivos lançados por um drone. Duas crianças e um homem ficaram feridos.

Impacto na rotina

A presença dos drones passou a interferir na rotina dos espaços públicos. Na Favela do Quitungo, na Zona Norte, campos de futebol ficam vazios durante a noite. Ao menor sinal de um drone, até criminosos evitam permanecer em áreas abertas.

Em algumas comunidades, traficantes passaram a instalar coberturas sobre as ruas para dificultar ataques vindos do alto. Segundo o delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), essas estruturas são uma forma de proteção contra os ataques de facções rivais.

“O emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades é pra evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo.”

A disputa entre as facções também chegou aos equipamentos usados para localizar e impedir a ação dos drones. Traficantes passaram a usar aparelhos capazes de identificar equipamentos antidrone no céu. Traficantes usam as chamadas ‘bazucas antidrone’, que interrompem a comunicação entre o drone e quem o controla.

“Você ganha olhos no céu (…) A gente está falando aqui de disputa de espaço aéreo”.

Segundo Marcos Mota, ter esse tipo de equipamento pode representar uma vantagem na disputa por território. O delegado afirma que drones significam ‘olhos no céu’ e que se trata de ‘disputa de espaço aéreo’.

Escalada de casos

Registros do Disque Denúncia mostram o crescimento do uso de drones com explosivos. O primeiro relato de um aparelho equipado com granada foi registrado em 2023. Em 2024, foram quatro ocorrências.

No ano passado houve 73 denúncias envolvendo traficantes e 14 relacionadas a milicianos usando drones para lançar granadas e explosivos. Os números indicam uma escalada do problema.

O delegado afirma que o avanço do uso dessa tecnologia exige que as forças de segurança acompanhem de perto as mudanças. “É uma realidade que se impôs e nós não podemos fechar os olhos, a gente tem que compreender o fenômeno e tentar antecipar o que vai vir no futuro.”

Resposta das autoridades

A Secretaria de Segurança Pública do Rio reconhece os riscos do uso de drones por organizações criminosas. A secretaria criou uma divisão especializada para combater esse tipo de crime. O enfrentamento do problema exige integração com o governo federal.

O governo federal vai destinar drones e equipamentos antidrone para reforçar o trabalho das forças de segurança. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) informou que faz a gestão do espaço aéreo brasileiro com foco na segurança e regularidade da navegação. DECEA afirmou que informações sobre fatos que podem envolver investigação criminal devem ser solicitadas às autoridades de segurança pública.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que a segurança nas rotas utilizadas por drones perto de aeroportos envolve articulações com a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

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