Seu Jorge lança “The Other Side” e apresenta fase mais madura da carreira
Novo álbum de Seu Jorge reúne Marisa Monte Maria Rita Arnaldo Antunes e Beck em fase marcada por jazz bossa nova e música sinfônica
Após mais de uma década de desenvolvimento, o cantor, compositor e multi-instrumentista Seu Jorge lançou nesta sexta-feira (8) o álbum “The Other Side” (“O Outro lado”, em português), trabalho que considera um dos momentos mais maduros de sua trajetória artística.
Gravado ao longo de 16 anos entre Brasil e os Estados Unidos, o disco nasceu como um projeto sem pressa, distante das fórmulas industriais da música e guiado pela busca por beleza e liberdade criativa.
Seu Jorge detalha criação do álbum
Com produção assinada ao lado de Mario Caldato Jr., o álbum apresenta um lado menos dançante do artista e aposta em uma atmosfera que transita entre jazz, música sinfônica, bossa nova e referências clássicas da música brasileira.
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Imagens da gravação do álbum “The Other Side” no estúdio em Los Angeles (Fotos: reprodução/Instagram/@seujorge)
Em entrevista exclusiva concedida à Billboard Brasil, Seu Jorge definiu o disco como o trabalho que melhor traduz quem ele é artisticamente. “Esse talvez seja o disco que melhor explique o que é o Seu Jorge”, afirmou o cantor durante a conversa.
Ao longo de 11 faixas, o projeto reúne colaborações com grandes nomes como Marisa Monte, Maria Rita, Arnaldo Antunes e o músico norte-americano Beck. O disco também mergulha em influências de artistas que marcaram profundamente a formação musical de Seu Jorge, como João Gilberto, Milton Nascimento e Lô Borges.
Segundo Seu Jorge, “The Other Side” começou a ser desenvolvido aos poucos entre 2009 e 2019, sem qualquer obrigação de cumprir calendários comerciais ou estratégias de marketing que, muitas vezes, limitam a criação. “Nos distanciamos daquela fórmula industrial de produzir discos, onde tudo tem uma data certa para sair por conta da campanha de marketing”, disse.
A longa produção também permitiu que novas participações fossem incorporadas ao álbum ao longo dos anos. O músico Beck, por exemplo, entrou no projeto já durante a fase de finalização. As gravações de Marisa Monte e Maria Rita, por sua vez, aconteceram entre 2013 e 2015.
Projeto acompanha evolução pessoal e externa
Além das mudanças musicais, o álbum também foi atravessado por transformações pessoais e históricas vividas pelo cantor ao longo dos últimos 16 anos.
Seu Jorge afirmou que iniciou o projeto em um momento completamente diferente de sua vida e acompanhou o crescimento dos filhos enquanto o álbum era desenvolvido. Segundo ele, a própria filha, Flor, participou diretamente da construção conceitual do disco ao criar um storyboard detalhado para possíveis produções audiovisuais relacionadas às faixas.
O artista também refletiu sobre as mudanças políticas e sociais que marcaram o Brasil e o mundo desde o início das gravações, como as mudanças no cenário político brasileiro e a pandemia, que alteraram profundamente a percepção coletiva e acabaram influenciando a maneira como o disco dialoga com o público.
“Acho que a possibilidade de publicar esse disco agora, depois de tudo o que passamos, colabora com a ideia de trazer um acalento. Algo que nos preencha e faça com que a gente se reconheça no mundo”, afirmou.
Ele ainda defendeu o papel da cultura como ferramenta diplomática em tempos de crise internacional e conflitos armados, explicando que a música pode funcionar como uma ponte entre países mesmo em momentos de tensão política.
A visão global de que a cultura funciona como ferramenta diplomática em tempos de crise aparece na própria estrutura musical do álbum, que mistura referências brasileiras com elementos internacionais sem abandonar a identidade construída pelo artista ao longo da carreira.
Um trabalho sofisticado
O lançamento do álbum também vem sendo tratado como um dos projetos mais ambiciosos da discografia de Seu Jorge devido à forte presença de arranjos orquestrais assinados por Miguel Atwood-Ferguson, distanciando-se da sonoridade mais popular que marcou parte da trajetória do artista nos anos 2000.
Após deixar a banda Farofa Carioca, Seu Jorge iniciou a carreira solo com “Samba Esporte Fino”, disco elogiado pela mistura entre samba e soul. Nos anos seguintes, lançou trabalhos que ampliaram sua popularidade, incluindo “América Brasil”, álbum impulsionado por sucessos como “Burguesinha” e “Mina do Condomínio”.
Agora, “The Other Side” aparece como um projeto mais introspectivo e sofisticado, voltado para experimentações vocais, arranjos grandiosos e referências que atravessam diferentes gerações da música brasileira.
Álbum “The Other Side, de Seu Jorge, completo no Spotify (Playlist: reprodução/Spotify/Seu Jorge)
Ao refletir sobre o momento atual da carreira, Seu Jorge diz que ainda pretende explorar novas possibilidades artísticas nos próximos anos, incluindo a ideia de gravar outro disco de samba e até um projeto voltado para rimas.
Mas, mesmo após atingir um patamar de reconhecimento internacional, o cantor encara a liberdade artística com cautela, pois, para ele: “A perfeição não existe; o que existe é o aperfeiçoamento constante”, concluiu.
