As mulheres estão apostando mais do que nunca?

A realidade da década de 2020, no entanto, apresenta um cenário diferente

17 abr, 2026
Mulher de costas | Reprodução/JESHOOTS.COM/Uunsplash.com
Mulher de costas | Reprodução/JESHOOTS.COM/Uunsplash.com

O jogo tem sido estereotipado há muito tempo como um passatempo predominantemente masculino. Sempre que você pensa em um jogador elegante ou em um frequentador assíduo de cassinos, é provável que esteja pensando em um homem. A imagem de homens em mesas de pôquer e probabilidades de apostas esportivas piscando nas telas está gravada em nosso imaginário cultural.

A realidade da década de 2020, no entanto, apresenta um cenário diferente. Em todo o mundo, desde aplicativos de cassino para celular até a venda de raspadinhas em lojas locais, as mulheres estão participando de jogos de azar mais do que nunca.

No entanto, as histórias que contamos quase nunca se concentram nessa mudança. Então, por que não ouvimos falar mais sobre isso? E o que está impulsionando essa mudança demográfica que as escolas de pensamento tradicionais sobre jogos de azar frequentemente ignoram?

A transformação é silenciosa, mas os números não mentem

Dados recentes sugerem que a participação das mulheres em jogos de azar não é apenas maior do que costumava ser, mas também mais diversificada.

Um relatório recente revelou que cerca de 28% das mulheres jogavam pelo menos uma vez por semana, geralmente em raspadinhas e loterias. Outros 66% relataram ter se envolvido em pelo menos um tipo de jogo de azar nos últimos 12 meses, segundo uma pesquisa de 2023.

A tendência é global. Austrália está passando por essa mudança. Os mercados norte-americano e europeu, que representam de 30 a 40% ou mais dos usuários de cassinos e apostas esportivas online, também têm cada vez mais usuárias.

O principal fator dessa mudança foi a acessibilidade. O marketing acompanhou essa tendência e migrou para nossas redes sociais. Normalmente, os jogos são apresentados como um bônus ou promoção que os faz parecer um mimo inofensivo ou um momento para relaxar.

Embora as mulheres frequentemente joguem para sentir a adrenalina de uma vitória, pesquisas sugerem que o jogo feminino é motivado por uma razão completamente diferente, ou seja, a fuga.

O que está impulsionando essa mudança?

Para entender o que está impulsionando essa mudança, precisamos analisar uma combinação de fatores econômicos, sociais, psicológicos e setoriais.

1. Facilidade de acesso

As plataformas de jogos de azar online e móveis mudaram radicalmente a forma como acessamos os jogos de azar. Agora, as mulheres podem jogar discretamente em casa, sem precisar frequentar ambientes que antes eram considerados dominados por homens ou nos deixavam desconfortáveis.

Para um observador externo, parece apenas alguém navegando na tela do celular.

A transição para os espaços digitais também coincidiu com a mudança de atitudes sociais e o aumento da posse de smartphones em todo o mundo. Os tabus tradicionais em torno das mulheres e dos jogos de azar estão perdendo força, à medida que passamos a encarar essa atividade como apenas uma das muitas opções de lazer, em vez de algo para se sussurrar.

2. Entretenimento, conexão social e alívio do estresse.

Estudos demonstraram que muitas mulheres não jogam apenas para tentar ganhar dinheiro. Elas jogam por diversão, interação social e para aliviar o estresse. Em pesquisas que examinaram as motivações das mulheres, uma grande maioria relatou que o jogo proporcionava diversão ou alívio do estresse, e não apenas uma chance de ganhar dinheiro.

Jogos online, noites de bingo e raspadinhas podem ser uma maneira fácil de relaxar após longos dias, conectar-se com outras pessoas ou simplesmente buscar um pouco de emoção sem precisar ir a um cassino.

3. Fatores financeiros e econômicos

Seria negligente da nossa parte não mencionar o incentivo financeiro, especialmente porque cada vez mais pessoas em todo o mundo estão enfrentando uma crise do custo de vida.

Muitas famílias, onde as mulheres são as principais responsáveis pelas finanças, estão com dificuldades financeiras, o que tem levado a um aumento no número de jogos de azar. A esperança é que isso alivie o estresse financeiro, lhes permita ganhar dinheiro extra ou pagar contas e despesas, como alimentação.

A pressão para fechar as contas pode levar a um ciclo perigoso de tentativas de “recuperar” o orçamento familiar. Isso é especialmente verdadeiro em países de baixa renda.

Apostar não é, de forma alguma, uma estratégia para ganhar dinheiro, já que a maioria dos apostadores perde mais do que ganha.

No entanto, a esperança de um retorno em algo que parece fácil, como o jogo Aviator, e o aspecto emocional envolvido podem ser uma proposta poderosa quando o dinheiro está curto.

Hoje em dia, são comum os bônus de cassinos online que imploram para você ‘clique aqui’ e obter algum tipo de benefício. Eles podem incentivar as pessoas a se cadastrarem, inclusive mulheres que talvez não tivessem considerado essa possibilidade.

Os riscos e a realidade

O aumento da participação não vem sem desvantagens. Pesquisas alertam para a dependência das telas e da tecnologia. Esse fenômeno biológico e social demonstra que, embora as mulheres geralmente comecem a jogar mais tarde do que os homens, elas tendem a desenvolver um problema muito mais rapidamente. Começa como uma forma de relaxar, mas logo se transforma em um hábito incontrolável em questão de meses.

Então, por que raramente ouvimos falar deste assunto?  A resposta é simples: estigma. A sociedade ainda julga as mulheres com mais severidade por “perderem o controle”. Um homem com um histórico de vício em jogos de azar é tão comum que chega a ser clichê, mas uma mãe que desenvolve um problema com o vício é vista como uma falha moral.

Isso gera silêncio, que por sua vez gera conversas prejudiciais sobre o vício em jogos de azar entre mulheres. Em 2026 e nos anos seguintes, não podemos continuar ignorando metade da história. As mulheres são mais do que participantes, pois suas experiências estão moldando o próprio cenário.

Quer abordemos isto como uma questão de política/saúde pública, realidade económica ou questão cultural, a narrativa precisa de refletir quem está realmente envolvido e porquê.

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