Caso Orelha: investigação busca esclarecer morte de cão comunitário em Florianópolis

Suspeita de agressão envolvendo adolescentes mobiliza moradores, autoridades e levanta debate sobre responsabilização e justiça

02 fev, 2026
Caso Orelha segue em investigação | Reprodução/ Instagram/
@porvcorelha
Caso Orelha segue em investigação | Reprodução/ Instagram/ @porvcorelha

Um caso de comoção nacional segue sem respostas definitivas em Florianópolis. Orelha, um cão comunitário conhecido e cuidado por moradores da Praia Brava, no norte da capital catarinense, morreu no início de janeiro após ser encontrado agonizando na região. A investigação policial aponta que o animal foi vítima de agressões, e adolescentes são apontados como suspeitos do crime, que gerou revolta, pedidos por justiça e ampla repercussão nas redes sociais e na imprensa.

Desde que o caso veio à tona, a morte do cachorro passou a simbolizar não apenas a violência contra animais, mas também os desafios da investigação quando não há imagens diretas ou testemunhas do momento exato do ocorrido. O programa Fantástico, da TV Globo, teve acesso a depoimentos importantes e conversou com delegados responsáveis pelo inquérito, além de ouvir familiares e representantes legais dos adolescentes investigados

O que diz a defesa e a família dos acusados

Em entrevista para o Fantástico, pai de um dos suspeitos,  relatou: “A educação que eu e minha esposa damos para ele não foi de passar a mão na cabeça dele. Se ele fez alguma coisa e ficar provado, ele tem que responder. Mas tem que ser provado, porque até agora só foram acusações, acusações, acusações e não tem nada, não apresentaram absolutamente nada. A gente quer justiça tanto quanto as outras pessoas”.

Nos próximos dias, os suspeitos deverão prestar depoimento para que a polícia prossiga as investigações. A defesa de um dos jovens, o advogado Rodrigo Duarte Silva, expressa que espera que a verdade venha à tona e que os adolescentes sem culpa devem ser publicamente inocentados.

O caso despertou comoção pública, com atos de protestos pedindo por justiça e correntes nas redes sociais. O cachorro, “Orelha”, vivia nas ruas e era cuidado por moradores da região da Praia Brava.


Pessoas realizam protestos e pedem justiça por Orelha

Pessoas vão às ruas e pedem por justiça (Foto: reprodução/Instagram/@porvcorelha)


A população, que espera por justiça, anseia saber o nome dos possíveis envolvidos, no entanto, esse e outros dados pessoais dos jovens, permanecerão sob sigilo, devido os suspeitos serem menores de idade, em razão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Caso seja comprovado o envolvimento dos jovens, medidas socioeducativas serão aplicadas, como advertência, prestação de serviço à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou internação por até três anos.

Retorno dos suspeitos e apreensão de celulares

Na quinta-feira (29), dois dos quatro adolescentes apontados como suspeitos retornaram dos Estados Unidos. Segundo informações das famílias e da própria polícia, os jovens participavam de uma viagem previamente programada com colegas da escola. Ainda no aeroporto, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão e recolheram os aparelhos celulares dos adolescentes, etapa considerada fundamental para o avanço das apurações.

De acordo com o delegado Renan Balbino, responsável pela Delegacia de Adolescentes em Conflito com a Lei, os dispositivos já estão sob análise da Polícia Científica. “Os celulares estão apreendidos e passam por extração de todas as informações dos quatro aparelhos, para verificar se há novos elementos que contribuam para o esclarecimento do caso”, afirmou.

A polícia esclareceu ainda que não divulga a identidade dos suspeitos por se tratarem de menores de 18 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe a exposição de imagens ou informações que identifiquem jovens envolvidos, ou que possam estar envolvidos, em atos infracionais, medida que visa preservar direitos e evitar julgamentos antecipados.

Depoimentos, indícios e o desafio da investigação

Na tentativa de reconstruir os últimos momentos de Orelha, a polícia já ouviu mais de 20 testemunhas e analisa cerca de mil horas de imagens captadas por câmeras de segurança espalhadas pela Praia Brava. Apesar do volume expressivo de material, os investigadores confirmam que não há registros do momento exato da agressão.

“Não há imagens do cão sendo agredido nem do instante exato do crime”, afirmaram delegados durante entrevista ao Fantástico. Segundo eles, o inquérito se baseia em um conjunto de indícios convergentes que levantam a suspeita sobre o envolvimento de adolescentes. “Nosso desafio é juntar as peças desse quebra-cabeça para esclarecer o que aconteceu”, explicou uma das delegadas.

Comunidade cobra justiça e famílias pedem cautela

A morte de Orelha causou profunda indignação entre moradores da região. Conhecido por circular livremente pela Praia Brava, o cachorro era cuidado coletivamente. A consultora de vendas Andrea Macedo relatou que o animal era “bem popular” e recebia alimentação, abrigo e atenção da comunidade no dia a dia.

Do outro lado, familiares dos adolescentes investigados afirmam confiar na apuração dos fatos. O pai de um dos jovens declarou que não pretende acobertar possíveis erros do filho. “A educação que eu e minha esposa demos não foi de passar a mão na cabeça. Se ficar provado que ele fez algo, terá que responder. Mas até agora só houve acusações, sem provas concretas”, disse.

A defesa também cobra rapidez na coleta dos depoimentos. O advogado Rodrigo Duarte da Silva, que representa duas famílias, afirmou esperar que a verdade venha à tona o quanto antes. Segundo ele, adolescentes sem qualquer responsabilidade devem ser publicamente inocentados, enquanto eventuais culpabilidades precisam ser apuradas de forma proporcional e dentro da lei. Enquanto a investigação segue, o caso Orelha continua mobilizando a sociedade e reacendendo discussões sobre maus-tratos a animais, responsabilidade juvenil e o equilíbrio entre justiça, provas e comoção pública.

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